Dr. Luís Altenfelder: A bicicleta como aliada da saúde mental
O psiquiatra e ciclista compartilha como o projeto Psykle usa a bike para promover bem-estar em movimento e reabilitação.
O Dr. Luís Altenfelder, psiquiatra e ciclista, explora a fundo a relação entre o pedal e a saúde mental. Ele compartilha a história da Psykle, um projeto que leva pacientes para trilhas, utilizando a bicicleta como ferramenta terapêutica. Uma conversa inspiradora sobre movimento, comunidade e desmistificação da psicofobia.
No cenário do esporte de alta performance, onde a busca por resultados e limites é constante, surge um debate essencial sobre um aspecto muitas vezes negligenciado: a saúde mental. Em um episódio especial do podcast "Na Roda do Stemma", o Dr. Luís Altenfelder, psiquiatra e ciclista, trouxe uma perspectiva inovadora sobre como a bicicleta pode ser uma poderosa ferramenta de transformação mental, emocional e terapêutica. Com uma vida dedicada à psiquiatria e uma paixão enraizada pelo ciclismo, Dr. Altenfelder é o idealizador da Psykle, um projeto que une ciência, natureza e pedal para promover o bem-estar.
Uma Vida Sobre Duas Rodas: Da Infância à Competição
A ligação do Dr. Luís com a bicicleta começou muito cedo, ainda na infância, acompanhando o irmão mais velho nas corridas de BMX em São Paulo nos anos 80. A Caloi Extra Light de Natal selou essa paixão, transformando a bicicleta em um estilo de vida, usada para ir à escola e explorar o mundo. Com a chegada das mountain bikes nos anos 90, e as viagens de família para Ilhabela, a pedalada se tornou uma imersão na natureza, gerando sensações de bem-estar que só mais tarde ele conseguiria estudar e compreender cientificamente.
Apesar de nunca ter sido apenas um hobby, a competição só entrou em sua vida após os 30 anos, em 2014, quando o mountain bike na submodalidade Enduro ganhou força. Essa fase de desafios e provas coincidiu com o início de sua visão para a Psykle, em 2015, marcando o prelúdio de uma nova abordagem na psiquiatria.
Nasce a Psykle: Da Clínica à Trilha
Com mais de 15 anos de experiência em psiquiatria, Dr. Luís, vindo de uma família de psiquiatras (seu pai, o Dr. Pedro e o Dr. Marcelo também são da área, com exceção de um irmão advogado), percebeu que o consultório, por si só, não era suficiente para atender as complexidades dos transtornos mentais, especialmente em grandes centros urbanos, onde o contato com a natureza e o senso de comunidade são escassos. A ideia de levar a terapia para fora das quatro paredes surgiu naturalmente. O momento decisivo foi quando levou um paciente internado para uma pedalada simples na Serra do Japí. A experiência, rica em estímulos sensoriais da natureza, teve um poder transformador no paciente.
Esse programa, batizado de Bike Rehab, se mostrou tão eficaz que Dr. Luís começou a explorar a ideia de forma mais estruturada, inclusive utilizando bicicletas elétricas. As e-bikes se revelaram inclusivas, permitindo que pessoas com diferentes níveis de condicionamento físico ou que precisavam de um incentivo extra pudessem participar. O caso de um adolescente que, após experimentar a e-bike, encontrou um sorriso que nunca havia mostrado, ilustra o potencial de reabilitação e transformação do projeto.
A Bike como Ferramenta de Transformação: Inclusão, Movimento e Comunidade
Para Dr. Luís, a bicicleta, e o esporte de forma geral, é um instrumento de reabilitação. O ciclismo, em particular, cria uma relação única com a máquina e fomenta uma comunidade heterogênea, onde pessoas de todos os segmentos se unem pela paixão em comum. Esse senso de pertencimento e a rede de apoio são cruciais, especialmente após a pandemia, que acentuou o isolamento social e a incidência de transtornos mentais.
Ele enfatiza a importância do movimento para a saúde mental. "Não tem saúde mental sem movimento", afirma, destacando que apenas 20 minutos de atividade física, como uma caminhada, já liberam endorfinas e promovem neuroplasticidade. A mensagem é clara: faça algo, mesmo que seja por pouco tempo, pois o cérebro agradece. Essa é a base da medicina do estilo de vida, que busca integrar as pessoas de outras formas, para além da medicação.
Desmistificando a Saúde Mental e o Esporte
O psiquiatra aborda a psicofobia, o estigma associado aos transtornos mentais e ao uso de medicação. Ele defende a ideia de que buscar ajuda psiquiátrica é um ato de cuidado, não de fraqueza. A Psykle, nesse sentido, também atua como um veículo para aproximar as pessoas do tema, desmistificando o preconceito e promovendo um "equilíbrio dinâmico", onde cada um encontra sua própria forma de ajuste.
