Descomplicando as zonas de treinamento com Prof. Dr. Fabiano Pinheiro
Entenda como seu corpo se adapta aos estímulos e a importância de respeitar as intensidades para evoluir de verdade.
Neste episódio do Stemma Performance, Bruna Mahn recebe o Prof. Dr. Fabiano Pinheiro para desmistificar as zonas de treinamento. Eles explicam desde os tipos de fibras musculares até a importância dos testes de performance e da comunicação entre atleta e treinador. O objetivo é que atletas e entusiastas compreendam como o corpo funciona e otimizem seus treinos.
No mais recente episódio do Stemma Performance, a apresentadora Bruna Mahn recebeu o Prof. Dr. Fabiano Pinheiro para uma conversa essencial sobre um tema que gera muitas dúvidas entre atletas e entusiastas: as zonas de treinamento. Para quem recebe planilhas com termos como “aeróbico”, “anaeróbico” ou “intensidade leve/moderada”, entender o que se passa no corpo e como essas zonas são determinadas é um divisor de águas na busca por performance.
Zonas de Treinamento: Pontos de Transição Fisiológica
Segundo o Prof. Dr. Fabiano Pinheiro, as zonas de treinamento são, conceitualmente, pontos de transição fisiológica. Elas representam percentuais do máximo de esforço que o corpo pode suportar, e a determinação delas pode ser feita de forma indireta, por meio de testes de campo como o FTP (Functional Threshold Power) ou percentual da frequência cardíaca máxima. Contudo, o padrão ouro para essa visualização ideal é o teste incremental máximo em laboratório, que utiliza ventilômetro para medir consumo de oxigênio e produção de CO2, revelando alterações que ocorrem no corpo, como concentrações de lactato, ventilação e recrutamento muscular.
Exercício como 'Dose': Respeitar as Zonas é Essencial
Fabiano Pinheiro faz uma analogia interessante entre o exercício físico e a dosagem de remédios. Embora ressalte que exercício não é remédio — pois um é uma substância química e o outro é uma ferramenta de tratamento não farmacológico —, a ideia de “dose” é crucial. Assim como um médico prescreve a dose correta de um medicamento, o treinador prescreve uma “dose de exercício” que combina intensidade, duração, frequência e volume. Essa dose é projetada para induzir adaptações e melhorias no indivíduo.
A importância de respeitar essas zonas é um ponto chave. Treinar em baixa intensidade, por exemplo, é como investir dinheiro que rende juros passivamente. Não se trata de “apanhar” em todo treino, mas sim de trabalhar com inteligência, focando na recuperação tanto quanto no estímulo. A ciência atual, inclusive, tem direcionado mais estudos para a recuperação, visando diminuir o desgaste e otimizar a resposta do corpo.
Desvendando as Fibras Musculares: LED vs. Incandescente
Para simplificar o complexo funcionamento do organismo, Fabiano explica os tipos de fibras musculares usando uma analogia com lâmpadas:
Fibras Tipo 1 (vermelhas): Equivalem a uma lâmpada de LED 110 W. São altamente resistentes, econômicas e duráveis, mas produzem pouca força. Predominam em atividades de endurance.
Fibras Tipo 2x (brancas): Analogia com uma lâmpada incandescente 220 W. Gastam muita energia, geram alta tensão (força), mas são pouco resistentes e entram em fadiga rapidamente.
Fibras Tipo 2a (intermediárias): São um meio-termo, produzindo mais força que a Tipo 1 e sendo mais econômicas que a Tipo 2x.
É importante entender que o recrutamento dessas fibras não é um “liga e desliga”, mas uma adição. Quando as fibras Tipo 1 não conseguem mais gerar a tensão necessária, o cérebro aciona as Tipo 2a e, se o esforço é ainda maior, as Tipo 2x. Essa sobreposição é fundamental para o atleta compreender que nunca ficamos “sem oxigênio”, mas sim com predomínio de sistemas energéticos.
Um estudo curioso, no qual Fabiano participou e teve uma biópsia muscular, mostrou as diferenças na composição de fibras entre indivíduos destreinados e ciclistas treinados. Ciclistas apresentavam um percentual muito maior de fibras Tipo 1. Além disso, a densidade capilar (irrigação sanguínea das fibras) é significativamente maior em atletas treinados, o que melhora o aporte de oxigênio e nutrientes, como uma avenida com mais saídas.
