Antidoping no triatlo: as lições do caso de Monique Ahern
Após testar positivo para indapamida no Ironman 70.3 SP, triatleta amadora relata o processo jurídico e o alerta à comunidade.
Monique Ahern compartilhou no Café com Tri os bastidores do seu caso de doping após o Ironman 70.3 São Paulo. A triatleta detalhou a batalha jurídica, o impacto do julgamento nas redes e os cuidados essenciais que todo amador deve ter com medicamentos cotidianos.
O controle antidoping no esporte amador ainda é cercado de mitos e desinformação. Para muitos triatletas que conciliam trabalho, família e treinos pesados, o conceito de dopagem costuma estar associado exclusivamente a esteroides anabolizantes, EPO ou substâncias tomadas deliberadamente para ganho de rendimento. No entanto, o sistema regulatório da Agência Mundial Antidopagem (WADA) opera sob o princípio da responsabilidade estrita: o atleta responde por qualquer substância proibida encontrada em seu organismo, independentemente de intenção ou vantagem esportiva.
Esse cenário ganhou contornos reais com o caso de Monique Ahern, triatleta amadora de Araraquara (SP), que testou positivo para indapamida após competir no Ironman 70.3 São Paulo. Em conversa no podcast Café com Tri, Monique explicou todo o desenrolar do processo, desde a surpresa com a notificação até a revisão da pena e a ida ao Mundial de Ironman em Kona.
O desconhecimento e a armadilha dos diuréticos
A indapamida é um diurético frequentemente prescrito para controle de pressão arterial e retenção hídrica, sem qualquer efeito benéfico para o desempenho em provas de endurance — pelo contrário, a perda de líquidos pode prejudicar a hidratação e a termorregulação no calor. Contudo, diuréticos integram a lista proibida da WADA porque podem atuar como agentes mascarantes, diluindo a urina e dificultando a identificação de outras drogas.
Monique admitiu abertamente que fez uso do medicamento sem checar a lista oficial da WADA, assumindo o erro pelo descuido. A triatleta relatou que sequer imaginava que um fármaco de uso comum pudesse configurar infração disciplinar. O caso expõe a vulnerabilidade de praticantes amadores que utilizam anti-inflamatórios, descongestionantes ou fórmulas manipuladas sem supervisão médica especializada no esporte.
A controvérsia do 'alto rendimento' e a redução da pena
O processo disciplinar inicial impôs uma punição severa de quatro anos de suspensão. O tribunal de primeira instância justificou o período alegando que Monique seria uma 'atleta de alto rendimento' com base em critérios do dia a dia amador, como possuir planilha estruturada, acompanhamento de treinador e histórico de participação em provas internacionais por faixa etária.
Com o apoio jurídico da advogada Dra. Thaísa e o depoimento de seu treinador Rafael Soares, a defesa recorreu da decisão. No julgamento do recurso, os julgadores reconheceram a ausência de intenção dolosa e a desproporcionalidade da qualificação como atleta de elite, reduzindo a suspensão para 9 meses. Como o tempo da penalidade já havia transcorrido desde a suspensão provisória, Monique foi liberada para retornar às competições oficiais.
Do tribunal da internet à linha de chegada em Kona
Além dos trâmites legais, o julgamento nas redes sociais foi um dos períodos mais desgastantes do processo. Monique relatou os impactos psicológicos das acusações e a importância da rede de apoio de amigos e companheiros de treino para seguir em frente. Mesmo liberada pela decisão recursal, a confirmação definitiva de sua vaga para o Mundial de Ironman em Kona só ocorreu na véspera da prova, após a resolução de novas contestações formais.
A atleta completou a prova no Havaí, ressaltando que a experiência transformou sua visão sobre o ambiente competitivo e a necessidade urgente de prevenção na comunidade esportiva.
Cuidados fundamentais para o atleta amador
O caso de Monique Ahern reforça que a melhor proteção contra violações inadvertidas das regras antidoping é a informação ativa. Triatletas de todos os níveis devem adotar protocolos rigorosos em sua rotina de saúde:
- Consultar a lista da WADA: Qualquer medicamento ou suplemento deve ser verificado nas plataformas da WADA e da ABCD (Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem) antes do consumo.
- Acompanhamento médico esportivo: Informar sempre aos médicos sobre a condição de atleta competidor, optando por profissionais familiarizados com as diretrizes antidopagem.
- Autorização de Uso Terapêutico (AUT): Caso haja necessidade clínica inadiável de uso de substância proibida, solicitar a devida autorização previamente aos órgãos competentes.