Calor na Europa, novos géis e ícones do running
De cancelamentos de Ironman a debates sobre nutrição e lançamentos que agitam o mercado, o Radar Stemma traz as últimas do endurance.
A semana no esporte de endurance foi marcada por cancelamentos de provas devido ao calor extremo na Europa, incluindo o Ironman de Nice. O mercado de equipamentos agitou-se com o relançamento do Mizuno Wave Prophecy e a expansão de marcas como On Running. Também teve debate sobre nutrição esportiva e a polêmica das camisetas da SP City Marathon.
A mais recente edição do Radar Stemma mergulhou fundo nas notícias que agitaram o mundo do esporte de alta performance, desde as pistas europeias afetadas por ondas de calor até os lançamentos mais quentes do mercado de equipamentos e nutrição.
Maratona de Sydney quer brigar com as gigantes
Após ser elevada ao status de Major, a Maratona de Sydney está determinada a provar que pode atrair as maiores estrelas do esporte. A prova, agendada para 30 de agosto, anunciou um dos mais fortes pelotões já vistos na Austrália. Os atuais campeões mundiais, Alphonse Simbu e Peres Chepchirchir, lideram as listas masculina e feminina, respectivamente.
No pelotão masculino, 14 atletas ostentam marcas abaixo de 2h05, e três deles já correram abaixo de 2h03. Nomes como Sisay Lema, campeão da Maratona de Boston com um tempo de 2h01:48, Timothy Kipragat, Vincent Ngetich e o atual campeão da prova, Kiros, prometem uma disputa acirrada. No feminino, Peres Chepchirchir enfrentará fortes adversárias como Irene Cheptai, Stella Chezang, Vivian Cheruiyot e Ruth Aga.
Apesar do elenco estelar, o percurso de Sydney é considerado desafiador. Para Carlos Gueiros, um dos hosts do programa, é a "pior das majors" em termos de altimetria, o que pode influenciar os tempos finais. A expectativa é que um atleta com a marca de Sisay Lema em Valência termine a prova australiana em cerca de 2h04 ou 2h05.
Lactate 60: O gel que pode mudar a nutrição esportiva
Após a Maratona de Londres, o burburinho nos bastidores não se limitou ao desempenho de um atleta, mas também ao gel que ele utilizou durante a prova. A empresa espanhola Santa Madre anunciou o lançamento comercial do Lactate 60, um produto inovador que combina 40g de carboidrato (em proporção 1:1 de glicose e frutose) com 60 milimoles de lactato.
Historicamente associado à fadiga muscular, o lactato agora é compreendido pela ciência como um potencial combustível para o organismo em esforços intensos. O lançamento, inicialmente previsto para 2027, foi antecipado devido ao impacto da estreia do atleta na maratona. A estratégia nutricional, que inclui o Lactate 60 como complemento (e não substituto) da ingestão tradicional de carboidratos, faz parte do protocolo usado pelo atleta.
Embora a Santa Madre apresente a proposta do gel em seu site, ainda não existem estudos independentes publicados que comprovem ganhos de desempenho em competição. No entanto, o Lactate 60 levanta uma questão crucial: será que, após a corrida por géis com altas doses de carboidrato, o lactato será o próximo grande capítulo da nutrição esportiva? A discussão sobre a origem e a eficácia do lactato como suplemento ainda carece de validação por nutricionistas e médicos do esporte.
Onda de calor na Europa força cancelamentos de provas
A intensa onda de calor que atinge a Europa tem impactado o calendário esportivo. Na França, a etapa de Paris da Diamond League reforçou os protocolos de segurança. Mais drasticamente, o Ironman e o Ironman 70.3 de Nice foram adiados pelas autoridades locais devido às temperaturas que superaram os 40 graus Celsius. Na Alemanha, a Meia Maratona de Hamburgo foi cancelada, e outros eventos ao ar livre também sofreram alterações.
