A Ascensão dos Tênis Chineses: De Fábricas a Gigantes Globais
Descubra como marcas como Li-Ning e Anta transformaram o estigma do 'Made in China' em orgulho nacional e inovação no esporte global.
Neste episódio do Stemma China, Fabio Bessa e CJ Gueiros mergulham na segunda parte da fascinante história das marcas chinesas de tênis. De meras fabricantes a potências globais, essas empresas redefiniram o conceito de inovação, competindo de igual para igual com gigantes como Nike e Adidas. Conheça os desafios, estratégias de marketing ousadas e a revolução tecnológica que as impulsionou.
No segundo episódio do Stemma China, os hosts Fabio Bessa e CJ Gueiros continuam a desbravar a complexa e surpreendente jornada das marcas chinesas de tênis. O programa, que faz parte do hub Stemma Sports, detalha a evolução dessas empresas, desde suas origens como fabricantes para terceiros até se tornarem competidores globais no concorrido mercado esportivo.
Da Fábrica do Mundo à Criação de Identidade Própria
No início, a China era vista principalmente como a "fábrica do mundo", com empresas atuando como OEMs (Original Equipment Manufacturers), produzindo calçados e artigos esportivos para marcas ocidentais. Contudo, essa realidade começou a mudar quando essas fábricas decidiram criar suas próprias marcas e identidades. Marcas como Li-Ning (nascida em Beijing) e outras de Fujian, que antes fabricavam para terceiros, deram o "estalo" de ter um produto para chamar de seu. Esse movimento foi crucial para mudar a percepção de que os produtos chineses eram apenas cópias ou de baixa qualidade, impulsionando a criação de marcas próprias com foco em tecnologia e design.
Desafios e Ambições de Internacionalização
O mercado consumidor chinês, que era inexistente nos anos 80, cresceu exponencialmente, atraindo gigantes como Nike e Adidas. As marcas chinesas, então, enfrentaram o desafio não só de competir em casa contra esses colossos, mas também de se internacionalizar e superar o estigma do "Made in China", muitas vezes associado à imitação ou baixa durabilidade. A 361°, por exemplo, demonstrou essa ambição ao patrocinar os voluntários dos Jogos Olímpicos do Rio 2016, sendo a primeira marca chinesa a chegar oficialmente ao Brasil em 2014 com foco em explorar mercados fora da China.
A Batalha dos Slogans e o Impacto do Iron Man
A busca por um slogan marcante gerou uma curiosa disputa. A Li-Ning adotou o "Anything is Possible" em 2002. Contudo, esse slogan já era utilizado pelo Iron Man desde 1998, o que gerou inclusive batalhas judiciais. Por sua vez, a Adidas, com seu "Impossible is Nothing" (inspirado em Muhammad Ali), adicionou mais uma camada a essa complexidade. Curiosamente, entre 2015 e 2020, a própria marca Iron Man foi adquirida pelo grupo chinês Wanda Group, refletindo o interesse chinês em diversificar investimentos para o esporte e entretenimento, expandindo inclusive provas como o Iron Man 70.3 e a Rock and Roll Marathon Series.
NBA e Estratégias de Patrocínio
A ascensão do basquete na China foi um catalisador para as marcas esportivas. A Li-Ning buscou estrelas da NBA, contratando Shaquille O'Neal em 2006, mesmo que já no fim de sua carreira. Mais tarde, a Anta também investiu pesado, tirando Kevin Garnett da Adidas. Essa estratégia visava não apenas a exposição no mercado americano, mas também a aprovação do consumidor chinês, que idolatrava os atletas da NBA.
Um movimento agressivo foi o da Li-Ning, que, patrocinando a CBA (liga chinesa de basquete), proibiu jogadores de usar tênis de outras marcas. Isso culminou no incidente de Yi Jianlian, que retirou seu Li-Ning em protesto para usar seu Nike, dando origem à tática do "Pay to Play" (pagar uma taxa para usar tênis de outra marca, mesmo com patrocínio oficial).
