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Carlos Dias transforma corridas extremas em apoio ao GRAACC

Primeiro sul-americano nos quatro desertos relembra travessias continentais e o propósito solidário que guia seus passos.

Em conversa no XTREMMA Sports com Shubi Guimarães, Carlos Dias repassa sua trajetória de superação, desde a infância no ABC paulista até os desertos mais inóspitos da Terra. O ultramaratonista detalha travessias históricas e explica como transformou quilômetros rodados em recursos para o tratamento do câncer infantojuvenil.

A trajetória de Carlos Dias no esporte de resistência não começou em pistas de atletismo sofisticadas ou sob planejamento de alta performance. Nascido em São Bernardo do Campo, filho de pais baianos, ele cresceu brincando nas ruas de terra e lidando cedo com as adversidades: perdeu o pai aos dois anos de idade, vítima de um latrocínio no trabalho. A mãe, Dona Neli, trabalhadora da limpeza e inicialmente analfabeta, transformou-se no pilar de determinação da família, incutindo nos filhos a certeza de que o estudo e o esforço seriam seus maiores patrimônios.

O primeiro contato com o universo das corridas de rua ocorreu aos 20 anos, em uma prova de 10 km na Vila Prudente, em São Paulo. O clima de confraternização e a ideia de cruzar a linha de chegada por esforço próprio encantaram o jovem, que rapidamente evoluiu dos 15 km da São Silvestre para as maratonas. Conciliando a rotina de trabalho em compras e a faculdade noturna, Carlos acordava de madrugada e corria 16 km diários de ida até a empresa, além de treinar longões de 40 a 50 km nos finais de semana na Serra da Cantareira com o técnico Herói Fungue.

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Dos 100 km de Cubatão à mítica Comrades na África do Sul

O salto para as distâncias além dos 42 km deu-se no fim dos anos 1990. Em Cubatão, Carlos completou sua primeira prova de 100 km em 10h34min, dividindo o asfalto com nomes consagrados do atletismo de fundo, como Valmir Nunes. A experiência revelou os desafios da nutrição em provas longas e moldou sua resistência física e mental para voos mais ousados.

Em 1998, ao decidir participar da tradicional Comrades Marathon, na África do Sul, Carlos enfrentou a descrença geral e enviou 400 propostas de patrocínio a empresas, acumulando 400 respostas negativas. A viabilização veio da própria companhia em que trabalhava como auxiliar de compras, a Tagma, cujo diretor reconheceu a dedicação diária do funcionário e bancou a viagem. Carlos cruzou a linha em Durban em 11h01min27s — apenas 1 minuto e 27 segundos acima do limite para medalha, mas com a convicção definitiva de que seu lugar estava nas distâncias extremas.

Carlos Dias transforma corridas extremas em apoio ao GRAACC

Travessias pelo Brasil e continentes

A partir de então, o atleta acumulou desafios inéditos. Em 2007, motivado pelo nascimento do filho Vinicius, realizou a travessia do Oiapoque ao Chuí: foram 9.000 km percorridos de forma autossuficiente ao longo de 100 dias, utilizando sandálias Crocs e contando com apoios pontuais da Polícia Rodoviária Federal e do Exército, feito que entrou para o RankBrasil.

Dois anos mais tarde, cruzou os Estados Unidos de costa a costa — de Nova York a São Francisco —, cobrindo 5.130 km em 60 dias. Em 2010, concluiu a épica Volta ao Brasil, somando 18.250 km em 325 dias. A jornada teve início 40 dias após a perda repentina de sua mãe, ancorando-se nas últimas palavras deixadas por ela: "nunca deixe nada pela metade".

O circuito 4 Deserts e o nascimento da causa social

Carlos Dias tornou-se o primeiro sul-americano a completar o circuito 4 Deserts em menos de um ano (cerca de 210 dias). Ele enfrentou as pedras e altitudes do deserto de Gobi (China), o calor de 54°C e as tempestades de areia do Saara (Egito), o gelo e os ventos polares da Antártida e as superfícies cortantes de sal no Atacama (Chile).

Durante os exames preparatórios para o Deserto de Gobi, realizados no Hospital do GRAACC (Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer), em São Paulo, o contato com pacientes em tratamento oncológico ressignificou sua motivação. Inspirado pela coragem das crianças, Carlos decidiu que não correria mais por medalhas ou recordes, mas para arrecadar fundos para a instituição. Criou a campanha Transforme quilômetros em cura, vendendo simbolicamente cada quilômetro percorrido em seus desafios para converter em doações diretas ao hospital.

Livro, projetos futuros e a constância no movimento

Em 2024, o ultramaratonista lançou de forma independente a obra Além dos Extremos, reunindo memórias de sua infância, as expedições extremas e o impacto dos projetos sociais. As vendas do livro e as doações por quilômetros seguem ativas por meio de suas plataformas digitais.

Para 2027, Carlos já tem data marcada para o próximo grande projeto: uma travessia de 5.200 km partindo de Ushuaia, no extremo sul argentino, com chegada prevista para o Dia das Mães na mesma rua sem saída de São Bernardo do Campo onde deu seus primeiros passos na infância.

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