Tião Moreira: A memória viva do trail e da corrida no Brasil
O fotógrafo e editor da Contra-Relógio compartilha sua rica trajetória, desde o surgimento do trail até a São Silvestre.
Sidney Togumi conversa com Tião Moreira, o 'biblioteca viva' da corrida de rua e trail brasileiro. Moreira detalha sua transição de atleta para fotógrafo esportivo e como sua câmera documentou a evolução do esporte. Ele revisita a criação da revista Contra-Relógio, a história de campeões esquecidos e os primórdios do trail running no país.
Sidney Togumi recebeu Tião Moreira no Stemma Na Trilha, apresentando-o como uma verdadeira "biblioteca viva" da corrida e do trail running no Brasil. Com décadas de experiência documentando o atletismo brasileiro, Tião Moreira, fotógrafo esportivo desde 1984 e fotógrafo oficial da Revista Contra-Relógio desde 1993, revisitou momentos cruciais e figuras lendárias que moldaram o cenário esportivo nacional.
Das Pistas à Lente: O Início de uma Paixão
Tião Moreira, um corredor desde 1977, teve sua carreira nas pistas interrompida por uma contusão na coluna em 1983. Contudo, seu amor pelo esporte o levou a trocar os tênis pela câmera. O que começou como um hobby, registrando amigos em provas, transformou-se em uma carreira profissional que desbravou um nicho inexplorado na época: a venda de fotografias de atletas. "Aqui em São Paulo não tinha a galera que fazia esse serviço", recorda. Com um diferencial de oferecer fotos em formato 20x25 cm, similar a álbuns de casamento, Tião proporcionava aos corredores uma lembrança de "tamanho de revista" que poucos tinham. Essa inovação o levou a viajar pelo Brasil e até parte do mundo, eternizando momentos para campeões e amadores, incluindo atletas quenianos, mexicanos e equatorianos.
A forma de trabalho de Tião, com 10 mil fotos carregadas no carro, era um processo artesanal e de memória impressionante. "Eu via o atleta vindo lá na frente, eu já separava, já achava ele no meio do [pacote]", explica. Ele contrastou a interação humana da época, com a compra de fotos e conversas, com a realidade digital atual: "Hoje o cara termina a corrida, ele já vai para o carro, ele nem sabe quem ganhou a corrida... Antigamente tinha essa proximidade, o cara ficava lá, escolhia a foto, comprava a roupa do Zé... e havia conversação."
A Revolução da Contra-Relógio
Tião Moreira esteve envolvido na criação da Revista Contra-Relógio desde sua concepção. Lançada oficialmente em setembro de 1993, a revista foi uma iniciativa de Tomás Lourenço, jornalista da Folha de São Paulo. A ideia surgiu da falta de um meio de comunicação dedicado à corrida na época. "O Tomás queria correr sub 3 horas na maratona de Blumenau, mas o ônibus errou a largada, ele correu nervoso e fez 3h06... mas ele merecia um sub 3", narra Tião, explicando que o Tomás "inventou esse número" para dar nome à revista, baseando-se em uma foto de atletas olhando o relógio na largada. Tomás, que também tinha experiência no ciclismo, batizou a revista de Contrarrelógio, o que inicialmente levava muitos a pensar que era sobre bicicletas.
A revista foi a primeira a vender assinaturas antes mesmo de existir, um feito que muitos consideravam um "golpe". A confiança em Tião, que estava presente em todas as provas, foi crucial para o sucesso dessa empreitada. A Contra-Relógio "mudou a corrida de rua", colocando os problemas das provas em pauta e incentivando a cobrança de inscrições para que os atletas pudessem exigir mais qualidade. Antes da era digital, a revista era o principal meio para os corredores consultarem resultados e tempos. Tião relembra o desafio de fechar uma edição em 1998, esperando o resultado do Revezamento Pão de Açúcar, quando Ronaldo da Costa quebrou o recorde mundial da maratona em Berlim. A equipe teve que montar um pôster gigante com fotos do Ronaldo, uma tarefa hercúlea na era analógica.