A pesquisadora Daniele Melo, especialista em fisiologia do exercício, ressaltou a importância de eventos esportivos estarem preparados para condições ambientais extremas. O Comitê Olímpico Internacional (COI) recomenda monitoramento constante do risco térmico, planos de hidratação e resfriamento, e equipes médicas aptas a agir rapidamente, além de protocolos claros para adaptar ou cancelar provas. O caso do maratonista português Francisco Lázaro, vítima de insolação nos Jogos de Estocolmo de 1912, serve como um lembrete histórico da seriedade do risco.
O adiamento em Nice gerou frustração para atletas como Paulo Visacchi, que estava em sua melhor forma física após nove meses de preparação, mas viu a prova cancelada dois dias antes. O caso remete ao Ironman Cape Town do ano anterior, cancelado apenas três horas antes da largada, após os atletas já estarem na fase de pré-prova.
Mizuno Wave Prophecy: O retorno do tênis-ícone
Antes de se tornar um fenômeno do streetwear e um símbolo de ostentação, o Mizuno Wave Prophecy nasceu em 2011 como um tênis de corrida de altíssima performance. Com sua tecnologia Infinity Wave (placas plásticas que funcionam como molas), ele prometia absorção de impacto e retorno de energia. Seu preço, que na época se aproximava dos R$1000, rendeu-lhe o apelido de "Mizuno de 1000" ou "Milzuno".
O que era para ser um tênis de corrida, porém, transcendeu as pistas. O Prophecy ganhou as ruas, foi citado em mais de 100 músicas brasileiras e se tornou um ícone cultural. O tênis, muitas vezes combinado com óculos Oakley Juliet, representava ostentação, a ponto de alguns ostentadores usarem um pé de cada cor, para mostrar que tinham dois pares. Houve até relatos de assaltos a lojas para roubar o modelo.
A Mizuno inicialmente enfrentou um dilema: o tênis, caro e com tecnologia avançada para a época, começou a ser visto por corredores como um modelo ultrapassado para performance, enquanto o público de lifestyle o adotava. O reposicionamento para o universo lifestyle e sneakerhead foi a solução. Hoje, relançado como Wave Prophecy 1 com o mesmo visual e por R$2499,99, ele continua sendo um dos maiores símbolos da cultura sneaker no Brasil, esgotando estoques rapidamente e fazendo collabs com artistas e marcas descoladas.
Camisetas da SP City Marathon geram debate
A Nike divulgou as camisetas da edição de 10 anos da SP City Marathon. A maratona de 42 km terá camiseta branca, a meia maratona, azul, e a tradicional camiseta de finisher será verde, entregue apenas aos que completarem a prova. A organização também confirmou a transmissão ao vivo pelo SBT Sports e YouTube em 26 de julho.
Um alerta importante foi emitido pela Iguana Sports: devido às inscrições esgotadas, surgiram ofertas de transferências ilegais. A organizadora reforça que não há processo oficial para troca de titularidade, e pede atenção redobrada antes de qualquer pagamento a terceiros.
Nas redes sociais, a escolha das cores das camisetas gerou grande repercussão, com muitos comentários negativos. A simplicidade dos modelos foi criticada como "básica e sem graça", e alguns usuários compararam as peças a "camiseta de escola estadual". Embora alguns hosts, como Fábio Bessa, tenham gostado, a expectativa do público, acostumado com designs mais ousados da Nike, parece ter sido frustrada.
On Running pisa forte no Brasil com lojas próprias
A marca suíça On Running segue em sua expansão no Brasil, inaugurando suas duas primeiras lojas próprias no país, ambas em São Paulo. A primeira foi no JK Iguatemi e a segunda no Morumbi Shopping. Até então, a On atuava por meio de parceiros como Track & Field, Centauro, Bayard e Authentic Feet, além de seu site e aplicativo.
As lojas seguem um conceito arquitetônico inspirado na capital paulista: a unidade do JK Iguatemi (205 m²) remete ao SESC Pompeia, enquanto a do Morumbi Shopping (305 m²) se inspira no edifício Copan de Oscar Niemeyer. Elas oferecerão a linha completa de corrida, treino, roupas e acessórios, funcionando também como pontos de encontro para a comunidade de corredores. Há planos de abrir uma terceira loja no Shopping Leblon, no Rio de Janeiro, até o fim do ano.
