Gabriel Tarso: A Lente e a Batalha pela Sobrevivência na Alta Montanha
O fotógrafo e filmmaker que documenta o limite humano em picos como Everest e K2, revela os perrengues e as escolhas entre a arte e a vida.
A XTREMMA Sports recebe Gabriel Tarso, montanhista e filmmaker, para um mergulho profundo nas realidades da alta montanha. Ele compartilha como equilibra o desejo de capturar imagens espetaculares com os riscos extremos. Desde a infância nas montanhas brasileiras até as jornadas no Himalaia, Tarso narra suas experiências de superação.
O ambiente da alta montanha, com seus desafios glaciais e rarefação do ar, é palco para a equipe da XTREMMA Sports desvendar a mente de quem busca o extremo. Desta vez, a apresentadora Shubi Guimarães conversou com Gabriel Tarso, um nome que se destaca por ir além da escalada, documentando expedições nas montanhas mais desafiadoras do planeta. Sua paixão pela arte e pela natureza o transformou em um testemunha e participante, vivendo as mesmas condições de risco e exaustão dos atletas que acompanha.
Do Vale do Paraíba aos Oito Mil Metros
A jornada de Gabriel Tarso começou em Cruzeiro, no Vale do Paraíba, uma cidade que lhe proporcionou uma visão privilegiada da Serra da Mantiqueira. Ainda criança, as montanhas eram um ambiente hostil e inatingível em sua imaginação. A fotografia, inicialmente um meio de renda na adolescência, capturando casamentos e formaturas, foi o caminho para combinar sua paixão pelas montanhas com a arte de registrar momentos.
Um ponto de virada significativo foi um concurso de fotografia da revista Go Outside por volta de 2012, que abriu portas para um novo universo. Gabriel, que já trabalhava com audiovisual e design, encontrou nesse concurso a chance de mostrar sua visão do mundo outdoor. Esse foi o primeiro passo para sair do tradicional e buscar a aventura.
A transição para as grandes montanhas veio com projetos para o Canal Off, especialmente o 'Sete Cumes', e para a Red Bull, como o 'Andes 6K'. Este último, em 2016 para 2017, foi uma verdadeira escola. Passando cerca de 60 dias em expedição, o projeto exigiu autossuficiência total, explorando montanhas nos Andes, muitas delas acima de 6 mil metros, onde ele foi o primeiro brasileiro a ascender algumas delas. Essa experiência forjou sua capacidade de gerenciar riscos, equipamentos e a própria saúde em ambientes completamente remotos.
O Atleta e o Filmmaker: Uma Dupla Exaustiva
A função de Gabriel Tarso é complexa: ser um montanhista de alta performance enquanto opera como fotógrafo e filmmaker. Isso significa carregar um peso extra significativo — baterias, câmeras, lentes para diferentes cenários — e, simultaneamente, ter a capacidade física de estar à frente, atrás ou fora da rota principal para conseguir o melhor ângulo. "As melhores imagens, os melhores ângulos, às vezes estão fora da cena. Às vezes não, quase sempre", explica Gabriel. Isso o expõe a riscos adicionais de avalanches e quedas, além dos perigos inerentes a todos na montanha.
A preparação física para essa dupla jornada é extrema. Como o Brasil não oferece altitudes significativas para aclimatação, Gabriel treinava intensamente nas condições físicas mais desafiadoras. Ele conta que saía de madrugada para escalar trilhas com desníveis brutais na Serra Fina, simulando o ataque ao cume em alta montanha, exaurindo o corpo e a mente para replicar a fadiga e a sonolência que se sente acima de 8 mil metros. Essa simulação busca prepará-lo para os momentos críticos, onde a clareza mental e a energia para operar o equipamento são cruciais.
