A ascensão das marcas chinesas de corrida e sua história
Como polos fabris em Fujian e jogadas ousadas de marketing deram origem a gigantes como Anta, Li-Ning e Xtep.
O mercado esportivo da China deixou de ser apenas a fábrica do mundo para construir marcas globais de alto desempenho. Conheça as origens industriais em Fujian, o papel do basquete e os primeiros passos de marcas como Anta, Li-Ning, Xtep e 361 Degrees.
O mercado global de calçados esportivos e calçados de corrida passa por uma transformação profunda impulsionada pela China. O país, historicamente visto como o grande centro terceirizado de manufatura do planeta, construiu marcas próprias que hoje rivalizam com gigantes ocidentais em inovação, tecnologia de espumas, placas de carbono e presença no esporte de alto rendimento. Compreender essa evolução exige revisitar os primeiros passos dessa indústria, marcada pela transição entre oficinas industriais e estratégias globais de construção de marca.
A província de Fujian e o modelo OEM
A gênese da maioria das grandes marcas chinesas está concentrada na província de Fujian, especialmente nas cidades industriais de Jinjiang e Putian, localizadas logo em frente a Taiwan. Nos anos 1980, quando empresas globais como Nike e Adidas buscavam reduzir custos de manufatura após a alta de preços no Japão, Taiwan tornou-se a ponte para transferir linhas de montagem para o continente chinês. Foi assim que se consolidou o ecossistema de fabricantes de equipamento original (OEM), responsáveis por produzir calçados sob demanda sem estampar marcas próprias na época.
Com o domínio completo dos processos fabris e o acesso a matérias-primas, muitos fundadores locais perceberam que a verdadeira margem de lucro e o valor comercial estavam na marca, e não apenas no custo da fábrica. Esse estalo motivou a criação de marcas como Anta, Xtep, 361 Degrees, Peak e Qiaodan na mesma região, iniciando a transição das linhas de produção anônimas para marcas registradas voltadas ao consumidor final.
A Li-Ning e a pioneira corrida olímpica
Enquanto a maioria das fabricantes nascia no polo fabril de Fujian, a Li-Ning surgiu em Pequim entre 1989 e 1990, fundada pelo lendário ginasta Li Ning, medalhista de ouro nas Olimpíadas de Los Angeles em 1984. A marca nasceu com aspiração de representação nacional e conquistou de imediato o patrocínio dos Jogos Asiáticos de 1990 e do Comitê Olímpico Chinês por quatro ciclos consecutivos, assumindo em 1994 a liderança de mercado doméstico que pertencia à estatal Warrior.
Marketing agressivo e a virada dos anos 2000
A consolidação dessas marcas exigiu apostas ousadas em visibilidade. Em 1999, a Anta comprometeu uma quantia superior ao seu lucro anual para patrocinar o mesa-tenista Kong Linghui e veicular campanhas na televisão estatal chinesa (CCTV). O retorno se confirmou com o ouro e a prata de Kong nos Jogos Olímpicos de Sydney em 2000, alçando a marca às primeiras posições de vendas no país.
Outras empresas adotaram caminhos complementares para entrar no imaginário popular. A Xtep apostou na cultura pop ao lançar o calçado Fire Shoes em parceria com o ator de Hong Kong Nicholas Tse, vendendo mais de 1,2 milhão de pares. Já a 361 Degrees, formalizada em 2003 a partir de antigas estruturas industriais, focou sua distribuição inicial em cidades de médio porte (tier 2 e tier 3), desenvolvendo uma rede capilarizada no interior chinês enquanto Nike e Adidas disputavam as grandes capitais.
A influência do basquete e o caminho até o running
O basquete foi o esporte que abriu as portas do consumo de tênis esportivos na China. Introduzido no final do século XIX pela Associação Cristã de Moços (ACM) e preservado ao longo das décadas, o esporte viveu uma explosão sem precedentes em 2002 com a ida de Yao Ming para a NBA. Embora as marcas chinesas ainda não tivessem estrutura financeira para segurar o atleta frente às concorrentes ocidentais, a febre do basquete impulsionou o desenvolvimento técnico de calçados de performance.
Essa base técnica acumulada em amortecimento e estrutura para quadras serviu de alicerce para o salto que o mercado chinês daria anos depois no segmento de corrida de rua. Hoje, provas como a Maratona de Xangai e a Maratona de Xiamen refletem o amadurecimento de um ecossistema que uniu eficiência de produção, apoio a atletas de elite e tecnologias de ponta em calçados de corrida.