São Silvestre: Histórias e Lendas
Tião Moreira compartilhou várias histórias marcantes da São Silvestre, destacando a edição de 1990, com Artur Barrios, Artur de Castro, Johnny Hermes Pazin e um jovem Vanderlei Cordeiro de Lima. Ele também relembrou a primeira São Silvestre diurna, em 1989, e a conquista de Emerson Iser Bem em 1997. Iser Bem, um atleta "casca grossa", liderou a prova até o quilômetro 5 ou 6 em 1996 e parou de correr, um ato que nem ele entendeu na época. No ano seguinte, determinado a se redimir, ele atacou o forte Vanderlei Cordeiro de Lima na Brigadeiro e, de quebra, ultrapassou o então campeão mundial de 10.000m, Paul Tergat, conquistando uma vitória memorável.
Outra história notável é a de Jurilda Sabino, a "Cinderela Negra", que aos 13 anos e descalça, liderou a São Silvestre de 1993 na Avenida Paulista, sendo ultrapassada apenas pela lendária Rosa Mota quase na chegada. A performance de Jurilda mudou sua vida, com o governo do Mato Grosso doando uma casa completa à jovem. Tião também mencionou Angélica de Almeida, uma garota da Febem que se tornou um talento, detendo até hoje o recorde de 16 anos na Maratona de Nova Iorque (2h40).
Os Pioneiros do Trail Running Brasileiro
A conversa também mergulhou nas raízes do trail running no Brasil. Tião aponta a "Volta ao Cristo" em Poços de Caldas, iniciada em 1983, como uma das primeiras corridas de montanha "modernas", com percurso predominantemente de terra. Ele correu as três primeiras edições. O "retorno" das provas de montanha, segundo ele, se deu em 2004 com Fábio Galvão em Paranapiacaba. "A partir dessa prova aí começou a aparecer as corridas de montanha", disse, lembrando que Fábio Galvão, que continua ativo até hoje, foi um dos grandes desbravadores do segmento.
O campeonato de montanha de 1990 no Rio de Janeiro, que já oferecia premiação em dinheiro, mostra que o trail não é um fenômeno tão recente. Corredores de rua, como o próprio Tião, muitas vezes migraram para as trilhas. Nomes como Naval, Luzia, Cris Carvalho, Shubi Guimarães, Fernanda Maciel, e organizadores como Gustavo (Rei da Montanha em Mogi) e Juan e Diego Zarba (K42/K21) são citados como importantes na evolução do trail, muitos deles vindos de corridas de aventura ou de rua.
Uma curiosidade é a origem do apelido "Rei da Montanha" para Zé Virgínio. Durante a corrida São Paulo-Rio (600 km em três dias), uma competição da Nike em 2009, Zé Virgínio ganhou um prêmio específico para o "Rei da Montanha" na subida de Boiçucanga, que ele venceu, e o apelido pegou.
Memórias Vivas e Lições Duradouras
Tião Moreira encerrou a conversa com a emocionante história de Gabi Bender, uma jovem corredora que, ao receber duas fotos impressas de sua primeira maratona em Porto Alegre, chorou de emoção por ter um registro físico em uma era dominada pelo digital. Essa experiência, somada ao seu encontro com Eliud Kipchoge, o "Pelé das maratonas", reforça a paixão e o significado de seu trabalho. Para Tião, ser um fotógrafo que documenta a corrida é "uma vivência boa, uma construção" e "tem coisa que não tem preço". Sua jornada, de vender fotos em corridas de bairro a cobrir as maiores maratonas do mundo, é um testemunho da dedicação e autenticidade que o tornaram uma verdadeira "biblioteca viva" do esporte.
Ao final, Sidney Togumi agradeceu a Tião por compartilhar sua história, reconhecendo-o como uma inspiração e um guardião da memória do trail e da corrida no Brasil. Ele enfatizou a importância de valorizar esses pioneiros que "desbravaram a trilha" para as gerações atuais.