Karina Oliani: Médica, Atleta e a Medicina em Ambientes Extremos
A jornada de Karina Oliani revela como a medicina de altitude e a paixão por desafios moldam uma vida sem limites.
Neste episódio do XTREMMA Sports, Shubi Guimarães entrevista Karina Oliani, médica e mountaineer, sobre a fusão de medicina e aventura. Ela compartilha suas experiências no Everest e K2, a travessia de um lago de lava e a fundação do Instituto Dharma. Uma reflexão profunda sobre riscos, responsabilidade e redefinição de limites pessoais e profissionais.
No primeiro episódio do XTREMMA Sports, a apresentadora Shubi Guimarães recebe a renomada médica e atleta Karina Oliani para uma conversa inspiradora sobre a interseção entre a medicina e os ambientes mais inóspitos do planeta. Karina, que vivencia o extremo sob a dupla perspectiva de atleta e médica, compartilha suas vivências em alta montanha, resgates improváveis e como a maternidade redefiniu sua percepção de risco.
A Paixão Pelos Extremos: Do DNA à Montanha
Desde muito jovem, Karina demonstrou uma atração inata por aventuras e desafios. Mesmo com pais conservadores e sem experiência em atividades ao ar livre, ela buscava brincadeiras que a levassem para fora da zona de conforto. Sua trajetória esportiva começou com wakeboard (bicampeã brasileira), snowboard (tricampeã brasileira) e corridas de aventura, que expandiram seus limites de percepção sobre distância e resistência.
No entanto, foi na alta montanha que Karina encontrou sua verdadeira paixão, transformando a competição externa em uma jornada de autoconhecimento. Em ambientes sem oxigênio, com frio extremo e isolamento, ela percebeu que a força mental e o controle psicológico eram decisivos para a superação, muitas vezes mais importantes que o porte físico. Isso a levou a escalar montanhas, sonhando com o Everest e, posteriormente, o temido K2.
Medicina e Superação no Everest: Uma Escolha de Vida
A escolha pela medicina foi impulsionada pelo desejo de ajudar e ser útil. Em 2013, durante sua expedição ao Everest, a poucos metros do cume, Karina e seu Sherpa, Pemba, encontraram um alpinista "tecnicamente morto" na zona da morte. Apesar de estar prestes a realizar um sonho de anos, ela não hesitou em tentar o resgate, movida por seu juramento médico. "Não consigo ir lá para cima e deixar um cara aqui morrendo", afirmou.
O resgate foi improvável, mas Karina aplicou todos os seus conhecimentos e medicações, incluindo dexametasona para edema cerebral de altitude (HACE) e oxigênio. Em um momento de profunda gratidão e desprendimento do ego, a equipe do alpinista apareceu, assumindo o resgate. Mais tarde, Karina soube que o homem sobreviveu. Após o incidente, ela e Pemba retornaram e alcançaram o cume, apesar de Karina ter seu olho congelado, sendo salva pela intervenção rápida e inusitada de Pemba.
Essa experiência marcou profundamente Karina, ensinando-lhe que nenhum sonho vale a pena se for preciso passar por cima dos outros ou dos próprios valores.
Desafios Além das Alturas: K2 e o Lago de Lava
A ascensão do K2, considerada a montanha mais perigosa do mundo, foi outro marco. Karina enfrentou o preconceito contra mulheres alpinistas na montanha e a dificuldade de conseguir patrocínio. Ela escalou o K2 duas vezes em menos de uma semana devido a uma avalanche que varreu as cordas. Sua persistência a manteve na montanha quando a maioria dos outros desistiu, resultando em sua bem-sucedida conquista.
Outro feito notável foi a travessia do lago de lava do Erta Ale, um vulcão na Etiópia, localizado no deserto mais quente do mundo. A ideia, inicialmente considerada "louca" por vulcanologistas, exigiu anos de planejamento e desenvolvimento de equipamentos com tecnologia da NASA e de bombeiros para resistir a temperaturas extremas e gases tóxicos. Durante a travessia, Karina enfrentou uma hemorragia nasal (epistaxe) grave e teve que lutar para não se afogar no próprio sangue dentro da máscara, superando o desafio em 90 segundos intensos.
A Medicina de Altitude e a Realidade Brasileira
Karina destaca a importância do conhecimento médico especializado para alta montanha, uma área onde o Brasil ainda carece de terreno adequado para treino. O tratamento de condições como HACE, HAPE (edema pulmonar de altitude) e frostbite (congelamento) difere drasticamente dos procedimentos em nível do mar. A falta de familiaridade do brasileiro com o frio extremo e a mentalidade de esperar sentir frio para se agasalhar são perigosas em altitudes elevadas, onde a prevenção é fundamental.
Em termos de resgate e infraestrutura médica, há grandes diferenças. Enquanto o Everest conta com a clínica Everest ER, com equipamentos avançados e resgate de helicóptero, montanhas como o K2 não oferecem nenhuma estrutura de apoio. Aconcágua, por exemplo, exige um check-up obrigatório de médicos governamentais. Karina ressalta que, ao contrário do Brasil, onde serviços de emergência são públicos, em muitas regiões de alta montanha, os resgates são cobrados e exigem seguro específico.
Instituto Dharma: Transformando Vidas Através da Medicina Humanitária
Inspirada pela gratidão após o Everest e pelo desejo de ajudar as comunidades Sherpa, Karina co-fundou o Instituto Dharma. A organização realiza expedições humanitárias, levando medicina especializada para comunidades remotas no Brasil e em outros países, onde o acesso a cardiologistas, oftalmologistas e outros especialistas é escasso. O trabalho voluntário dos médicos transforma a vida das pessoas e oferece uma profunda gratificação aos participantes.
Maternidade e Extremos: Redefinindo Prioridades
A chegada de sua filha, Cora, transformou a percepção de Karina sobre o que realmente é extremo. Ela descreve a maternidade como um desafio ainda maior que escalar montanhas, redefinindo o egoísmo e a coragem. Embora continue apaixonada por grandes desafios, como escalar o Annapurna, ela agora avalia os riscos de forma diferente, priorizando a responsabilidade com a filha. Cora, com apenas 4 anos, já acompanhou a mãe em mais de 30 países, vivenciando a aventura desde cedo.
A jornada de Karina Oliani é um testemunho de resiliência, conhecimento técnico e um profundo senso de propósito. Sua vida é um lembrete constante de que os limites são frequentemente mentais e que a verdadeira grandeza reside em desafiar a si mesmo e, ao mesmo tempo, estender a mão para o próximo. Suas histórias nos inspiram a buscar nossos próprios "Everests", sempre com respeito à vida e aos valores humanos.