Rodrigo Roehniss: a evolução e o boom dos tênis de corrida
O especialista discute a transformação do mercado, o impacto das placas de carbono e o crescimento de marcas nacionais e internacionais.
Em um papo descontraído no Café com Tri, Rodrigo Roehniss, consultor de tênis de corrida, desvenda as mudanças no universo dos calçados esportivos. Ele explica a transição dos modelos de estabilidade para os neutros, o papel crucial da tecnologia de espuma e a popularização das placas de carbono. Rodrigo também comenta sobre o boom das marcas brasileiras e chinesas, o sucesso da On e compartilha histórias curiosas de sua consultoria.
No episódio do Café com Tri, os apresentadores Betão Nitrini e Sérgio Magalhães receberam Rodrigo Roehniss, um nome de peso no mercado de running. Com uma trajetória que começou como corredor em 1996 e uma carreira consolidada em consultoria de tênis, Rodrigo trouxe um panorama completo sobre a evolução e as tendências do calçado esportivo de alta performance.
A paixão de Rodrigo por tênis nasceu de uma necessidade pessoal. Trabalhando no mercado financeiro, ele buscou na corrida uma forma de melhorar sua qualidade de vida. Naquela época, o mercado brasileiro era dominado por Olympikus e Rainha, com poucas opções importadas. "A Nike era muito mais lifestyle do que propriamente tênis de corrida", lembra Rodrigo. A curiosidade em buscar o calçado ideal o levou a explorar revistas técnicas e modelos usados por triatletas, que sempre foram mais abertos a experimentar novas marcas.
Sua entrada no mercado de tênis, primeiro na Velocità e depois na Saucony, proporcionou um contato direto com o desenvolvimento de produtos. Na Saucony, com sede em Boston, ele trocava informações com a equipe de engenharia, aprimorando sua percepção técnica. Hoje, ele observa que, apesar do acesso à informação, muitos corredores ainda compram por impulso ou ignoram a adequação do tênis, usando calçados que não têm relação com a corrida.
A Revolução da Estabilidade e a Ascensão da Espuma
Um dos pontos mais discutidos foi a mudança no conceito de estabilidade. Modelos que antes eram categorizados rigorosamente para pronadores ou supinadores estão dando lugar a tênis predominantemente neutros. Rodrigo explica que as marcas têm investido em novas geometrias, alargando a base do solado e removendo ângulos de curva no arco do pé. Isso faz com que tênis neutros possam oferecer suporte para corredores com leve pronação, eliminando a necessidade de modelos de estabilidade moderada e leve.
Na visão de Rodrigo, o grande foco da indústria atualmente é o desenvolvimento da espuma. As inovações em espumas super macias e responsivas, inicialmente presentes nos tênis de competição com placa de carbono, estão sendo adaptadas para modelos de treino e uso diário. "Quando a marca ensanduícha o carbono, ou seja, carrega de espuma para cima e carrega de espuma para baixo, é um tênis que você não sente literalmente ele bater seco", explica, destacando o conforto e a versatilidade que essa abordagem proporciona.
Placas de Carbono: Otimização ou Modismo?
A chegada das placas de carbono revolucionou o mercado. Rodrigo pontua que, inicialmente, a Nike lançou o Vaporfly focado na placa, mas logo se percebeu que a espuma era igualmente, se não mais, crucial. Ele concorda com atletas como Craig Alexander, que já expressaram que a maior vantagem é a capacidade de treinar mais sem a exaustão muscular que os tênis antigos causavam.
No entanto, Rodrigo alerta que os tênis com placa de carbono não são para todos ou para todas as ocasiões. "Se a Nike colocar na caixa: ‘Esse tênis é especificamente para quem corre abaixo de 4 minutos e 20 por km’, esquece. O tênis nasce morto", brinca, ressaltando que muitos amadores compram por impulso, sem considerar sua mecânica ou ritmo de corrida. Ele sugere que, para a maioria, um tênis de competição deve ser usado em provas e em alguns treinos específicos para adaptação, como dois longões antes de um evento principal.
Comparando o Nike Vaporfly e o Alphafly, Rodrigo aponta que, enquanto o Vaporfly foi projetado para o pé de um atleta específico como Kipchoge, o Alphafly se tornou mais democrático e confortável. "As demais marcas pensaram: ‘Vamos fazer algo um pouquinho mais democrático, que de repente a pessoa não vai correr no ritmo que, segundo o tênis, foi feito. Mas a gente vai atender esse público’. E é o que acontece", afirma, justificando o crescimento da concorrência no segmento de tênis de placa.