O Corpo como uma Usina de Energia: Hidrelétrica e Termelétrica
Fabiano utiliza outra analogia para explicar os sistemas energéticos:
Sistema Aeróbico (Hidrelétrica): Alta capacidade de produção de energia, como a Usina de Itaipu. É a “energia limpa” do corpo, predominante nas zonas de intensidade moderada (Z1 e Z2), utilizando principalmente fibras Tipo 1 e ácidos graxos livres. Sustentável por horas.
Sistema Anaeróbico (Termelétrica): Acionado quando o sistema aeróbico não consegue sustentar a demanda energética sozinho. Gera mais “poluição” metabólica (estresse), utilizando fibras Tipo 2. É a “ajuda” que entra em ação nas zonas mais pesadas (Z3 e Z4).
Navegando pelas Intensidades: Do Leve ao Extremo
À medida que a intensidade do exercício aumenta, o corpo transita por domínios:
Domínio Moderado (Z1-Z2): Estabilidade do sistema, predominância aeróbica. Aqui, o corpo consegue manter o esforço por longos períodos.
Domínio Pesado (Z3-Z4): Aumenta o estresse metabólico, recrutando fibras Tipo 2a. O sistema aeróbico se aproxima de sua capacidade máxima, e a “termelétrica” começa a contribuir mais. Ainda há estabilidade, mas o conforto diminui.
Domínio Severo (acima de Z4): Fibras Tipo 1 e 2a não são mais capazes, e as Tipo 2x são acionadas intensamente. Há uma perda de estabilidade do sistema (segundo limiar ou ponto de compensação respiratória), com aumento abrupto de lactato e ventilação. É o limite do sofrimento, onde o corpo decide se vale a pena continuar.
Estratégias para Evoluir: Treinos Intervalados e Recuperação
Para treinar nas intensidades mais elevadas do domínio severo sem “quebrar”, a estratégia é “pagar parcelado”. Treinos de HIIT ou SIT envolvem estímulos curtos de alta intensidade (ex: 60 segundos) seguidos por períodos de recuperação ativa (ex: 4 minutos em Z1/Z2). Isso permite que o atleta atinja picos de esforço, gere estresse metabólico e melhore o aprendizado neuromuscular, sem apagar completamente.
A recuperação é onde a mágica acontece. No período de descanso, o corpo se adapta, aumentando a capacidade de produção de energia e remoção de metabólitos. Com o tempo, a capacidade de recuperação aumenta, e o atleta consegue repetir estímulos mais intensos em menos tempo.
Testes de Performance: Complementares para um Treino Preciso
A importância dos testes de performance, sejam de campo (FTP) ou de laboratório (incremental máximo), é inegável. Os testes de laboratório oferecem um “padrão ouro” em ambiente controlado e reprodutível, fornecendo parâmetros precisos dos limiares fisiológicos. Isso permite ao treinador ajustar a “dose” do treino com maior assertividade.
Com o treinamento, os limiares fisiológicos se deslocam para a direita (o atleta consegue manter maior potência em zonas mais baixas de esforço percebido). Refazer os testes periodicamente é crucial para reajustar as zonas, garantindo que o estímulo continue eficaz. Não basta ter um VO2 máximo elevado; a performance é também determinada pela posição dos limiares e pela economia de movimento.
A comunicação entre atleta e treinador é a chave para o sucesso. O feedback do atleta sobre suas sensações, nível de fadiga, alimentação e sono permite ao treinador modular o treino, ajustando repetições ou tempos de recuperação, transformando o complexo quebra-cabeça do treinamento em um caminho claro para a evolução.
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Para saber mais sobre avaliações neuromusculares ou cardiopulmonares, o Prof. Dr. Fabiano Pinheiro atende no Labfab (@labfab.cienciadociclismo) no Tatuapé, zona leste de São Paulo. Você pode entrar em contato pelo Instagram ou pelo e-mail labfab.cienciadociclismo@gmail.com.br.