Do asfalto ao XTERRA: Rodrigo Altafini e o cross triatlo
Com 35 anos de carreira e hall da fama off-road, o atleta detalha a transição do Ironman para as trilhas técnicas.
Veterano do triatlo nacional, Rodrigo Altafini relembra sua trajetória desde a equipe Pão de Açúcar e o Ironman de Kona até o topo do XTERRA mundial. Em conversa descontraída no Café com Tri, ele explica as exigências técnicas da modalidade e os ajustes aos 52 anos.
Com mais de três décadas dedicadas ao esporte de alto rendimento, Rodrigo Altafini construiu uma das trajetórias mais sólidas e respeitadas do triatlo brasileiro. Integrante da histórica equipe Pão de Açúcar no fim dos anos 1990 e dono de sete medalhas de finisher no Ironman — incluindo a marca de melhor brasileiro amador em Kona em 2005, com o tempo de 9h29 —, Altafini encontrou no cross triatlo o terreno ideal para unir sua base de infância no mountain bike com a paixão pelas três modalidades.
No bate-papo do podcast Café com Tri, apresentado por Beto Nitrini e Sérgio Magalhães, o atleta que integra o Hall da Fama do XTERRA Brasil abriu os bastidores de sua transição do asfalto para a terra, analisou o abismo técnico entre as duas disciplinas e explicou como mantém a rotina de treinos competitiva aos 52 anos.
Das provas curtas ao Ironman de Kona
A história de Altafini começou no interior paulista, em Itapira, disputando provas de mountain bike e competições de atletismo antes de migrar para o triatlo em 1990. Na década de 1990, destacou-se nas provas de short triatlo e no concorrido circuito do Troféu Brasil, marcando tempos fortes na casa dos 15 a 16 minutos nos 5.000 metros da corrida. Sob a orientação do treinador Marcos Paulo Reis, passou a integrar a elite do Pão de Açúcar, conciliando os treinos pesados na USP com a rotina de trabalho como técnico em óptica.
A progressão natural levou Altafini do short ao olímpico, passando pelo meio iron até estrear na distância máxima em 2002. Três anos depois, no ápice do ciclo na estrada, cruzou a linha de chegada no Mundial de Ironman em Maui e no Havaí. A experiência internacional serviu como divisor de águas: após bater no teto do que conseguia entregar como atleta que precisava trabalhar em período integral, o triatleta decidiu redirecionar todo o seu foco para o nascente circuito de cross triatlo.
A dinâmica brutal do XTERRA
Migrar para o XTERRA exigiu resgatar a bagagem motora da infância no ciclismo. Segundo Altafini, a dinâmica das provas off-road é incomparável ao triatlo convencional de estrada: não existe controle linear de ritmo ou monitoramento rígido de potência por relógio. Os trechos exigem picos de força brutais em subidas íngremes, seguidos por descidas altamente técnicas onde o atleta precisa recuperar o fôlego sem perder o foco visual no piso.
Percursos emblemáticos como o de Ilhabela ilustram bem esse nível de exigência. Com travessias de cachoeiras, lama, pedras vulcânicas e raízes, é frequente ter que desmontar e carregar a bicicleta nas costas. Essa imprevisibilidade do terreno torna a habilidade sobre a bike o grande fiel da balança, impedindo que ciclistas fortes apenas no plano consigam transferir sua performance automaticamente para a trilha.
Tecnologia, segurança e sustentabilidade nas trilhas
A evolução do equipamento transformou o desempenho no cross triatlo ao longo das décadas. Para Altafini, sistemas modernos como as suspensões eletrônicas inteligentes (Flight Attendant), as transmissões sem fio e o padrão de rodas aro 29 poupam energia muscular decisiva ao longo da prova. No calçado de trail, embora novos modelos já incorporem placas de carbono, a prioridade continua sendo a tração da sola e a estabilidade da pisada em terrenos acidentados.
Outro ponto central do esporte é a relação com o meio ambiente. As provas exigem postura de autossuficiência e regras rígidas contra o descarte de lixo. Embalagens de géis e garrafas devem sempre retornar com o atleta, reforçando a cultura de preservação dos locais de prova e a camaradagem entre os competidores nas trilhas fechadas.
Rotina e longevidade aos 52 anos
Para seguir brigando pelas primeiras colocações em sua faixa etária — com direito a top 4 no Mundial de Cross Triatlo em 2024, na Itália —, Rodrigo mantém a mesma estrutura de treinos há trinta anos: três sessões de natação, três de ciclismo, quatro de corrida e duas de musculação por semana. O principal ajuste da maturidade está na gestão da recuperação e no suporte nutricional, incorporando suplementação específica para sono, articulações e síntese proteica.
Para os triatletas de estrada interessados em estrear na terra, o conselho do veterano é ter paciência e humildade com a técnica. A recomendação é buscar primeiro eventos exclusivos de mountain bike e corridas em trilha, escolhendo etapas menos extremas do XTERRA — como Mangaratiba — antes de encarar desafios mais severos como Ilhabela.