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Hélio Souza: Além do Pódio no Ciclismo de Alta Performance

O renomado treinador Hélio Souza compartilha sua visão sobre performance, talento e o que realmente constrói um ciclista.

Hélio Souza, mestre pela USP e fundador da HE Assessoria, mergulha nas complexidades do treinamento em ciclismo. Ele explora as diferenças entre atletas profissionais e amadores, a evolução das metodologias e o verdadeiro significado de alta performance. Descubra como a paixão e a inteligência esportiva moldam campeões.

No mais recente episódio do "Na Roda do Stemma", a apresentadora Gisele Gasparotto recebeu o renomado treinador Hélio Souza, fundador da HE Assessoria. Com mais de duas décadas dedicadas ao desenvolvimento de ciclistas amadores e profissionais, Hélio, mestre pela USP, trouxe uma perspectiva única sobre a alta performance no esporte. A conversa aprofundou-se em temas como a formação de atletas, a evolução do treinamento, a gestão da frustração e o que realmente diferencia um campeão, desde o tempo de brincadeira de criança com a bike até o pódio.

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A Filosofia por Trás do Treinamento de Ciclistas

A trajetória de Hélio Souza na educação física revelou uma lacuna entre a teoria acadêmica e a prática do esporte. Para Hélio, a chave para o sucesso é escutar o atleta, valorizando sua bagagem e experiência, mesmo que amadora. Seu método se baseia em provocar o atleta a compreender seu próprio desempenho, ajustando e melhorando o que já fazem, sem radicalizar as abordagens. Ele exemplifica com casos como o de André Grizante, que treinava 25 dias diretos, e Jean Coloca, que descobriu que seu problema não era velocidade, mas uma base aeróbica deficitária.

Ao longo de sua carreira, Hélio trabalhou com grandes nomes do ciclismo brasileiro, como Henrique Avancini e Raíssa Goulão. Sua observação de atletas profissionais e amadores o fez perceber que muitos amadores aplicam uma pressão desnecessária sobre si, maior até do que a dos profissionais. Sua assessoria, HE Assessoria, focada exclusivamente no ciclismo, surgiu da necessidade de desmistificar o treinamento e mostrar a realidade por trás da alta performance.

Hélio Souza: Além do Pódio no Ciclismo de Alta Performance

Evolução do Treinamento e o Papel da Tecnologia

Nos últimos 20 anos, a quantidade de informações e recursos para o treinamento mudou drasticamente, o que Hélio Souza considera um avanço gigantesco. Ferramentas como o GPS e aplicativos como o Strava trouxeram dados valiosos, mas o treinador alerta para o risco de atletas se tornarem "reféns" dos números, perdendo a conexão com o contexto real e o objetivo principal: cruzar a linha de chegada em primeiro, não apenas melhorar um número no dispositivo.

Ele enfatiza que a repetição é básica, mas não garante qualidade. A verdadeira evolução vem da capacidade do atleta de avaliar e analisar seu próprio corpo e desempenho, adaptando-se a dias bons e, principalmente, aos dias ruins. Elementos como a gestão do estresse e a qualidade energética se tornaram diferenciais para manter os atletas em movimento com mais eficiência.

Volume, Qualidade e Saúde Metabólica

Quando o assunto é volume de treino, Hélio Souza destaca que o ciclismo exige uma sólida base aeróbica. No entanto, ele pondera que "não são somente as horas, são os como você constrói essas horas". O volume deve ser proporcional à capacidade de recuperação do atleta, evitando que se torne uma "fadiga disfarçada de disciplina".

O conceito de saúde metabólica é crucial: a capacidade do organismo de suportar a carga de treino de forma saudável e manter a energia para o dia a dia. Hélio avalia isso através de conversas profundas com seus atletas, que aprendem a identificar os sinais de desequilíbrio. Não existe uma receita pronta; o treino precisa se encaixar na realidade individual de cada ciclista, seja ele amador ou profissional.

Talento, Compromisso e o "Cubo Mágico" da Performance

Hélio Souza redefine o conceito de talento no esporte, que vai muito além das capacidades físicas. Ele ressalta a importância da inteligência esportiva, a habilidade de um atleta em "juntar as peças" de forma estratégica, como em um cubo mágico, onde mexer em uma parte afeta o todo. Ele usa Henrique Avancini como um exemplo de talento estratégico: embora talvez não fosse o "piloto" mais talentoso que trabalhou (menciona Márcio Ravelli), sua capacidade de filtrar informações e entender o que era importante para ele o levou muito mais longe.

Para Hélio, Avancini não era o atleta mais disciplinado, mas sim extremamente comprometido com a evolução. Essa busca incessante o levava a questionar e buscar novos horizontes. Hélio também compartilha um ensinamento: um bom ciclista não é medido pela velocidade máxima, mas pela capacidade de andar devagar com a aptidão de ir muito rápido, ou seja, a reserva e controle.

O Cenário do Ciclismo Brasileiro

Analisando o ciclismo no Brasil, Hélio expressa preocupação com a falta de um diagnóstico unificado entre os treinadores, o que impede a evolução do esporte no país. "Cavar bem no lugar errado é cavar mal", sentencia. Ele acredita que o Brasil possui um vasto material humano, com muitos talentos que se perdem pela ausência de um plano coeso. A solução, segundo ele, passa por trazer mão de obra qualificada de fora e promover o intercâmbio de conhecimentos, além de valorizar a experiência de ex-profissionais como Murilo Fischer e Pagliarini.

Para os amadores, Hélio aponta como maiores erros a tendência de copiar treinos de outros atletas e a negligência com a recuperação, aumentando o volume de forma irresponsável. Ele enfatiza a importância do treino de força fora da bike, não apenas para o desempenho, mas para a longevidade e qualidade de vida do ciclista, notando que as mulheres têm demonstrado ótimos resultados nessa área.

Frustração e o Verdadeiro Legado

Hélio compartilha sua própria evolução em lidar com a frustração, entendendo que, mesmo fazendo tudo certo, o resultado não é garantido. A paixão pela vitória é importante, mas o processo e a transformação são o que realmente o movem. A história de Avancini, buscando "coisa grande" e arriscando pela evolução, inspira essa visão de que o compromisso vai além do pódio.

A trajetória de Hélio Souza é um testemunho de como a ciência, a prática e a escuta ativa do atleta podem moldar não apenas campeões, mas indivíduos resilientes e autônomos. Suas reflexões nos convidam a repensar a busca pela alta performance, mostrando que o caminho para o pódio é construído muito antes, nas pequenas escolhas e na compreensão profunda de si mesmo e do esporte.

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