Triatleta Moderno: Treino, Mitos e o Impacto da Comparação
Descubra as verdades e desafios do triatlo atual, da busca por performance à era da comparação digital.
No 'Café com Tri', os hosts Wagner Spadotto, Beto Nitrini e Sérgio Magalhães recebem o triatleta e treinador Fellipe Santos para um papo aberto. Eles discutem a evolução do treinamento, os erros e acertos dos atletas modernos, e como lidar com a pressão por resultados e a constante comparação.
No mais recente episódio do Café com Tri, os co-hosts Wagner Spadotto, Beto Nitrini e Sérgio Magalhães mergulharam em um debate instigante com o triatleta e treinador Fellipe Santos. Conhecido por suas conquistas impressionantes, como o título geral amador do Ironman Curitiba e vice-campeão mundial no age group 30-34, Fellipe trouxe sua vasta experiência para discutir a evolução do treinamento no triatlo e a realidade do triatleta moderno. A pergunta central ecoou no ar: o triatleta moderno está realmente evoluindo ou apenas treinando cansado?
O Triatleta Moderno: Entre a Evolução e o Cansaço
Fellipe Santos, que competiu profissionalmente e hoje se destaca no amador de alto nível, observa uma dicotomia curiosa: "tudo mudou e nada mudou". Ele argumenta que, embora a tecnologia e o monitoramento de dados tenham avançado exponencialmente, os princípios fundamentais de treinamento de 20 anos atrás não estavam tão "errados". A grande diferença hoje é a capacidade de individualizar e quantificar o volume de treino com precisão, algo impensável no passado.
Antigamente, o foco era em provas mais curtas e intensas no Brasil, como o Copa Brasil e o Troféu Brasil, onde o "bater forte" era a norma. Com o crescimento do Ironman, o treinamento precisou se adaptar, mas a mentalidade de sobrecarga ainda persiste. Fellipe e Wagner, que já trabalharam juntos, refletiram sobre a época em que o corpo do atleta não aguentava mais as "pancadas", evidenciando a necessidade de uma abordagem mais inteligente. Eles lamentam que, em muitos aspectos, a performance dos atletas profissionais brasileiros era superior há 20 anos, com nomes como Paulo Miyashiro e Reinaldo Colucci brilhando internacionalmente.
A Cultura da Comparação e a Pressa por Resultados
Uma das maiores mudanças para o triatleta moderno é a cultura da comparação, impulsionada pelas redes sociais e a facilidade de acesso a dados de outros atletas. Sérgio Magalhães destaca que, no passado, não se sabia o que o colega fazia; hoje, a informação é imediata, gerando ansiedade e a sensação de que "o outro sempre está fazendo melhor". Essa comparação leva à pressa por resultados, com muitos buscando provas como o Ironman ou um "sub-3" na maratona sem a base adequada.
Fellipe usa o termo "geração Nutella" para descrever atletas que, embora possam ter um enorme potencial, buscam atalhos ou esperam resultados rápidos sem o devido processo. "Muitos querem realizar a prova, mas poucos gostam do processo inteiro, de treinar", comenta Wagner. Essa mentalidade se estende ao equipamento, onde a busca pela "pecinha" que promete alguns segundos a menos no pedal muitas vezes transcende a capacidade financeira e a real necessidade do atleta. A obsessão por material de ponta, como rolamentos de cerâmica ou bicicletas aero de última geração, pode gerar dívidas e uma pressão desnecessária, enquanto o verdadeiro ganho de performance viria de fatores mais básicos, como o treinamento adequado e a recuperação.
O Papel do Treinador: Empatia e Individualização
Diante desse cenário, o papel do treinador evoluiu drasticamente. Wagner Spadotto enfatiza que não são mais "Bernardinhos" que ditam regras. É preciso ter empatia e entender o "momento" do atleta, que muitas vezes tem janelas de tempo limitadas para alcançar grandes objetivos. A flexibilidade e a capacidade de "morder e assoprar" são essenciais para manter o atleta engajado.
Fellipe e Wagner discutiram a prática de "bloquear" o Training Peaks para evitar que atletas alterem o plano de treino, garantindo que a periodização seja seguida. A dificuldade de explicar que o endurance exige tempo e paciência é um desafio constante. Fellipe, por exemplo, reduziu seu tempo no Ironman Brasil em 30 minutos em 10 anos, um ganho marginal para um atleta de seu nível, mas que ilustra a progressão gradual necessária. O conceito de "retorno diminuído" do volume de treino anual é crucial: adicionar mais volume além de certo ponto não gera mais performance, mas sim risco de lesão.
Além das Métricas: A Percepção de Esforço e a Realidade da Elite Amadora
No "Café com Tri", também se discutiu o excesso de dependência de métricas (FTP, NP, pace, etc.) em detrimento da percepção de esforço. Fellipe, apesar de usar a tecnologia, destaca a importância de "treinar sem relógio" e ouvir o próprio corpo, especialmente em momentos de imprevisto tecnológico (como falha de GPS ou medidor de potência). A capacidade de "sentir" o ritmo na natação, por exemplo, é algo que ele desenvolveu desde criança e considera vital.
A competição no nível amador, especialmente em provas como Ironman Kona, atingiu um patamar altíssimo. Fellipe conta sua experiência na África do Sul, onde amadores correm maratonas em 2h40, demonstrando que não há mais "bobos". Ele critica a "cultura do cancelamento" que muitas vezes atinge atletas amadores que buscam evolução, enquanto o desempenho de alguns profissionais passa sem a devida cobrança. Para ele, a cobrança é essencial para elevar o nível do esporte e o interesse geral.
Em resumo, a jornada do triatleta, seja ele iniciante ou avançado, exige um equilíbrio entre a busca pela performance, o entendimento do próprio corpo, a paciência com o processo e a capacidade de resistir à tentação da comparação. O sucesso no triatlo moderno reside em uma individualização inteligente, respeitando os limites e as ambições, e priorizando a longevidade no esporte.