Fernando Scheffer: controle emocional e a medalha em Tóquio
Medalhista olímpico dos 200m livre explica como alinhar expectativas, focar no que é controlável e superar a pressão.
Em entrevista ao Stemma, o nadador Fernando Scheffer detalha como o trabalho psicológico foi decisivo para o bronze em Tóquio 2020. Ele relembra os bastidores da final olímpica na raia 8, o recorde mundial do revezamento em Hangzhou e as lições aprendidas nos ciclos de alto rendimento.
Subir ao pódio olímpico exige muito mais do que metros acumulados na piscina e repetições exaustivas na musculação. Para o nadador gaúcho Fernando Scheffer, medalhista de bronze nos 200m livre nos Jogos Olímpicos de Tóquio, a grande chave do alto rendimento está em dominar o lado emocional. O esporte de elite ensina rápido: focar apenas no resultado final costuma gerar ansiedade e frustração, enquanto concentrar a energia na execução do que está sob o próprio controle destrava a melhor performance.
Com títulos sul-americanos, pan-americanos e um ouro com recorde mundial em piscina curta no revezamento 4x200m livre, Scheffer construiu sua trajetória na natação a partir de uma competitividade nata cultivada na infância ao lado do irmão mais velho, Augusto. Aos 17 anos, campeão brasileiro júnior com tempos próximos ao topo absoluto do país, ele optou por priorizar a carreira nas piscinas — decisão que exigiria maturidade acelerada para lidar com a frustração logo em seu primeiro grande objetivo adulto.
A virada de chave após a seletiva da Rio 2016
O primeiro grande revés na elite aconteceu na seletiva para as Olimpíadas do Rio de Janeiro, em 2016. Desconcentrado ao ver o tempo de um adversário no placar, Scheffer acelerou os primeiros 100 metros muito acima do ritmo planejado (passou para 50s80, tendo 51s como melhor marca individual na época) e cansou nos metros finais, terminando em sexto na final B e fora da vaga olímpica.
Ao observar a postura calma de seu companheiro de treino André Pereira, que conquistou a classificação, Scheffer decidiu buscar auxílio psicológico. O trabalho com o psicólogo esportivo Márcio mudou a forma como ele encarava os treinos e as competições: em vez de mentalizar a vitória ou medalhas — fatores que dependem também do desempenho dos rivais —, o foco passou a ser a preparação física impecável e o cumprimento estrito da estratégia de prova.
O ouro e o recorde mundial improvável em Hangzhou 2018
Em 2018, já treinando no Minas Tênis Clube, Scheffer integrou uma das maiores conquistas da história da natação brasileira. No Campeonato Mundial de Piscina Curta em Hangzhou, na China, o Brasil montou o revezamento 4x200m livre com uma formação alternativa: Scheffer (que havia ido para a disputa dos 400m livre), Luiz Altamir, Breno Correia e Leonardo Santos, especialista em provas de medley que assumiu a quarta perna após Leonardo de Deus nadar as eliminatórias pela manhã.
Entrando na final como azarões contra potências como Estados Unidos e Rússia, o quarteto transformou a descontração interna em sintonia competitiva. Todos os nadadores bateram suas melhores marcas pessoais na prova, e o Brasil superou as linhas virtuais para conquistar o título e cravar o recorde mundial da prova.
A conquista do bronze em Tóquio na raia 8
O amadurecimento mental foi colocado à prova nos Jogos Olímpicos de Tóquio. Após o estresse da seletiva brasileira em formato de tentativa única e as incertezas provocadas pelo adiamento do evento por conta da pandemia, Scheffer desembarcou no Japão determinado a aproveitar a experiência sem o peso de expectativas irreais sobre medalha.
Depois de avançar com o segundo melhor tempo nas eliminatórias, o brasileiro viveu uma semifinal dramática e garantiu a última vaga para a decisão por apenas 9 centésimos. Na manhã da final, largando na raia 8, Scheffer viu o nadador sul-coreano Sunwoo Hwang disparar nos primeiros 25 metros, mas optou por não quebrar seu ritmo planejado. Concentrado exclusivamente em sua braçada, ultrapassou os concorrentes no terço final e bateu na borda com o tempo de bronze, confirmando a medalha olímpica.
As armadilhas da cobrança e o ciclo rumo a Los Angeles 2028
O ciclo seguinte trouxe novos desafios. Scheffer admite ter caído na armadilha da autocobrança excessiva para os Jogos de Paris, focando excessivamente na meta de ser campeão olímpico. O excesso de pressão interna acabou prejudicando a leveza necessária para a evolução dos treinos e das competições.
Com a experiência acumulada de quem já sentiu o peso das expectativas extremas, o nadador recalibrou o planejamento para os próximos anos. A meta agora é manter o foco etapa por etapa, priorizando o calendário nacional e internacional imediato antes de projetar a disputa por uma vaga nos Jogos Olímpicos de Los Angeles em 2028, enquanto acompanha a ascensão de novos nomes da natação brasileira, como Guilherme Caribé e Guilherme Costa.