Ciclismo no triathlon: técnica, treinos e aerodinâmica
O treinador Alexandre Balmam detalha como pilotagem, testes no plano e atenção aos detalhes transformam a bike na prova.
Muito além de gerar potência no rolo, o ciclismo no triathlon exige leitura de terreno, domínio técnico e escolhas inteligentes de equipamento. O treinador Alexandre Balmam explica como construir uma base sólida e evoluir nos treinos para pedalar com eficiência.
No triathlon, o ciclismo representa a maior fatia do tempo de prova e dita o estado físico com que o atleta chegará para a corrida. No entanto, muitos triatletas ainda encaram a modalidade apenas sob a ótica da potência bruta e do treinamento indoor. Em conversa com Bruna Mahn no Stemma Performance, o experiente treinador Alexandre Balmam destacou que a performance sobre duas rodas depende de um equilíbrio refinado entre habilidade técnica na estrada, consistência de treino e escolhas estratégicas de equipamento.
A estrada ensina o que o rolo não mostra
Embora o rolo de treino seja uma ferramenta valiosa para controlar zonas de esforço e ajustar a cadência, a pilotagem real só se desenvolve no asfalto. Para Balmam, atletas acostumados exclusivamente ao ambiente indoor frequentemente sofrem ao encarar percursos técnicos, com curvas fechadas, subidas íngremes e descidas em alta velocidade. Ele cita o exemplo clássico do profissional Lionel Sanders, que precisou buscar treinos ao ar livre e até no gravel para lapidar o manuseio da bicicleta.
Saber o momento exato de trocar a marcha, dosar a pressão no freio dianteiro sem travar e manter a fluidez do pedal em variações de terreno economiza energia vital para a prova. A recomendação para quem está começando ou quer aprimorar a pilotagem é se expor gradualmente a trajetos sinuosos e ladeiras, construindo confiança e reflexo sem depender unicamente das métricas do ciclocomputador.
Estruturação de treinos e testes de FTP
Na metodologia aplicada em sua assessoria, Balmam ressalta a importância de um período de base bem executado no início do ano, focado em rodagem e volume. Quando o assunto é a aferição de zonas de intensidade, a escolha do terreno faz toda a diferença: o treinador prefere aplicar testes de FTP em trechos planos em vez de subidas longas.
A experiência prática mostrou que muitos atletas sustentam potências elevadas em serras — onde a inclinação força o recrutamento contínuo —, mas não conseguem reproduzir esses mesmos números no plano, cenário predominante na maioria das provas de triathlon. Balmam também enfatiza que o autoconhecimento e a percepção de esforço devem andar lado a lado com os dados de potência, garantindo que o competidor saiba gerenciar o ritmo mesmo se o equipamento falhar durante a prova.
Rotina para iniciantes e transição de distâncias
Para quem está dando os primeiros passos e sonha em completar um Ironman 70.3 ou uma prova de longa distância, a organização da rotina semanal precisa ser realista. Balmam sugere uma frequência mínima de três sessões semanais para cada uma das três modalidades, ajustando o volume de acordo com o histórico esportivo individual.
O treinador reforça ainda o valor formativo das provas curtas, como o Triathlon Sprint e o Olímpico. Queimar etapas e migrar direto para provas longas aumenta o estresse e diminui o aprendizado das dinâmicas de transição e ritmo. Caso o atleta enfrente limitações severas de tempo ou histórico de lesões, a inclusão do trabalho de força muscular deve ser priorizada, mesmo que isso signifique substituir uma sessão específica de pedal ou corrida.
Aerodinâmica, mecânica e a busca pelos pequenos ganhos
A evolução das bicicletas e componentes trouxe ganhos expressivos de velocidade, mas Balmam lembra que a tecnologia deve ser aplicada com critério e conhecimento. Conhecer a mecânica básica da própria bicicleta — como montar, desmontar e fazer pequenos ajustes — muda a relação do atleta com o equipamento e evita erros comuns no dia da prova.
Ganhos marginais de aerodinâmica e rolagem não exigem necessariamente investimentos exorbitantes. Fatores acessíveis como o uso de vestuário adequado, posicionamento correto de caramanholas, capacetes bem ajustados ao perfil do ciclista e calibragens precisas dos pneus geram economia real de watts. O segredo está em entender o custo-benefício de cada detalhe e colocá-lo a serviço da eficiência.