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Renato Cordani: da saga no Troféu Brasil ao pódio em Tóquio

Ex-dirigente da CBDA e nadador relembra bastidores das medalhas em Tóquio 2020 e a persistência na piscina e no mar.

Ex-vice-presidente da CBDA e nadador com longa trajetória, Renato Cordani relembra sua história no esporte e os desafios da gestão. Em conversa no Natação Stemma, ele revela os bastidores das medalhas olímpicas de Tóquio 2020 e a importância da resiliência nas piscinas e nas águas abertas.

Geofísico com mestrado e doutorado pela USP, Renato Cordani construiu uma trajetória que cruza a vivência de atleta competitivo, a paixão pelas águas abertas e o trabalho direto nos bastidores da gestão esportiva nacional. Em entrevista ao Natação Stemma, com Samir Barel e Wanderley Santos, Cordani relembrou sua formação nas piscinas, os desafios do alto rendimento e os detalhes da liderança técnica da seleção brasileira nos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020.

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Maturação tardia e a explosão no Júlio Delamare

Cordani iniciou na natação infantil no Esporte Clube Pinheiros sob a orientação do técnico Pantcho. No entanto, o desenvolvimento físico não seguiu uma linha reta. Durante a passagem pelas categorias de base, uma maturação tardia fez com que ele ficasse distante dos primeiros lugares nacionais na categoria infantil.

A virada aconteceu aos 17 anos. Mantendo a regularidade nos treinos e a dedicação ao esporte, Cordani deu um salto de rendimento ao baixar oito segundos em suas marcas, conquistando o título brasileiro juvenil no Troféu Júlio Delamare em 1987, na prova de 200m peito. O episódio marcou o início de sua trajetória no circuito absoluto e reforçou o valor de respeitar o tempo biológico de cada nadador com o apoio do ambiente de equipe.

Renato Cordani: da saga no Troféu Brasil ao pódio em Tóquio

A persistência e a saga dos 200m peito no Troféu Brasil

Um dos capítulos mais emblemáticos de sua carreira como atleta ficou conhecido como "A Saga dos 200 Peito", história que mais tarde ele publicaria em seu blog Epichuros. Após vencer no juvenil, Cordani ingressou nas disputas do Troféu Brasil de Natação buscando uma medalha no pódio absoluto.

O resultado foi um teste severo de paciência: durante cinco anos consecutivos, Cordani bateu na trave ao terminar exatamente na quarta colocação. A medalha veio apenas na sexta tentativa, quando reencontrou o técnico Pantcho no Pinheiros e conquistou a sonhada medalha de bronze na raia três, feito que repetiu na edição seguinte. Paralelamente às provas de piscina, o volume de treinamento da época permitiu que ele competisse também em maratonas aquáticas tradicionais, como a clássica travessia Ilha Bela-Caraguá em 1990, de 25 km, na qual foi terceiro colocado.

Epichuros, preservação histórica e o Hall da Fama

Depois de se afastar temporariamente da rotina competitiva para se dedicar à carreira profissional e à família, Cordani retomou o contato diário com a comunidade aquática em 2012 por meio da criação do blog Epichuros. O espaço reunia causos do passado, debates técnicos e análises críticas sobre o desempenho das seleções brasileiras nos grandes eventos internacionais.

Dessa movimentação cultural nasceu a iniciativa de valorizar a memória da modalidade com a criação do Hall da Fama da Natação Brasileira, projeto virtual com comissão independente que anualmente homenageia dois ícones históricos do esporte, desde pioneiros como Tetsuo Okamoto e Maria Lenk até atletas das décadas seguintes.

Gestão na CBDA e a implementação da seletiva única

O envolvimento com o debate esportivo levou Cordani à diretoria técnica e posteriormente à vice-presidência da Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos (CBDA) a partir de 2017. Entre as principais diretrizes implementadas na sua gestão esteve a adoção do modelo de seletiva única para as grandes competições internacionais.

A proposta visava acostumar os atletas brasileiros à pressão de atingir marcas e índices no momento exato da decisão, espelhando a exigência das finais olímpicas e mundiais. Durante esse período, a confederação também resgatou o foco nos revezamentos 4x200m livre masculino e feminino nos calendários nacionais e restringiu trajes tecnológicos nas categorias de base.

Os bastidores das medalhas nos Jogos de Tóquio 2020

Como chefe de equipe da natação brasileira em Tóquio 2020, Cordani coordenou a delegação de 26 nadadores e 10 profissionais de comissão técnica em meio às restrições sanitárias e aos protocolos diários da pandemia de Covid-19, como a coleta matinal de testes de saliva e o rastreamento rigoroso na Vila Olímpica.

A campanha encerrou um jejum de nove anos sem medalhas olímpicas na piscina com duas conquistas memoráveis: o bronze de Fernando Scheffer nos 200m livre, nadando pela raia 8 após avançar à final e segurar a pressão na reta de chegada, e o bronze de Bruno Fratus nos 50m livre. Fratus realizou uma preparação focada e isolada com sua treinadora Michelle Lenhardt para controlar o desgaste emocional até a decisão.

Nas águas abertas, a consagração veio com o ouro histórico de Ana Marcela Cunha na maratona aquática de 10 km na Baía de Tóquio, conduzida pelo técnico Fernando Possenti com uma estratégia agressiva e sem alimentação na volta final, confirmando seu favoritismo no cenário mundial.

Travessias e a volta às competições no master

Mesmo após deixar a diretoria da confederação, Cordani seguiu ativo nas águas. Em 2024, sob a orientação do ultramaratonista Samir Barel, completou o Desafio do Leme ao Pontal (36 km) no Rio de Janeiro com a quarta melhor marca da história da prova sem traje de neoprene, tornando-se o primeiro atleta acima dos 50 anos a registrar o tempo no percurso.

Atualmente, Cordani mantém a rotina de treinos voltada para recordes e disputas nas etapas do circuito master de piscina, unindo a experiência adquirida ao longo de quatro décadas no esporte aquático.

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