A Batalha pela Vida: Oxigênio Zero no Everest
Durante sua terceira ascensão ao Everest em 2023, Gabriel enfrentou um dos maiores perrengues de sua carreira. Na descida, no Cume Sul, a cerca de 8.700 metros de altitude, percebeu que seu cilindro de oxigênio estava vazio. "Ali foi uma briga assim, contra a morte mesmo", relata. Em um estado de exaustão extrema e sem conseguir se comunicar efetivamente com o jovem sherpa que o acompanhava, ele se viu sozinho, com o corpo definhando rapidamente. Após uma breve perda de consciência, a urgência de agir tomou conta.
Sem energia para executar procedimentos de segurança habituais, Gabriel improvisou um nó para descer por um trecho íngreme. A sorte, ou talvez a providência, fez com que ele encontrasse dois cilindros de oxigênio abandonados de outra expedição. Com as últimas forças, alcançou os cilindros, e após um breve desmaio, a primeira conexão revelou um cilindro vazio. O segundo, contudo, liberou o ar. "É a melhor sensação da minha vida", descreve. "Você realmente percebe a vida voltando. Seu corpo está definhando na zona da morte, e quando o oxigênio vem, é instantâneo a melhora. É tipo Popeye comendo espinafre."
Avalanches e a Imprevisibilidade da Montanha
Gabriel também compartilhou uma experiência marcante de avalanche no Manaslu em 2022. Na ocasião, ele estava subindo para aclimatação e havia deixado seu equipamento de segurança pesado na barraca, convencido por outros de que não seria necessário. Ao parar para comer, ouviu uma explosão. Uma avalanche desceu em sua direção, passando a apenas metros de distância. "A avalanche veio e, assim como a água procura o caminho mais rápido, ela desviou onde eu estava", contou. Esse evento, que ele não conseguiu filmar no momento da ocorrência por estar em modo de sobrevivência, o fez refletir sobre a sorte e a imprevisibilidade da montanha.
Nessa mesma temporada, o alpinista Anup faleceu e outro colega, Dawa, foi resgatado após ficar soterrado pela neve. A experiência trouxe à tona a negligência e a falta de equipamentos de segurança adequados em algumas expedições, contrastando com o padrão europeu de uso de transceptores de avalanche e pás. Para Gabriel, a 'turistificação' do Everest e de outras montanhas, com pessoas menos preparadas e mais dependentes de oxigênio suplementar, aumenta exponencialmente os riscos. O erro humano, seja por negligência ou excesso de autoconfiança, é, para ele, o maior perigo na montanha, superando até mesmo a imprevisibilidade da natureza.
Entre a Grandeza da Montanha e a Força do Afeto
Após três ascensões ao Everest, Gabriel percebeu uma evolução em sua perspectiva. A primeira vez foi marcada pela grandiosidade, pela sensação de ser "nada" diante da magnitude da montanha. A cada retorno, a maturidade o fez buscar "continuar enxergando beleza no ordinário", ou seja, na repetição e nos detalhes que se revelam a cada nova visita. Sua vida, agora, também é moldada por uma nova "montanha": a paternidade.
Com seu filho Chico, de apenas seis meses, Gabriel precisou reavaliar seus compromissos, recusando projetos desafiadores para estar presente. Ele vê na paternidade um novo tipo de aventura, tão intensa quanto as expedições, e um convite para desacelerar e observar o mundo pela perspectiva de uma criança. Embora continue com projetos de aventura em 2024, como uma expedição de parapente no Paquistão, trekking no Peru e Nepal, o retorno às altas montanhas de oito mil metros está planejado apenas para 2027.
A conversa finaliza com uma reflexão sobre a perda de amigos na montanha, como Edson e Ignácio. Gabriel ressalta a importância de honrar a memória daqueles que viveram seus sonhos nas alturas, e como a percepção da mortalidade o faz valorizar ainda mais os laços afetivos. "O amor continua indo para a montanha, só muda o significado", conclui, celebrando a paixão pela aventura, agora equilibrada com o amor e a responsabilidade da família.