Da pediatria ao mergulho extremo: a história de Gabriel Ganme
O médico conta como trocou a residência hospitalar pelas cavernas subaquáticas e expedições com tubarões pelo mundo.
Antes de migrar para a medicina esportiva e as ultramaratonas, Gabriel Ganme viveu anos intensos dedicados ao mergulho. Em conversa no XTREMMA Sports, ele relembra a decisão de abandonar a pediatria, os riscos do espeleomergulho e a convivência com tubarões em expedições internacionais.
A trajetória de Gabriel Ganme na medicina começou longe das montanhas e das trilhas. Formado em medicina e com residência concluída em pediatria em um hospital público, a rotina dura dos plantões e o contato constante com a desnutrição e infecções hospitalares geraram uma frustração profunda com a especialidade. A verdadeira paixão do médico, naquele momento, já estava debaixo d'água.
Assim que pegou o título de especialista, Gabriel entregou o diploma ao pai e decidiu mudar radicalmente de rumo para trabalhar como instrutor de mergulho. O que começou como recreação logo evoluiu para desafios técnicos de alto risco, levando-o ao universo do espeleomergulho — a exploração de cavernas subaquáticas.
Os riscos e o custo físico do espeleomergulho
Para atuar no mergulho em caverna, Gabriel buscou formação no norte da Flórida, principal polo da modalidade no mundo. A prática exige redundância absoluta de equipamentos, já que qualquer falha embaixo d'água não permite subida direta à superfície. Ele chegou a explorar sistemas de 5 a 10 quilômetros de extensão, onde o menor erro individual ou de terceiros pode ser fatal.
Essa rotina técnica também cobrou um preço físico severo. O transporte fora d'água de equipamentos pesados — conjuntos de cilindros duplos que somavam de 60 a 70 quilos — gerou uma sobrecarga articular que mais tarde resultou em artrose no quadril e na necessidade de prótese. O ponto final na exploração de cavernas veio após um quase acidente e a dura experiência de integrar a equipe de resgate do corpo de um ex-aluno que faleceu em uma caverna, aplicando na prática o treinamento de Body Recovery.
Expedições e a convivência com grandes tubarões
Além das cavernas, Gabriel dedicou cerca de 15 anos a guiar grupos internacionais para mergulho com tubarões em destinos como Bahamas e Galápagos, experiência que rendeu inclusive um livro publicado sobre o tema. Para o especialista, a mística de perigo em torno de espécies como o tubarão-tigre se aplica a banhistas e surfistas na superfície, mas a dinâmica com mergulhadores submersos é baseada em demarcação de território e respeito ao espaço.
Embora hoje mantenha o foco na medicina esportiva e em provas de endurance, Gabriel ainda atua pontualmente como guia em expedições selecionadas, mantendo viva a ligação com o universo marinho que moldou sua carreira.