Como a bike virou recomeço e formou a equipe Pedal Altino
Após dois transplantes renais, Edson Henrique encontrou no ciclismo a motivação para transformar sua saúde e a comunidade de Osasco.
A trajetória de Edson Henrique mostra como o ciclismo pode transcender o esporte e se tornar um instrumento de recuperação física e transformação social. Diagnosticado com insuficiência renal crônica jovem, ele superou dois transplantes e criou o Pedal Altino, que evoluiu de passeios de bairro a uma equipe de ciclismo de estrada em Osasco.
Diagnóstico precoce e a batalha contra a insuficiência renal
Natural do interior de Minas Gerais, Edson Henrique mudou-se para Osasco aos 19 anos para trabalhar no setor farmacêutico. Pouco tempo depois de chegar a São Paulo, um olhar clínico atento de um médico em seu local de trabalho apontou sinais de alteração física, confirmados após exames laboratoriais como um quadro grave de insuficiência renal crônica. A condição exigiu internação imediata e o início de sessões de hemodiálise três vezes por semana.
Aos 20 anos, Edson realizou o primeiro transplante renal com a doação de seu pai. Sem a plena compreensão da gravidade da doença e acreditando estar curado, ele descuidou da medicação e da rotina de saúde nos anos seguintes. O órgão transplantado gradativamente perdeu a função, levando-o de volta à máquina de hemodiálise aos 38 anos, onde permaneceu por mais três anos à espera de um doador compatível — período em que também enfrentou a perda de um irmão pela mesma condição genética familiar.
O recomeço sobre duas rodas em Presidente Altino
Após receber o segundo transplante, vindo de um doador cadáver, o aviso médico foi enfático: a realização de um terceiro procedimento seria quase inviável, tornando a mudança definitiva no estilo de vida uma questão de sobrevivência. Edson precisava praticar exercícios com regularidade. Sem se adaptar ao ambiente de academia, ele comprou uma mountain bike e decidiu pedalar pelas ruas do bairro Presidente Altino, em Osasco.
Para aumentar a segurança nos trajetos noturnos, convidou vizinhos e conhecidos locais. O primeiro pedal reuniu oito pessoas, marcando o início do Pedal Altino. O grupo começou a crescer rapidamente através do boca a boca, combinando passeios semanais com paradas gastronômicas em feiras da região e estendendo os percursos até Barueri e a capital paulista.
Da explosão na pandemia às cicloviagens épicas
Durante a pandemia, o movimento ganhou força estrutural. Com cuidados redobrados por fazer parte do grupo de risco, Edson e seus companheiros mantiveram a comunidade ativa por meio de fotos e registros nas redes sociais. Na retomada das atividades coletivas, o grupo organizou iniciativas como o Slow Kids, que chegava a reunir mais de 150 ciclistas com crianças para percursos de 16 quilômetros, trazendo famílias de diversas cidades vizinhas.
Com guias uniformizados, rádios comunicadores e rotas mapeadas previamente, o Pedal Altino passou a promover grandes cicloviagens por destinos tradicionais como o Caminho da Fé, a Rota da Luz e as descidas da Serra do Mar. Entre as memórias marcantes do grupo destaca-se o desafio da Serra do Rio do Rastro, enfrentado com bicicletas de mountain bike em um trajeto duro onde a união dos ciclistas garantiu que todos concluíssem o percurso.
A transição para equipe competitiva de ciclismo de estrada
Com a evolução técnica e física dos participantes, parte dos integrantes buscou desafios maiores em competições. O saldo acumulado na venda de uniformes e nas cicloviagens serviu de base financeira para inscrever atletas em provas regionais. O destaque nas ruas chamou a atenção do poder público, integrando o Pedal Altino à estrutura esportiva de Osasco para a disputa de Jogos Regionais ao lado de outros projetos locais.
Com a fundação formal de uma associação esportiva, a equipe direcionou seu foco integralmente para o ciclismo de estrada (Road), revelando talentos femininos e masculinos de categorias de base. Para Edson, o compromisso diário com os treinos reflete a disciplina aprendida durante os anos de tratamento: a dedicação ao esporte é a garantia de manter a saúde e abrir caminhos para que mais pessoas transformem suas vidas através da bicicleta.