Fernando Cheles e os bastidores técnicos do L’Étape Brasil
Do BMX ao comando do maior evento de ciclismo amador do país, diretor técnico detalha segurança, percursos e bastidores.
Fernando Cheles une a vivência no downhill, BMX e ciências do esporte para desenhar os percursos do L’Étape Brasil. Em conversa detalhada, ele explica a engenharia por trás das provas, a gestão de riscos e os debates sobre gregários e antidoping.
Organizar uma prova de ciclismo com milhares de atletas em estradas totalmente fechadas exige muito mais do que demarcar quilômetros no asfalto: demanda leitura técnica, gestão de risco e sensibilidade de quem conhece a bicicleta por dentro. No comando técnico do L’Étape Brasil desde as primeiras conversas em 2014, Fernando Cheles acumula uma trajetória que passa por estrada, pista, mountain bike, BMX e downhill antes de assumir as decisões operacionais de um dos principais circuitos amadores do país.
Formado em Ciências do Esporte, Cheles uniu a vivência competitiva ao estudo da motricidade e da pilotagem sobre duas rodas. Em entrevista ao Na Roda do Stemma, com Gisele Gasparotto, ele detalhou sua evolução no esporte, o trabalho de formação de base e a complexa logística por trás dos percursos em Cunha, Campos do Jordão, Rio de Janeiro e Serra Negra.
Das pistas de BMX e do downhill à ciência do esporte
A relação de Fernando com a bike começou nas ruas de Assis (SP), integrando a equipe municipal em Jogos Regionais e Abertos no ciclismo de estrada e na pista. O gosto pela pilotagem rápida e agressiva o levou ao downhill, modalidade na qual conquistou pódio em Campeonato Pan-Americano e figurou entre os primeiros colocados na tradicional Descida das Escadas de Santos, no Monte Serrat.
Ao mesmo tempo em que competia, Cheles buscou a faculdade de Ciências do Esporte em Londrina (PR). A curiosidade científica sobre o flow e a dinâmica da bicicleta em pistas de BMX — onde atletas ganham velocidade sem pedalar, apenas absorvendo os obstáculos — serviu de base para seu trabalho de conclusão sobre motricidade. A partir dessa vivência, liderou a recuperação de uma pista abandonada no autódromo de Londrina para fundar a APABMX, projeto que mais tarde se tornou centro de treinamento nacional.
Em São Paulo, cursou pós-graduação e deu aulas na Arena Radical, sob a ponte Ari Torres, ensinando desde crianças de escolas públicas até adultos e idosos a desenvolverem equilíbrio e confiança em cima da bicicleta.
A engenharia e a segurança por trás do L’Étape Brasil
À frente da direção técnica do L’Étape Brasil desde a edição de estreia em Cunha (2015), Cheles adota o princípio de planejar o evento com os olhos de quem está no pelotão. Antes de qualquer decisão de fechamento viário, ele percorre os trajetos de carro e de bicicleta, analisando zonas de risco, trechos de frenagem, curvas cegas e a dinâmica do fluxo para milhares de ciclistas.
Em Cunha, os primeiros anos colocaram o pelotão diante de desafios extremos com a subida da Serra do Mar logo na largada e passagens íngremes como o Lavandário sob forte calor, registrando altas taxas de desistência. Com o amadurecimento do mercado e o objetivo de tornar o evento mais permissivo e seguro para iniciantes, o trajeto foi reformulado, transferindo a parte inicial para estradas mais planas antes das serras decisivas.
Já a passagem pelo Rio de Janeiro representou o maior desafio operacional da história da prova no Brasil. Realizar um percurso de 100 km em área urbana densa exigiu a instalação de mais de 15 mil gradis, dois staffs por faixa de pedestres na orla da Zona Sul, rotas de ambulância para múltiplos hospitais e afunilamentos milimetricamente calculados para garantir a passagem segura de 3 mil atletas rumo ao Parque Nacional da Tijuca e à Vista Chinesa.
Debates sobre pelotão, gregários e controle antidoping
Questionado sobre temas frequentes no ciclismo amador, Cheles contextualizou a postura técnica da organização em relação a táticas de equipe, pelotões e controle de substâncias. Para ele, o uso de gregários por uma fração mínima de competidores que disputam o pódio reflete a dinâmica histórica do ciclismo de estrada, embora o esforço reduzido em até 30% pelo vácuo funcione quase como um benefício mecânico em disputas por faixa etária.
No entanto, o diretor destacou que a prioridade de fiscalização recai sobre a má-fé: atletas não inscritos atuando como 'gregários pipocas' para puxar competidores oficiais. Para coibir a prática, o evento adota identificação visual e reconhecimento facial para punir tanto o ciclista sem inscrição quanto o atleta beneficiado no regulamento.
Em relação às largadas, o modelo atual prioriza a segurança pelo histórico de velocidade média para evitar colisões entre pelotões com ritmos muito discrepantes. Quanto ao controle de dopagem, a organização apoia a presença da Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem (ABCD) nas provas, defendendo a integridade física e o esporte limpo para que o ciclismo seja vivenciado com equilíbrio e saúde.