Fabão Fagundes: Do Atleta Profissional à Gestão do Ciclismo no Brasil
Ex-ciclista profissional e organizador do Giro, Fabão Fagundes desvenda as diferenças e desafios do ciclismo amador e de elite no Brasil.
Fabão Fagundes, ex-ciclista profissional com uma carreira de 28 anos e hoje organizador de eventos como o Giro Ride Like a Pro, compartilha sua rica trajetória. Em conversa com Gisele Gasparotto no podcast Na Roda do Stemma, ele explora as complexidades e os bastidores do ciclismo amador e profissional. O episódio aborda a transição de Fabão do pelotão para a gestão e os desafios enfrentados na organização de grandes provas no país.
No podcast Na Roda do Stemma, a host Gisele Gasparotto recebeu Fabão Fagundes, uma figura emblemática do ciclismo brasileiro. Com 28 anos de carreira como ciclista profissional, Fabão foi bicampeão brasileiro de pista e participou dos Jogos Pan-Americanos de Santo Domingo em 2003. Hoje, ele está à frente da gestão de eventos de ciclismo como o Giro Ride Like a Pro, aplicando toda sua experiência de atleta na organização.
Uma Vida Dedicada ao Ciclismo: Do Pedala à Organização
A paixão de Fabão pelo ciclismo começou cedo, com a bicicleta servindo como principal meio de transporte. Aos 16 anos, ele foi "descoberto" em uma corrida amadora, mesmo com equipamento simples, graças à sua explosão e capacidade de pedalar em pé. Esse encontro fortuito com o esporte o levou a uma carreira profissional e, mais tarde, a usar bolsas de estudo para se formar em Educação Física e pós-graduação, um diferencial para alguém de origem humilde.
A transição de atleta para organizador do Giro Ride Like a Pro aconteceu de forma inusitada. Após participar de edições do evento como ciclista, Fabão enviou um e-mail com sugestões para aprimorar a prova. O feedback, focado na visão do ciclista e na segurança, chamou a atenção do organizador, Fábio, que o convidou para integrar a equipe. Fabão destaca que o objetivo era trazer um olhar mais "humanizado" para o evento, compreendendo as necessidades e os riscos que os ciclistas enfrentam.
Os Desafios e Bastidores da Organização de Grandes Provas
Organizar um evento de ciclismo de grande porte como o Giro é uma tarefa complexa e custosa. Fabão revela números impressionantes:
- 5.000 cones e 5.000 grades são utilizados.
- São necessários 930 staffs no dia da prova, com logística de transporte e alimentação.
- A segurança envolve diversas forças armadas e policiais, demandando 270 kits lanche apenas para eles.
- O planejamento de um Giro começa com anos de antecedência, trabalhando em edições futuras (ex: Giro de 2027).
A experiência como organizador mudou completamente sua perspectiva. "Nunca mais vou reclamar que o número veio faltando alfinete ou que a largada atrasou 10 minutos", afirma. A complexidade de fechar rodovias, lidar com municípios e garantir a segurança de milhares de atletas é imensa. Fabão ressalta a importância de minimizar o impacto na população local e a preocupação em prover uma estrutura que não sobrecarregue os serviços públicos, como a equipe médica particular do Giro em hospitais da região.
Segurança em Primeiro Lugar
A segurança é uma prioridade máxima. Fabão e sua equipe dedicam 15 dias a Campos do Jordão para a preparação, utilizando 36 litros de tinta para sinalizar o percurso com setas e asteriscos que indicam perigos. Ele faz o percurso três vezes na madrugada do evento para checar imprevistos como deslizamentos ou galhos caídos. Um dos maiores desafios é lidar com acidentes, e Fabão sente-se pessoalmente responsável por cada um, buscando feedback constante da equipe médica para aprimorar as medidas de segurança e, principalmente, evitar acidentes fatais.
Entre as situações mais difíceis, ele recorda um ônibus que ficou preso no Paiol na véspera da prova, exigindo uma força-tarefa com 12 caminhonetes do evento para movê-lo. Além disso, a gestão de animais na pista e outros imprevistos são desafios rotineiros que a maioria dos participantes nem percebe.
Ciclismo Amador vs. Profissional: Uma Linha Tênue
Fabão destaca uma diferença brutal entre o ciclismo amador e o profissional, principalmente na organização das provas. O amador, que representa 90% dos participantes em eventos como o Giro, exige uma atenção extra à segurança e inclusão. Ele relembra que, antigamente, muitos ciclistas eram cortados de provas oficiais por falta de nível, o que gerava frustração. A visão de Mário Roma, com a criação da Claro 100K, foi fundamental para o surgimento de provas amadoras que permitem a todos largar e chegar, focando no desafio pessoal.
"O profissional tem uma dinâmica diferente, um ritmo diferente", explica Fabão. Enquanto o profissional já está "calejado" e atento a detalhes, o amador pode não ter a mesma experiência para identificar perigos. Por isso, regras como o abastecimento com o pé no chão em provas amadoras são cruciais para evitar acidentes.
A Segregação que Freia o Esporte
Fabão critica a segregação imposta por federações e confederações entre atletas amadores e profissionais. Ele argumenta que muitos amadores de alto nível, como Gui Couto e Luiz Felipe Fialho (Galeto), têm uma vida dedicada ao esporte, mas não a estrutura completa de um profissional. Se fossem obrigados a competir na categoria profissional, estariam em desvantagem contra equipes completas, sem massagista, carro de apoio ou troca de roda. Isso os afasta das provas federadas.
Ele propõe que eventos como o Giro poderiam valer ranking nacional para profissionais e pódios para amadores simultaneamente, usando a cronometragem eletrônica para gerenciar a classificação. "Hoje, a estrutura já está pronta", ele afirma, citando o Gran Cup Ubatuba como exemplo de sucesso dessa integração. Essa mudança acabaria com a divisão que, muitas vezes, é artificial e desencoraja a participação.
O "Jeitinho Brasileiro" e as Regras
Um comportamento que Fabão gostaria de eliminar é o "jeitinho brasileiro" de tentar burlar as regras, como ciclistas que se federam na semana da prova apenas para largar em um gate privilegiado ou se inscrevem como amadores sendo federados para buscar pódio. Ele relata um caso recente no Giro onde um atleta foi desclassificado do pódio geral por essa prática. Fabão defende que, embora a criação de novas regras seja importante, a aplicação e fiscalização das regras existentes, com punições claras, é fundamental para a integridade do esporte.
O Futuro é "Humanizado": Giro no Centro de São Paulo
Fabão enfatiza que o "lado humanizado" é o que mais o apaixona no trabalho com o Giro, que se dedica a escutar os atletas e adaptar o evento às suas necessidades. Essa filosofia se reflete em decisões como a separação de largada para pelotões femininos e a criação de categorias específicas.
Para o futuro, Fabão compartilha um spoiler exclusivo: o Giro terá uma etapa de 100km no Centro de São Paulo, com data prevista para 23 ou 26 de agosto. Será um desafio logístico imenso, com o objetivo de minimizar o impacto no trânsito e na rotina da cidade, mas a promessa é de uma prova espetacular, levando o ciclismo para um dos corações urbanos do Brasil.
A conversa com Fabão Fagundes no Na Roda do Stemma revela que o ciclismo, seja ele amador ou profissional, é movido por paixão, mas que a excelência na organização e uma visão inclusiva são chaves para o seu crescimento contínuo. Sua jornada, do pelotão à gestão, oferece uma perspectiva única sobre o esporte e a complexidade dos bastidores que garantem a magia de cada largada.