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Seu corpo não é um projeto de reforma, com Bertha Salles

A comunicadora e criadora do Bucinho Suado discute como o exercício físico pode ser fonte de prazer e não de punição.

Em conversa no Girls Who Run, Bertha Salles compartilha sua jornada de reconciliação com o movimento e o próprio corpo. A criadora do Bucinho Suado reflete sobre a pressão estética, o impacto da atividade física na saúde mental e a importância de criar comunidades acolhedoras no esporte.

A busca pelo exercício físico quase sempre é empurrada pela ideia de que existe algo no corpo que precisa ser consertado ou moldado para atender a uma exigência estética. No entanto, a prática esportiva ganha um sentido transformador quando se descola da punição e se torna uma ferramenta de saúde mental, autonomia e pertencimento. A comunicadora Bertha Salles, fundadora do coletivo Bucinho Suado e ex-apresentadora do projeto Rádio Endorfina, detalha como essa mudança de perspectiva redefiniu sua rotina e deu origem a uma comunidade que acolhe diferentes corpos.

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Da exclusão na infância ao despertar tardio

Sedentária até os 26 anos, Bertha enfrentou desde cedo ambientes esportivos hostis. Comentários desestimulantes em aulas de dança e consultas médicas durante a adolescência criaram barreiras que a afastaram da atividade física por muito tempo, associando o suor e o esforço a castigos. A virada de chave aconteceu durante o isolamento da pandemia, após episódios de exaustão emocional, crises de ansiedade, uso nocivo de álcool e exames de saúde em alerta. Sem a cobrança de terceiros, os primeiros passos foram dados dentro de casa, realizando aulas leves de ioga pela televisão, até que a sensação física do pós-treino começou a aliviar os sintomas de pânico e restaurar a rotina de sono.

Seu corpo não é um projeto de reforma, com Bertha Salles

A pressão estética e o retorno de padrões irreais

O debate também aborda o recente retorno da exaltação à magreza extrema e o impacto das redes sociais na distorção da autoimagem. Bertha destaca que muitas mulheres voltam a se sentir inadequadas em estúdios de treino e academias diante de padrões corporais inatingíveis, frequentemente construídos por meio de intervenções cirúrgicas e procedimentos estéticos não revelados. Ao mesmo tempo em que reconhece a utilidade médica de tratamentos específicos para distúrbios alimentares, ela alerta para a perda do prazer social à mesa e a constante sensação de vigilância corporal que o culto obsessivo ao emagrecimento impõe.

A descoberta da força na musculação e na corrida

Um dos pontos cruciais na mudança de mentalidade de Bertha foi o início do trabalho de força na academia. O foco deixou de ser a busca por uma barriga desenhada e passou a ser a capacidade funcional do corpo: carregar peso, ganhar massa magra, melhorar a disposição e construir musculatura para a longevidade. Essa relação se estendeu também para a esteira, onde o aprendizado da corrida ocorreu em ritmo próprio, alternando caminhada e trote até conseguir correr continuamente por 30 minutos, valorizando a evolução gradual sem a obrigação de monitorar métricas de velocidade ou performance rígida.

Bucinho Suado: movimento como espaço de acolhimento

O que começou como uma hashtag bem-humorada nas redes sociais para retratar o suor real pós-treino transformou-se no Bucinho Suado, um coletivo que organiza encontros presenciais de funcional, ioga e convivência. O projeto busca criar um ambiente seguro onde mulheres de diferentes biotipos possam praticar atividades físicas sem medo de julgamentos ou comparações. Para Bertha, incentivar a ocupação de parques e espaços públicos mostra que o exercício físico é sustentável a longo prazo quando prioriza a saúde, a companhia e o respeito ao tempo de cada corpo.

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