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Ciência e trail running: o impacto do sono no desempenho

Dr. Helton de Sá explica como pesquisas na La Misión Brasil desvendam a relação entre privação de sono e tomada de decisão.

Em conversa no Stemma Na Trilha, o professor Helton de Sá detalha os estudos pioneiros da UFV em provas de montanha. Entenda como o sono afeta a recuperação muscular e a capacidade cognitiva dos atletas nas trilhas mais duras do país.

A corrida em trilha e montanha é frequentemente associada a esforço bruto, superação e contato direto com a natureza. Por trás de cada subida íngreme e descida técnica, no entanto, existe um campo vasto de investigação científica. Em edição gravada diretamente em Viçosa (MG), Sidney Togumi recebeu o professor e pesquisador Dr. Helton de Sá, da Universidade Federal de Viçosa (UFV), para discutir como a ciência brasileira tem investigado a fisiologia, a recuperação muscular e a tomada de decisão em atletas de endurance.

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Do laboratório às trilhas da La Misión Brasil

A trajetória de Helton de Sá no estudo do sono começou ainda na pós-graduação na Unifesp, onde investigava o impacto da privação de sono no metabolismo muscular. Inicialmente realizados com modelos animais e depois em humanos em ambiente estritamente controlado, os experimentos revelaram que a falta de sono induz atrofia muscular, prejudica a taxa de aplicação de força e afeta de forma desproporcional as fibras musculares de contração rápida — padrão semelhante ao observado na sarcopenia em idosos.

Para aproximar os achados laboratoriais do mundo real, o grupo de pesquisa encontrou no trail running o cenário ideal de estresse físico prolongado e privação de sono. A parceria com a organização da La Misión Brasil, intermediada por Paulo Lami em Passa Quatro (MG), transformou a prova em um laboratório a céu aberto desde 2023. Munidos de questionários e actígrafos — relógios que monitoram padrões de vigília e descanso ao longo de semanas —, os pesquisadores começaram a mapear o comportamento dos corredores antes, durante e depois da disputa.

Ciência e trail running: o impacto do sono no desempenho

Sono polifásico e estratégias para provas extremas

Um dos pontos centrais da discussão envolve a gestão do sono em ultramaratonas e provas non-stop, como o Tor des Géants. Helton esclarece que um ciclo de sono completo dura cerca de 90 minutos, alternando entre as fases não-REM (compostas pelos estágios N1, N2 e o sono profundo N3) e o sono REM. Em provas contínuas de vários dias, a adoção do sono polifásico — estratégia com pausas curtas de 10 a 90 minutos — é a ferramenta mais comum para manter o estado de alerta sem acumular inércia de sono excessiva.

Além do tempo de descanso, a sincronização com a luz solar e o controle da ansiedade no período pré-prova exercem papel determinante na preservação muscular e na homeostase inflamatória. Para corredores que enfrentam rotinas urbanas intensas e privação crônica de sono, o uso de cochilos regulares funciona como suporte para atenuar o catabolismo muscular.

Cognição e tomada de decisão: o novo horizonte da pesquisa

Após anos de coleta de dados observacionais em campo, o grupo da UFV expandiu o escopo para a neurociência e a tomada de decisão. O projeto de doutorado de Guilherme, orientando de Helton, utiliza sensores de rastreamento ocular para identificar como atletas de diferentes níveis leem as irregularidades do terreno e escolhem suas trajetórias em simulações de trilha.

A hipótese central é que corredores de elite sustentam maior clareza de raciocínio e um padrão visual mais eficiente mesmo sob fadiga extrema. No futuro, a compreensão desses mecanismos poderá permitir o desenvolvimento de treinos cognitivos específicos para atletas aprimorarem a velocidade de leitura e a precisão técnica em descidas sem depender unicamente do volume nas montanhas.

Os desafios da produção científica esportiva no Brasil

Apesar dos avanços e das publicações acadêmicas geradas pelo grupo, a pesquisa em esporte de alto rendimento no Brasil enfrenta restrições crônicas de fomento. Helton pontua que, diferentemente do esporte paralímpico — que se consolidou entre as maiores potências mundiais graças à integração histórica com as universidades federais —, o trail running ainda busca canais de financiamento público e parcerias com a iniciativa privada para acelerar seus projetos e equipamentos de coleta.

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