Preços, Marcas Nacionais e a Ascensão da On
O aumento dos preços dos tênis é uma realidade. Enquanto um bom tênis importado de performance pode custar entre R$ 899 e R$ 999, modelos com placa de carbono facilmente ultrapassam os R$ 2.000 no Brasil. Rodrigo desaconselha a compra no exterior pensando em economia, pois as taxas e o IOF anulam o benefício.
Em meio a esse cenário, marcas nacionais como Olympikus e Fila ganham destaque. Rodrigo elogia o trabalho da Olympikus, que tem alcançado um patamar de desenvolvimento de produto e valor muito competitivo. "Se a gente pegar hoje um tênis de R$999, R$899, não tá caro", diz, mencionando o sucesso de vendas de modelos como o Corre 4 e Corre 10. A agilidade da Olympikus em fazer parcerias locais, como com a Strava e a Cimed, é um diferencial que as multinacionais não possuem, devido às burocracias globais. Contudo, ele observa que, apesar de líderes na corrida de rua, Olympikus e Fila ainda enfrentam certo preconceito no triatlo, um mercado que exige maior investimento para quebrar barreiras.
Outra marca que desponta globalmente é a On. Rodrigo lembra seu primeiro contato com a marca suíça em 2012 e a evolução que presenciou. "O grau de evolução dos tênis, muito bom. Eles fizeram um trabalho que não dá para se discutir, de tudo", comenta, citando o investimento em tecnologia, design e patrocínio de atletas de ponta. A On cresceu com um planejamento sólido, de uma operação inicialmente via importadores para uma subsidiária própria no Brasil em 2019, que funciona de forma enxuta e eficiente.
A Consultoria de Tênis: Um "Running Fit" Personalizado
Rodrigo oferece uma consultoria de tênis, que ele descreve como um "running fit". Seja presencial ou online, o objetivo é minimizar o risco de uma compra errada. Ele analisa o histórico de lesões, os tênis usados (e suas percepções sobre eles), o objetivo da prova e a estrutura corporal do corredor. Na esteira, o ponto chave é observar como o tênis interage com o movimento, pois a geometria do calçado pode influenciar na estabilidade, independentemente da pisada do atleta.
Uma dica valiosa da consultoria é testar um tênis diferente em cada pé na loja, e se possível, sair da esteira para correr no espaço da loja, sentindo a diferença real no piso firme. Rodrigo também ressalta que um tênis que funciona para um pode não funcionar para outro. "Na consultoria eu sou elemento neutro, não é porque não funciona para mim que você não vai testar, às vezes vai dar super certo para você", explica, reforçando a importância da experiência pessoal.
O Futuro e as Histórias Pitorescas
Sobre o futuro dos tênis, Rodrigo prevê que as inovações em espuma continuarão, e não descarta a possibilidade de um retorno a tênis de perfil mais baixo. "Vai chegar um momento que eu acho que vamos baixar o que der, para uma condição de espuma melhor do que era no passado", prevê, como uma reinvenção do maximalismo. Ele também observa o crescimento das marcas chinesas, que oferecem bons tênis com tecnologia e design atraente, embora ainda possam pecar um pouco no acabamento.
No quadro "Roda Presa", Rodrigo compartilhou duas anedotas marcantes. A primeira foi com uma cliente de alto poder aquisitivo que, ao chegar com seguranças e exigir um tênis específico sem querer subir na esteira, foi dispensada por Rodrigo, que se recusou a trabalhar sem sua metodologia. A segunda história, ainda mais surpreendente, envolveu duas clientes que, durante a consultoria, descobriram que um modelo específico só estava disponível em Nova York. Em uma quarta-feira, uma delas ligou para um amigo com um avião particular e as duas voaram para os EUA na manhã seguinte, retornando no domingo com os tênis desejados.
Rodrigo Roehniss (@rodrigoroehniss no Instagram) segue como uma referência para quem busca informação e orientação no complexo mundo dos tênis de corrida, provando que o conhecimento técnico e a experiência prática são tão importantes quanto a tecnologia embarcada nos calçados.