Igor de Souza e o legado nas maratonas aquáticas
Pioneiro da ultramaratona aquática relembra a travessia dupla da Mancha, a gestão esportiva e a formação de talentos.
Com uma história marcada pela travessia dupla do Canal da Mancha e títulos mundiais, Igor de Souza analisa a evolução das águas abertas. O nadador e gestor detalha a transição das piscinas para as ultras, a rotina espartana de treinos e os desafios da natação de fundo no Brasil.
Igor de Souza é uma das figuras mais emblemáticas dos esportes aquáticos no Brasil. Tricampeão da Volta de Manhattan, primeiro brasileiro a cruzar o Canal da Mancha em ida e volta e supervisor técnico da Seleção Brasileira na histórica conquista mundial por equipes em Barcelona 2013, o nadador construiu uma carreira singular unindo a dureza dos treinos de ultra-resistência à precisão dos números.
Das piscinas do ABC paulista às ultramaratonas
Nascido em Santo André em 1963, Igor deu as primeiras braçadas no Clube Atlético Aramaçan por incentivo do pai. Na juventude, dividia a rotina entre judô, saltos ornamentais e futebol, até focar exclusivamente na natação. Inicialmente velocista, encontrou nas provas longas o seu verdadeiro espaço competitivo quando a estatura física começou a limitar os tiros curtos de 50 e 100 metros livres.
A transição para as distâncias extremas se consolidou no circuito internacional de águas abertas, em uma época onde não havia os recursos de suporte modernos. Igor chegou a disputar 17 ultramaratonas em 17 semanas consecutivas ao redor do mundo, encarando provas clássicas como Capri-Nápoles, Lago Memphrémagog e Lac Saint-Jean, muitas vezes enfrentando águas glaciais sem traje de neoprene e adaptando a nutrição no improviso.
A travessia dupla do Canal da Mancha
O ápice da carreira nas travessias aconteceu no Canal da Mancha. Em 1996, Igor completou o percurso simples em 11 horas e 1 minuto, garantindo o melhor tempo mundial daquela temporada sob condições severas de maré. Inconformado com as intempéries que impediram um recorde de velocidade, voltou em 1997 para desafiar o trajeto completo de ida e volta (two-way), tornando-se o pioneiro sul-americano a concluir o feito.
Para Igor, provas extremas em águas abertas exigem maturidade mental e respeito absoluto à natureza. O sucesso nessas travessias depende de consistência de braçadas e capacidade de adaptação às correntes, fatores que independem unicamente do favoritismo técnico na largada.
Formação exata e gestão dentro e fora d'água
Graduado em Matemática e especializado em Gestão Esportiva e Psicologia do Esporte, Igor aplicou o rigor analítico ao planejamento da carreira e dos negócios. Atuando há quase duas décadas na direção de marketing esportivo da Speedo no Brasil, ele participou de contratos estratégicos com a Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos (CBDA) e do apoio a grandes nomes como Gustavo Borges, César Cielo, Poliana Okimoto e Ana Marcela Cunha.
Além do trabalho corporativo, mantém a rotina de técnico voluntário, ministrando treinos de alta quilometragem nas primeiras horas da manhã. Sua metodologia enfatiza a disciplina, o controle apurado dos parciais de tempo e a lapidação técnica de nadadores que buscam provas de resistência e travessias no mar.
Os gargalos da natação de fundo no Brasil
Com a bagagem de quem liderou a seleção nacional, Igor faz um diagnóstico crítico sobre o cenário atual da natação brasileira. Para o especialista, há uma hiperespecialização precoce em provas de velocidade nas categorias de base, enquanto os programas de treinamento para fundistas (800m, 1500m e maratonas aquáticas) sofrem com a falta de volume e cultura esportiva.
Segundo ele, o país reúne condições climáticas privilegiadas para o treinamento em águas abertas durante os doze meses do ano, mas precisa investir em intercâmbio competitivo e na formação de base para revelar novos atletas de elite mundial. Atualmente, a trajetória do nadador está sendo registrada em um documentário e em uma biografia literária em produção.