Ciência no Endurance: Treino Inteligente para Alta Performance
Descubra como a fisiologia e a estratégia individualizada transformam o treino pesado em resultados reais no ciclismo e triatlo.
Dr. Gerson Leite, fisiologista renomado, desmistifica o treino de endurance, mostrando que a ciência é a chave para a alta performance. Ele aborda desde os erros comuns de treinamento até a importância da recuperação e da mentalidade. Entenda como otimizar seu desempenho e alcançar seus objetivos com inteligência.
No episódio do "Na Roda do Stemma", a host Gisele Gasparotto recebe o Dr. Gerson Leite, fisiologista do esporte, pós-doutor pela USP e Head da Universidade do Endurance. A conversa aprofunda-se na interseção entre a ciência e a prática nos esportes de endurance, como o ciclismo, triatlo e corrida, revelando que esforço, volume e vontade não são suficientes para a alta performance. É preciso fisiologia, estratégia e método.
A Jornada do Dr. Gerson Leite: Da Paixão à Ciência Aplicada
Dr. Gerson Leite compartilha sua paixão pelo ciclismo, iniciada na infância e intensificada aos 16 anos, pedalando em rodovias com sua Caloi 12. Essa vivência o ensinou sobre superação e autoconfiança, impulsionando-o para a educação física e, posteriormente, à fisiologia do esporte. Inicialmente focado em atletas de elite, Gerson percebeu que o conhecimento científico deveria ser acessível a todos.
Em 2014, fundou a Trifosfato, um laboratório independente de fisiologia, que hoje atende prioritariamente atletas amadores. Seu objetivo é aplicar a ciência de forma individualizada para otimizar treinos, gerenciar perda de peso e aprimorar a performance, ajustando o plano às necessidades e rotinas de cada atleta.
O Erro de Treinar Sempre Forte e a Importância da Recuperação
Um dos pontos mais criticados por Gerson no cenário esportivo brasileiro é a cultura de treinar sempre pesado. A crença de que intensidade constante gera resultados leva muitos atletas e treinadores a negligenciar a recuperação, impedindo a adaptação e evolução do corpo.
Ele exemplifica com a história da triatleta Mari Andrade, vice-campeã brasileira de contrarrelógio na elite sob sua orientação. O sucesso de Mari não veio de treinos em Z5 constantes, mas de uma abordagem científica e individualizada que respeitava a necessidade de recuperação do corpo. Gerson destaca que estudos com atletas do Pro Tour de ciclismo mostram que 70% a 90% do treino é realizado em zonas de baixa intensidade (Z1/Z2), contrastando com a obsessão brasileira pelas zonas mais altas, que compromete a capacidade de recuperação em provas.
Desmistificando Zonas de Treino, FTP e Métricas Essenciais
A definição e interpretação da Zona 2 (Z2) são fontes de grande confusão. Gerson explica que, cientificamente, o corpo opera em três zonas metabólicas principais. A Z2 científica, que vai do primeiro limiar ao FTP (Functional Threshold Power), já representa um esforço moderado a pesado, e não um "passeio no parque" como muitos pensam (que seria Z1).
Ele ressalta que a relevância do FTP varia conforme o objetivo: é crucial para um contrarrelogista, mas menos para quem busca completar um Gran Fondo. A durabilidade em prova, ou seja, a capacidade de manter o desempenho até o final, muitas vezes se mostra mais importante do que picos de potência.
Para o atleta amador, o ponto de partida é um check-up de saúde. As métricas essenciais incluem GPS e cinta cardíaca, que fornecem dados básicos de treino e monitoram a frequência cardíaca. Para quem busca um nível de detalhe maior, o investimento em um medidor de potência é o próximo passo, permitindo maior precisão no controle do treino. Testes de laboratório (VO2, lactato) e de campo são ferramentas complementares valiosas.
Mente, Métricas e Mitos: Além do Físico
No laboratório, Gerson observa que o limite mental muitas vezes precede o físico. A tolerância ao desconforto e o uso do Endurance Brain Training são cruciais para expandir a capacidade de suportar a carga de treino. Ele também alerta para o uso de dispositivos vestíveis (smartwatches, anéis): são excelentes para medir o tempo de sono e a variabilidade da frequência cardíaca (HRV), mas falham na avaliação da qualidade do sono, que exige exames como a polissonografia. É fundamental não deixar que esses dados substituam a percepção individual e o diálogo com o treinador.
Sobre mitos nutricionais, Gerson desmistifica o uso generalizado de treino em jejum, dietas low carb e carnívoras para alta performance. Embora o jejum possa ter seu lugar em fases específicas e sob orientação, o carboidrato permanece o combustível essencial para atletas de elite em Olimpíadas e Mundiais, não havendo evidências científicas robustas que comprovem a superioridade de outras dietas para esse nível de desempenho.
Diálogo, Confiança e Evolução: Conselhos para Atletas e Treinadores
Para o atleta estagnado, Gerson sugere uma mudança de mentalidade. Caso o problema persista mesmo após seguir 100% do plano atual, a troca de treinador pode trazer novos estímulos e perspectivas, reprogramando a cabeça do atleta para a evolução.
Aos treinadores, o conselho é claro: invistam no estudo da ciência do esporte e na combinação dela com a experiência prática. Ignorar a evolução tecnológica, incluindo a Inteligência Artificial que já oferece feedbacks aos atletas, é ficar para trás. A experiência, sem a atualização científica, perde relevância.
Finalmente, para os atletas: siga o plano do seu treinador, confie no processo e mantenha um diálogo aberto e honesto. A comunicação é a chave para que o treinador compreenda suas sensações e necessidades, ajustando o plano para maximizar seu potencial. Essa relação de confiança e respeito é o motor da evolução.
A conversa com Dr. Gerson Leite no "Na Roda do Stemma" ressalta que a verdadeira performance no endurance não se trata apenas de esforço bruto. Ela é construída sobre inteligência, intenção e a aplicação rigorosa da ciência ao treinamento. Compreender o corpo, desmistificar velhas crenças e cultivar um diálogo transparente com seu treinador são pilares inegociáveis para qualquer atleta que almeja a evolução, seja em um Ironman, Triathlon, Maratona ou em seu pedal diário. A jornada de autoconhecimento e a busca por um treino mais inteligente são o caminho para superar limites e alcançar o que antes parecia impossível.