O boom do trail run no Brasil: riscos, desafios e transição
Sidney Togumi analisa a evolução da modalidade, o perigo de queimar etapas nas ultras e a transição do asfalto à montanha.
O trail running vive uma explosão de praticantes e eventos no Brasil, mas o avanço exige cautela técnica e respeito aos limites da montanha. Sidney Togumi discute controle de carga, a ilusão das ultra distâncias e a importância da autonomia para correr com segurança.
O trail running vive uma fase de expansão sem precedentes no Brasil. Se há uma década o esporte era nichado e restrito a poucos atletas de aventura, hoje o calendário nacional e internacional atrai milhares de corredores em busca de altimetria e desafios extremos. No entanto, o crescimento acelerado acende um alerta importante: a busca precoce por distâncias monumentais sem a devida base física, técnica e mental pode transformar o desafio em frustração ou risco real.
Trail run e asfalto: lógicas completamente diferentes
Uma das principais armadilhas para quem migra da rua para a trilha é tentar transportar métricas de ritmo diretamente para o terreno acidentado. Na montanha, o parâmetro fundamental deixa de ser a distância absoluta em quilômetros e passa a ser o tempo total de esforço sob altimetria acumulada. Enquanto um atleta amador bem condicionado completa 10 km no asfalto em cerca de 45 a 50 minutos, a mesma quilometragem em uma serra técnica pode facilmente demandar o dobro ou o triplo desse tempo.
Pelas diretrizes internacionais da ITRA (International Trail Running Association), uma prova é caracterizada como trail quando trechos pavimentados não ultrapassam 20% do percurso total. Além do tipo de terreno, a modalidade exige uma constante dupla tarefa cognitiva: o corredor precisa monitorar onde pisa a cada passada, administrando desnível, pedras e raízes, o que altera completamente o padrão de fadiga periférica em relação à cadência homogênea da rua.
A mecânica do esforço: subidas cansam, descidas machucam
No treinamento para montanha, a gestão de carga vai muito além da rodagem semanal. Entram na equação o desnível positivo acumulado, a inclinação das encostas e até o peso adicional da mochila de hidratação e dos equipamentos obrigatórios. Nos treinos específicos, a manipulação dessas variáveis dita a adaptação do atleta ao terreno real de prova.
Existe um consenso prático entre técnicos experientes: a subida exige capacidade cardiovascular e consome energia, mas é a contração excêntrica das descidas que verdadeiramente destrói a musculatura. Em percursos com múltiplas montanhas, o impacto acumulado na primeira descida dita o rendimento mecânico nas subidas subsequentes. Por isso, fortalecer o componente periférico e treinar descidas com técnica é o que sustenta o atleta competitivo até a linha de chegada.
A ilusão das ultras e o perigo de queimar etapas
A glamourização das ultra distâncias — provas de 50 km, 80 km ou 100 milhas — tem levado muitos iniciantes a pularem etapas essenciais de desenvolvimento. Ao se inscreverem prematuramente em provas longas, muitos participantes completam o trajeto em ritmo predominantemente de caminhada. A ausência de dor muscular no pós-prova muitas vezes gera uma falsa sensação de preparo, mascarando sobrecargas articulares e, principalmente, uma estafa mental profunda que afasta o atleta dos treinos no médio prazo.
Outro fator crítico é a autonomia em áreas remotas. Em percursos isolados, como travessias em serras acentuadas, o resgate médico pode levar horas devido à inacessibilidade para veículos convencionais. A segurança pessoal primária cabe sempre ao atleta, que precisa saber gerir hidratação, alimentação, vestuário térmico e orientação em situações climáticas adversas, sem terceirizar integralmente a responsabilidade à organização do evento.
A via de mão dupla entre a rua e a montanha
Apesar das diferenças, a corrida de rua e o trail running são amplamente complementares. O trabalho estruturado no asfalto desenvolve velocidade de cruzeiro, eficiência biomecânica e potência aeróbica máxima (VO2), qualidades que elevam o teto de desempenho do atleta em trechos planos ou estradas de terra no trail. Por outro lado, as trilhas desenvolvem força neuromuscular, estabilidade articular e resiliência mental.
Para quem deseja estrear na modalidade, o segredo é desapegar do ego e dos números de pace. Iniciar em percursos com menor complexidade técnica, aceitar a caminhada tática nas subidas mais íngremes e construir uma progressão sólida de volume são os passos indispensáveis para desfrutar da montanha com longevidade e performance.