A sociedade da performance: corrida, burnout e a vida real
A psicóloga Fernanda Lopes e as hosts do Girls Who Run discutem como a busca incessante por alta performance afeta o bem-estar e o prazer no esporte.
Em um episódio revelador, a psicóloga Fernanda Lopes, ao lado de Ma Fanti e Mari Real do Girls Who Run, mergulha na 'sociedade da performance'. Elas discutem como a pressão para 'dar conta de tudo' transforma até hobbies como a corrida em fontes de cobrança. O debate aborda a influência das redes sociais, a sobrecarga feminina e a importância de reconectar com o prazer genuíno do esporte.
O Girls Who Run, podcast de corrida do Stemma Sports, trouxe um tema cada vez mais presente na vida de muitas mulheres: a sociedade da performance. As hosts Ma Fanti e Mari Real receberam a psicóloga Fernanda Lopes para discutir a sensação de ter que "dar conta de tudo" – trabalhar, treinar, socializar, descansar – sem nunca parecer preguiçosa. Nessa lógica, até atividades que deveriam ser leves, como o esporte, acabam virando mais uma fonte de cobrança e exaustão, estendendo o burnout do ambiente profissional para todas as esferas da vida.
Fernanda Lopes, que já havia participado do podcast em temporadas anteriores, compartilhou sua própria jornada com a corrida. Após vivenciar uma fratura por estresse e perceber que sua relação com o esporte havia deixado de ser "de boas", ela busca hoje uma abordagem mais leve, onde a vida e as relações não sejam apenas sobre "entregar" algo, mas também sobre "brincar" e se permitir falhar.
A corrida na sociedade da performance
A discussão logo se aprofundou na corrida amadora, um universo onde a maioria dos atletas está imersa na narrativa de que o hobby precisa se tornar um trabalho, uma busca incessante por performance. O mercado rapidamente cria necessidades de produtos, suplementos e tecnologias, transformando o que era simples em algo complexo e custoso. “Make running cool again”, provoca Fernanda, evocando o sentimento de que a corrida se tornou “chata” para muitos. A ideia de pessoas filmando a corrida inteira para produzir conteúdo ou ignorando lesões para manter o ritmo são exemplos claros dessa obsessão.
A psicóloga trouxe o conceito do antropólogo Michel Cuforado, autor do best-seller “Coisa de Rico”, que analisa a performance como um marcador de identidade para a elite brasileira. Não basta ser rico; é preciso performar disciplina e foco através do esporte de alta intensidade. A ideia de que um Ironman é o "novo MBA" para CEOs reflete essa mentalidade, onde a capacidade de superação física é equiparada ao sucesso profissional. No entanto, essa "performance da riqueza" é sustentada por uma estrutura de apoio (personal trainers, fisioterapeutas, cozinheiras, equipamentos caros) que nem todos têm acesso, criando uma régua inalcançável para a maioria.
Contrastando com essa realidade, foi mencionada a perspectiva dos atletas quenianos, para quem a corrida é um trabalho e, muitas vezes, um caminho de saída da pobreza. Eles não se permitem treinar doentes, pois sabem que o descanso é crucial para a recuperação e para a longevidade da carreira. Isso demonstra uma visão pragmática sobre o corpo, diferente da idealização amadora que muitas vezes ignora sinais de dor e exaustão.
O corpo como projeto e o risco do burnout esportivo
Fernanda Lopes compartilhou sua própria experiência de lesão para ilustrar o ponto. Após a adoção de seu filho, Thiago, ela tentou manter a rotina de treinos para uma maratona, mesmo com um bebê recém-chegado, uma filha adolescente e uma casa em reforma. Ignorando dores e sinais do corpo, chegou a fazer a São Silvestre com uma fratura por estresse na fíbula, que só foi diagnosticada meses depois, em estado avançado. “No pain, no gain” e frases de coach como “depois da dor, você ainda tem 30% para dar” contribuíram para que ela não escutasse seu próprio corpo, prolongando a lesão e gerando outras. Essa é uma visão distorcida de “constância”, que acaba sendo confundida com inflexibilidade e rigidez, levando ao overtraining e ao burnout esportivo.
