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Paula Ponte: esporte, maternidade e a nova performance

Com 15 provas de 70.3 e vaga em Kona, triatleta conta como ressignificou o alto rendimento após a chegada dos filhos.

Ex-triatleta com quatro Ironmans no currículo, Paula Ponte compartilha as transformações da rotina com a maternidade. Entre adaptações de treino e noites mal dormidas, ela explica como conquistou o índice para a Maratona de Boston sem abrir mão da vida em família.

Durante anos, a identidade de Paula Ponte foi moldada pela rotina do alto rendimento. Com 15 participações em provas de Ironman 70.3, quatro Ironmans de distância completa e uma classificação para o Mundial de Kona, o esporte ocupava o centro absoluto de sua vida. No entanto, a transição para a maternidade — hoje mãe de Júlia, de 3 anos, e de Luca, de 10 meses — impôs uma reestruturação profunda de rotina, limites físicos e, sobretudo, de autoimagem.

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Dos 15 Meio Ironmans ao sub-3 na maratona

A trajetória de Paula no endurance começou de forma simples: sem bikes de ponta ou planilhas complexas, ingressou no triatlo aos 18 anos treinando nas aulas de spinning e natação da academia. Conforme os resultados apareceram, a dedicação se intensificou. Paula chegou a morar temporariamente em St. Moritz, na Suíça, treinando em altitude ao lado de atletas olímpicos e da campeã mundial Daniela Ryf, sob o comando do técnico suíço Brett Sutton.

Apesar do nível competitivo alcançado, Paula optou por não seguir a carreira profissional diante da defasagem em relação a atletas que nadavam desde a infância. Mais tarde, com o cancelamento recorrente de provas durante a pandemia, ela migrou a dedicação quase exclusiva para a corrida de rua. O foco rendeu frutos expressivos logo na estreia em maratonas puras: cravou 2h59 na Maratona de Berlim, consolidando sua velocidade no asfalto.

Paula Ponte: esporte, maternidade e a nova performance

O choque de identidade com a maternidade

A gestação trouxe à tona reflexões complexas sobre o valor pessoal atrelado ao desempenho físico. O momento em que o quarto de treino precisou dar lugar ao berço e ao trocador marcou o início de uma crise de identidade. Naquele período, a atleta temia que a maternidade significasse o encerramento definitivo de sua história competitiva, dada a escassez de referências de mães amadoras performando em alto nível.

Buscando se preparar para a nova fase, Paula realizou uma pós-graduação em inteligência parental antes mesmo de engravidar da primeira filha. O conhecimento sobre o desenvolvimento infantil e a regulação emocional ajudou a encarar os desafios do primeiro ano com mais empatia e menos frustração, entendendo o comportamento dos bebês sem levar o estresse para o lado pessoal.

A rotina real de treino e a vaga para Boston

O retorno aos treinos exigiu desapego das planilhas rígidas. Se no pós-parto de Júlia o retorno foi veloz — correndo a Maratona de Chicago 14 meses depois —, com o nascimento de Luca o processo demandou ainda mais paciência. Com duas crianças, as janelas de recuperação sumiram e os horários de treino passaram a depender da logística escolar, sendo transferidos para as 8h30 da manhã.

Sob a orientação do treinador Wagner Spadotto (ID Endurance), Paula aprendeu a dosar o esforço de acordo com a qualidade do sono e a fadiga diária. Sem realizar um ciclo longo específico, mas sustentando uma base sólida de treinos consistentes, ela correu a SP City Marathon e garantiu o índice para se candidatar à Maratona de Boston 2027.

O exemplo do movimento e a nova performance

Para Paula, a performance atual não se resume a tempos em provas ou paces agressivos, mas em entregar o melhor possível dentro da realidade que possui. Além do asfalto, ela também experimentou provas de montanha, como o El Cruce, travessia de 100 km em três dias na Patagônia ao lado do marido.

Hoje, o maior objetivo dentro de casa é servir de espelho positivo para os filhos. Mais do que incentivar a competitividade, a proposta é apresentar o esporte como ferramenta de disciplina, autoestima e bem-estar, mantendo a corrida como um espaço inegociável de conexão consigo mesma.

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