IPOs, Aquisições e a Estratégia "Multi-Marca"
Para financiar suas ambições, marcas como Anta (2007), Li-Ning (2004 em Hong Kong), 361° e Peak (2009) realizaram IPOs (Oferta Pública Inicial). A Anta se destacou com sua estratégia "single focus multi-brand omni-channel", buscando diversificar seu portfólio através de aquisições. Exemplos incluem a operação da Fila na China (adquirida em 2009), Descente (esqui premium japonesa), Kolon Sport (outdoor coreana) e o grupo Amer Sports (que inclui Salomon e Wilson), solidificando sua presença em diversos segmentos do esporte.
A Li-Ning, por outro lado, teve algumas tentativas de aquisição menos bem-sucedidas com marcas como Kappa e Lotto, o que mostrou a complexidade de integrar marcas globais à cultura e ao mercado chinês.
O "Lago Maldito" e a Virada da Li-Ning
No período pós-Olimpíadas de Beijing 2008, a euforia e o otimismo levaram as marcas chinesas a superproduzir, resultando em um excesso de estoque que ficou conhecido como "Damned Lake" (Lago Maldito) entre 2011 e 2013. A Li-Ning foi uma das mais afetadas. Em 2012, sob uma nova liderança (e sem o fundador Li Ning no comando como CEO), a empresa tentou mudar seu posicionamento, trocando o slogan para "Make the Change" e focando em produtos premium, mas não coordenou a mudança com seus distribuidores, o que agravou a crise. O próprio Li Ning precisou retornar como CEO em 2015, trazendo de volta o slogan "Anything is Possible" e expandindo o e-commerce para reerguer a empresa.
Nesse ínterim, a Anta soube queimar seus estoques rapidamente e, em 2012, superou a Li-Ning no market share chinês, uma posição que mantém desde então.
O Movimento "Guochao" e a Revolução das Espumas
O final da década de 2010 marcou o surgimento do movimento Guochao (onda nacional ou tendência nacional) na China. Essa tendência cultural de consumo uniu o orgulho nacional (preferência por marcas locais) com o design moderno, incorporando elementos da cultura tradicional chinesa. Um marco foi o desfile da Li-Ning na New York Fashion Week em 2018, que demonstrou que as marcas chinesas poderiam ser sinônimo de beleza, tecnologia e inovação.
Paralelamente, o mercado de tênis foi revolucionado pelas super espumas e placas de carbono, lideradas inicialmente pela tecnologia Boost da Adidas (2013) e pelo Vaporfly da Nike (2017). As marcas chinesas não ficaram para trás: a Li-Ning lançou sua super espuma "Boom" em 2018, seguida por outras como a "Nitro Edge" da Anta e a "Quick Flame" da 361°. Em 2021, as primeiras vitórias em maratonas chinesas com tênis nacionais começaram a aparecer, provando a eficácia e competitividade dessas tecnologias.
O Cenário Atual e o Futuro das Marcas Chinesas
Hoje, as marcas chinesas continuam a fazer contratações de peso, como Bekele pela Anta, e Kyrie Irving e Nikola Jokic pela 361° e Li-Ning no basquete, respectivamente. A Anta também se tornou patrocinadora oficial do COI até 2028. Essas ações demonstram a busca incessante por validação e reconhecimento global. Mesmo gigantes como Nike e Adidas responderam ao Guochao com coleções específicas para o mercado chinês, reconhecendo o poder do consumidor local e a importância cultural.
A jornada das marcas chinesas é um testemunho de resiliência, inovação e adaptação. Elas superaram o estigma de "cópias", investiram em pesquisa e desenvolvimento, e agora colhem os frutos, competindo em pé de igualdade no cenário esportivo global. O que antes era uma série de pequenas oficinas, hoje representa uma força que desafia o status quo e molda o futuro dos esportes de alta performance, especialmente no universo da corrida e do triathlon. O futuro dessas marcas promete ainda mais emoção e inovação, com potencial para se consolidarem como líderes globais.