Da Olimpíada para o treino: a fisiologia na natação
Dr. Paulo Puccinelli analisa as rotinas da seleção brasileira e mostra o que o atleta amador deve aplicar na água.
Médico da seleção brasileira de natação e triatleta, Dr. Paulo Puccinelli detalha os bastidores da alta performance e explica como adaptar protocolos olímpicos para o nadador amador. Do controle de lactato ao treino de força e hidratação em maratonas aquáticas, veja o que realmente transforma o rendimento.
A distância entre um atleta olímpico na borda da piscina e um nadador amador em busca de evolução pode parecer intransponível, mas os princípios fisiológicos que regem o corpo humano são exatamente os mesmos. No episódio do Natação Stemma, Samir Barel e Wanderley Santos receberam o Dr. Paulo Puccinelli — médico da seleção brasileira de natação pela CBDA, doutor em fisiologia do exercício pela UNIFESP e triatleta amador com pódios em provas de Ironman — para desmistificar o alto rendimento e traduzir a ciência esportiva para o dia a dia de quem treina.
Da piscina do interior à medicina do esporte
A relação de Paulo Puccinelli com a natação começou na infância, em Bebedouro, no interior paulista. Após anos de treinamento competitivo na juventude, ele ingressou na faculdade de Medicina da USP em Ribeirão Preto e chegou a se especializar em Oftalmologia antes que a paixão pelo triatlo despertasse o interesse pela medicina do esporte. A mudança de rumo o levou a uma nova residência na área e, posteriormente, à equipe médica da seleção brasileira ao lado de Gustavo Magliocca, acompanhando atletas em ciclos olímpicos, mundiais e períodos de aclimatação em altitude.
Ativação e técnica: a rotina fora d'água
Uma das principais diferenças apontadas por Puccinelli entre a elite e o ambiente amador não está apenas no volume de metros nadados, mas no rigor do trabalho preventivo fora da piscina. Enquanto atletas olímpicos iniciam exercícios individualizados de mobilidade e ativação muscular até 40 minutos antes do treino na água, o nadador master frequentemente pula essa etapa por falta de tempo ou hábito.
O médico também destaca a profunda conexão técnica dos profissionais com a água, caracterizada por alta eficiência hidrodinâmica e economia de energia. Essa diferença mecânica faz com que o trabalho de base e o preparo físico em terra firme (conhecido como dryland) sejam ainda mais cruciais para quem não conta com a bagagem motora construída desde a infância.
Lactato alto e monitoramento clínico
No acompanhamento laboratorial de atletas de ponta, a prioridade inicial é sempre consolidar a saúde de base por meio de painéis hormonais, marcadores inflamatórios (como cortisol, PCR e VHS) e avaliação cardiológica completa. A partir desse alicerce, avaliações específicas de campo entram em cena para monitorar a resposta ao estresse do treinamento.
Um exemplo marcante compartilhado por Puccinelli é a dinâmica do lactato em velocistas de elite. Enquanto um nadador comum entra em exaustão com níveis moderados de acidose muscular, atletas como Nicholas Santos chegam a registrar 22 mmol/L de lactato em esforço máximo. Mais curioso ainda é o aquecimento pré-prova em eventos rápidos de 50 metros: muitos velocistas realizam ativações neuromusculares intensas — com saltos, paraquedas e medicine balls — para largar com o lactato já elevado (em torno de 9 mmol/L), aproveitando o composto como substrato energético e ativando precocemente as vias de depuração metabólica.
Intensidade e durabilidade nas águas abertas
A maratona aquática internacional passou por uma transformação tática expressiva nos últimos ciclos olímpicos. Com a migração de fundistas velozes da piscina para o mar e rios, as provas de 10 km deixaram de ter um ritmo brando no início. Hoje, o pelotão de elite imprime forte intensidade logo na largada, exigindo dos competidores a chamada durability — capacidade de sustentar ritmos muito próximos ao limiar anaeróbio por horas e recuperar-se sem desacelerar.
Esse perfil fisiológico de altíssima resistência é a marca de nadadoras consagradas como Ana Marcela Cunha. Puccinelli ressalta que essa tolerância ao esforço prolongado e à natação contra correntezas fortes credencia a brasileira a grandes feitos na ultramaratona aquática, incluindo desafios extremos como a travessia do Canal da Mancha.
Força, prevenção e longevidade no atleta master
Para o nadador amador ou master, o ponto de partida do planejamento deve ser o indivíduo, sua rotina e seu histórico de saúde, e não uma meta rígida descolada da realidade. A partir dos 40 anos nas mulheres e dos 50 nos homens, ocorre um declínio natural mais acentuado de força e potência muscular. Por isso, a musculação pesada e o treino de força tornam-se inegociáveis para desacelerar essa perda funcional.
O cuidado ortopédico também exige atenção ao ombro, a articulação mais sobrecarregada pelo volume repetitivo de braçadas. Fortalecer a cadeia posterior e equilibrar o manguito rotador evita a anteriorização do ombro e lesões crônicas, garantindo que o atleta preserve a longevidade esportiva.
Estratégia nutricional e a barreira das três horas
Em provas longas e ultramaratonas aquáticas, a queda acentuada de rendimento após cerca de três horas a três horas e meia de prova não é mero desgaste psicológico: trata-se de esgotamento de glicogênio hepático e muscular, desidratação e perda de sódio. Quando as reservas internas caem abaixo de determinado limiar, o sistema nervoso central deflagra mecanismos involuntários de fadiga.
Para contornar o problema, a suplementação com carboidratos, água e eletrólitos deve ser rigorosamente treinada durante as sessões do dia a dia, e não apenas no dia do evento. No caso dos atletas amadores, que passam consideravelmente mais horas na água para completar a mesma quilometragem de um profissional, as paradas de alimentação precisam ser tratadas como investimento estratégico de tempo para sustentar a performance até a chegada.