Mari Real questionou a ideia de que parar (para se recuperar, viajar ou simplesmente descansar) significa "perder performance". Pelo contrário, o descanso adequado é fundamental para a evolução. A rigidez de horários e a culpa por “furar” a planilha, mesmo sem provas à vista, refletem uma obsessão que desvia o esporte de seu propósito original de bem-estar. Para as mulheres, essa pressão se soma à preocupação constante com a imagem corporal, onde a prática de exercícios muitas vezes começa pela busca por emagrecimento, podendo levar a comportamentos transtornados e transtornos alimentares. O corpo feminino, na sociedade atual, é frequentemente tratado como um “projeto nunca finalizado”, com a estética priorizada sobre a saúde integral.
O papel das redes sociais e a busca por conexão genuína
As redes sociais, como o LinkedIn, são citadas como palcos de performance, onde apenas as conquistas são mostradas, gerando uma sensação constante de insuficiência e comparação. Ma Fanti compartilhou como, ao se afastar do Instagram por um tempo, percebeu que sentia falta da conexão genuína com pessoas, não da superficialidade dos conteúdos "perfeitos" e ensaiados. A "produtização" da vida – onde até momentos pessoais viram conteúdo – cria uma falsa sensação de conexão e rouba o prazer de viver experiências sem a necessidade de exibi-las.
É crucial, segundo as hosts e a psicóloga, discernir entre o que é genuíno e o que é performático. A liberdade de postar por hobby e se conectar com pessoas de forma autêntica é valiosa, mas é preciso filtrar os conteúdos que geram comparação e cansaço mental. A inflexibilidade na rotina, imposta pela busca incessante por performance, afasta as pessoas de encontros e experiências significativas, negligenciando a saúde social – um pilar essencial para o bem-estar.
A sobrecarga feminina no esporte
A conversa também abordou a sobrecarga específica das mulheres. Além da pressão geral, elas precisam lidar com a segurança ao treinar na rua, a carga mental de gerenciar casa e filhos (muitas vezes enquanto o parceiro treina), e a expectativa de manter uma imagem impecável mesmo durante o exercício. A fala de Fernanda ilustra isso: "Eu nunca vi tanta mulher produzida para ficar fedida", referindo-se à preocupação com o look, maquiagem e cabelo para a academia, o que pode até impedir o desfrute da atividade. As mulheres, em muitos casos, não podem simplesmente "correr onde quiserem" por questões de segurança, sendo forçadas a recorrer à esteira ou a horários menos convenientes. Essa realidade adiciona mais uma camada de complexidade e exaustão à prática esportiva feminina.
Redescobrindo o prazer de brincar
A solução para essa espiral de cobrança e exaustão reside em "voltar a brincar". Isso significa desfrutar do esporte por si só, sem a rigidez da performance, a culpa por "falhar" ou a necessidade de impressionar. Para Fernanda, depois de um longo período de dor, a diversão voltou ao correr com amigas, em um ambiente sem a pressão de uma assessoria formal. A corrida, assim como qualquer hobby, não pode se tornar maior que a vida. Ela deve ser um meio para desfrutar, conectar-se e aprender sobre si mesma. Essa flexibilidade permite adaptar a prática às diferentes fases da vida, sem culpas ou imposições externas.
Nesse contexto de buscar liberdade e conforto na prática esportiva, a All Out Run se destaca. A marca é parceira do Girls Who Run e desenvolve peças com alta funcionalidade e tecnologia, priorizando o conforto e a liberdade de movimento. Com tecidos que promovem bem-estar e designs pensados para a mulher corredora (incluindo vários bolsos), a All Out Run busca eliminar uma das preocupações que podem surgir durante o treino, permitindo que as atletas se concentrem apenas no prazer de correr. Você pode aproveitar para conhecer as peças com o cupom GIRLSWHORUN no site.
Em meio à rigidez e à seriedade impostas pela sociedade, o convite é para redescobrir o prazer, a leveza e a liberdade nas pequenas coisas. "Se não fosse para usar o fígado, a gente não tinha", brinca Fernanda, ressaltando que o corpo é um meio para desfrutar a vida, e não um projeto a ser constantemente aperfeiçoado à custa do bem-estar. É sobre ter escolhas e usá-las para construir uma vida mais equilibrada e prazerosa.