Patrícia Farias e o pioneirismo feminino no Leme ao Pontal
A ultramaratonista aquática relembra o início no mar, a transição para as ultras e o feito histórico de 10h22 no Rio.
Patrícia Farias conta como trocou as piscinas pelo mar agitado até se tornar a primeira mulher a completar a Travessia do Leme ao Pontal. A nadadora detalha a preparação física e a relação de confiança com o treinador Renato Ribeiro.
A relação de Patrícia Farias com a natação começou cedo, aos três anos de idade, por recomendação médica para tratar a asma. Após defender o Fluminense nas piscinas durante a juventude e fazer uma pausa para se dedicar ao trabalho, o retorno aos treinos veio acompanhado pelo encanto com as águas abertas. Das primeiras provas de 1 km e 2 km na tradicional Travessia dos Fortes, em Copacabana, surgiu o desejo de focar totalmente no mar.
A paixão pelas condições adversas e a evolução nas provas
Em 2011, Patrícia ingressou na Equipe Navegantes sob o comando do técnico Renato Ribeiro. Sua primeira prova na equipe foi um desafio de 5 km em Rio das Ostras, na Região dos Lagos fluminense, encarando um mar bastante revolto. Em vez de receio, a ondulação pesada despertou entusiasmo e virou uma marca da atleta, que valoriza a imprevisibilidade da água salgada e a superação técnica exigida pelas correntezas.
A progressão de distância aconteceu de maneira gradual no circuito da Copa Brasil. Patrícia enfrentou momentos de desgaste extremo, como na primeira prova de 10 km disputada na Base Naval de Aratu, em Inema, na Bahia. Embora a exaustão daquela chegada tenha feito a atleta cogitar nunca mais nadar 10 km, o caminho nas águas abertas não retrocedeu: ela passou a buscar distâncias ainda maiores e desafios de ultramaratona.
O convite e a preparação para os 36 km
A oportunidade para a Travessia do Leme ao Pontal surgiu de forma natural nos treinos de apoio com o nadador Aderbal de Oliveira. Após acompanhar o colega até a altura da Alvorada, nadando 25 km, o técnico Renato Ribeiro lançou o desafio: ser a primeira mulher a completar a travessia de aproximadamente 36 km na orla do Rio de Janeiro. O convite foi aceito prontamente, alicerçado em uma sólida relação de confiança mútua entre técnica e atleta.
A preparação exigiu um cronograma rigoroso de simulados, treinos de barco e etapas intermediárias. Em 2015, Patrícia completou a Travessia 14 Bis e, no ano seguinte, nadou os 23 km na Ilha do Mel. Com o ciclo de treinos concluído, realizou o percurso do Leme ao Pontal no tempo oficial de 10 horas e 22 minutos, consolidando seu nome na história da modalidade no Brasil.
Troca de experiência na formação de novos atletas
Hoje, atuando ao lado de Renato Ribeiro na gestão e nos treinamentos da Equipe Navegantes, Patrícia utiliza a vivência adquirida nas grandes travessias para orientar novos nadadores. A validação do potencial de cada aluno e a construção da autoconfiança são pilares que ela considera determinantes para quem busca ultrapassar limites no mar.