A busca pelo "estado de flow" no ciclismo — aquele momento de completa imersão e presença – é um dos grandes atrativos, capaz de gerar bem-estar profundo. Dr. Luís argumenta que ter atividades que promovam esse estado é mais valioso do que qualquer substância para o reajuste químico cerebral. Ele destaca que o ciclismo é, muitas vezes, uma válvula de escape, mas é importante que ela seja um canal de reabilitação e não uma fuga irresponsável dos problemas.
Ao discutir performance, ele alerta que o esporte de alta intensidade, embora gratificante, também pode ser um fator de risco para transtornos mentais, dada a exigência e a cobrança. A importância do acompanhamento psicológico para atletas é inegável, com exemplos como Gabriel Medina, Simone Biles e Jenny Rissveds que abordaram publicamente suas lutas. Um atleta mentalmente desequilibrado, segundo ele, performa menos e está mais propenso a lesões. A comparação com a obsessão por KOMs no Strava, o imediatismo e o uso de substâncias por amadores para alcançar resultados rápidos, são reflexos de uma sociedade ansiosa e hiperconectada.
As Várias Faces da Psykle: Apoio, Aventura e Comunidade
A Psykle se desdobra em diversas vertentes: desde o Bike Rehab, onde Dr. Luís, como psiquiatra, acompanha pacientes em trilhas com suas e-bikes Specialized, até o apoio a equipes de enduro e atletas que necessitam de logística e suporte psíquico para competir. A venda de produtos da marca Psykle (@psykle.br no Instagram) também serve como forma de arrecadar fundos para projetos e manutenção de trilhas.
Outras iniciativas incluem o "Ilha Ride" em Ilhabela, que oferece aluguel de bicicletas e guias locais para explorar trilhas escondidas, e os "Psychlo Tours", que são viagens guiadas para locais como Chapada Diamantina e Visconde de Mauá, com foco na imersão e no bem-estar mental. Anualmente, o projeto organiza o "Psychlo All Day", um festival de confraternização aberto ao público com pedaladas, música e churrasco.
Para complementar, a "Casinha Psychlo", localizada no Bosque da Saúde em São Paulo, abriga uma coleção de mais de 35 bicicletas antigas e serve como ponto de encontro e centro logístico para as atividades da comunidade. Dr. Luís também mencionou a organização Outride, fundada por Mike Sinner (um dos fundadores da Specialized), que patrocina projetos nos EUA, com a bicicleta como ferramenta de reabilitação psicossocial em escolas.
O Esporte como Escola para a Vida: Dor, Medo e Resiliência
Dr. Luís Altenfelder aprofunda a discussão sobre dor e medo no ciclismo, relacionando-os com os desafios da vida. O "sofrimento" metabólico do exercício, a capacidade de suportar a dor e aumentar seu limiar, é um aprendizado valioso. A enxurrada de neurotransmissores como a dopamina, que ativa o centro de recompensa cerebral após o esforço, é o que nos faz repetir a atividade, mesmo que ela tenha sido dolorosa. É um ciclo onde a recompensa vem após o esforço, um ensinamento crucial em uma sociedade que busca a gratificação instantânea.
O medo, por sua vez, é visto como um subtipo da ansiedade, uma reação de luta ou fuga. Ele explica que lidar com o medo na bike, como o de descer uma ladeira, pode ser uma forma de terapia de exposição, onde pequenos riscos são controlados para construir confiança. É um processo de "baby steps", que, se mal conduzido, pode gerar traumas e afastar a pessoa do esporte. A resiliência aprendida nas pedaladas – o aguentar, o persistir – reflete diretamente na forma como enfrentamos as dificuldades da vida.
A Importância da Comunidade e do Cuidado
A comunidade ciclística, com suas diversas vertentes, é um microcosmo da sociedade, onde se observam diferentes perfis e comportamentos. Para Dr. Luís, é vital que essa comunidade seja inclusiva, acolhendo novos integrantes e estimulando a educação no trânsito e nas trilhas. Iniciativas como o "Esmalte Graxa" (mencionado pela apresentadora), e a própria Psykle, contribuem para construir um ambiente de apoio e camaradagem.
"Todos nós podemos precisar de ajuda em saúde mental em alguma época da vida", lembra o psiquiatra. É fundamental estar atento aos sinais de sofrimento – em si mesmo e nos outros – e buscar ajuda. A escuta ativa, o oferecimento de apoio e a desmistificação da busca por profissionais são atitudes que podem salvar vidas. A bicicleta, nesse contexto, pode ser uma ponte, um elo, um caminho para o bem-estar, mas não substitui a terapia. Ela é, como ele resume, "terapêutica, mas não é igual fazer terapia".
Para Dr. Luís Altenfelder, pedalar é seu próprio remédio. E a mensagem é clara: mova-se, conecte-se, e permita-se reabilitar através da bicicleta, um convite que a Stemma Sports reitera para todos que buscam equilíbrio e bem-estar sobre duas rodas.