A entrada de lojas próprias de grandes marcas no mercado levanta o debate sobre a relação com os parceiros varejistas. Embora a concorrência possa ser um ponto de atrito, a abertura de pontos de venda exclusivos é uma estratégia de mercado inevitável para marcas que buscam fortalecer sua identidade e expandir diretamente para o consumidor.
Saucony finca bandeira em Hong Kong e China
A Saucony inaugurou sua primeira loja própria em Hong Kong, localizada no Art Mall, um dos principais centros comerciais da cidade. Esta iniciativa faz parte da estratégia da Xtep (responsável pela marca na Grande China) de posicionar a Saucony como uma grife premium de corrida na região.
A marca já conta com mais de 170 lojas na China continental e planeja abrir entre 20 e 30 novas unidades este ano, priorizando pontos estratégicos em vez de uma expansão acelerada. A nova loja em Hong Kong oferece cores exclusivas, escaneamento de pés para auxiliar na escolha do tênis ideal e fará parte de uma série de ativações, incluindo o espaço temporário "Run Is One Hub" e uma corrida de 10 km em outubro.
Asics Nova Blast 6 chega ao mercado brasileiro
A Asics escolheu uma transmissão ao vivo para apresentar oficialmente o Nova Blast 6 ao mercado brasileiro. O evento contou com a participação do ator e embaixador da marca Nicholas Prattes, da maratonista e influenciadora Júlia Sette, e de Flávio Riger, gerente de produtos da Asics para a América Latina, que detalhou as inovações do modelo.
A sexta geração do tênis incorpora a espuma FF Turbo Squared na parte dianteira, combinada com a já conhecida FF Blast Max, prometendo uma corrida ainda mais macia, elástica e responsiva. O Nova Blast 6 mantém sua proposta de ser um dos modelos de treino mais populares entre os usuários do Strava, chegando às lojas por R$999,99.
Huawei Watch GT Runner 2 e Kipchoge na NB 42K Porto Alegre
A New Balance 42k de Porto Alegre, marcada para 12 de julho, terá um relógio oficial: o Huawei Watch GT Runner 2. Desenvolvido em parceria com Eliud Kipchoge, bicampeão olímpico e amplamente considerado o maior maratonista da história, o smartwatch será um dos destaques do evento.
A equipe Stemma Sports fará a cobertura completa da prova, com um estúdio na Expo da NB 42k, a partir de quinta-feira. Além de podcasts e entrevistas com atletas, haverá eventos com a presença de Kipchoge, que, apesar de uma dieta predominantemente baseada em plantas, não é vegetariano. O relógio, que se destaca pelo design e preço competitivo (cerca de R$1.500 a R$1.600), promete esgotar os estoques com a presença do ícone do atletismo.
As provas que mais classificam para a Maratona de Boston
A Boston Athletic Association divulgou as cinco provas que mais classificaram corredores para a Maratona de Boston em 2026. A própria Boston Marathon lidera, com 2.981 índices aceitos, seguida por Chicago (1.804), Berlim (1.127), Nova York (832) e a California International Marathon (CIM), com 675. No Brasil, provas como Porto Alegre e Buenos Aires são conhecidas por possibilitarem a conquista do índice.
A explicação para a alta classificação de provas como Chicago e Berlim reside em seus traçados rápidos. Já Nova York, apesar de um percurso desafiador, atrai tantos corredores de alto nível que continua a produzir centenas de qualificações para Boston anualmente. Vale notar que o Mundial de 2025 em Nova York pode ter inflado temporariamente o número de qualificadores da prova.
Homenagem aos "Trailblazers" da Maratona de Nova York
A Maratona de Nova York celebra os 50 anos de seu percurso atual com a campanha "The Trailblazers" (Os Pioneiros). Até 1975, a prova acontecia inteiramente dentro do Central Park, em múltiplas voltas. A transformação para o icônico trajeto que atravessa os cinco distritos da cidade, começando na Ponte Verrazano Narrows, é um marco na história da corrida de rua.
A homenagem é direcionada a cinco homens cruciais para essa mudança: Fred Lebow, diretor da prova e figura central na popularização da maratona; Ted Corbitt, pioneiro que propôs levar a corrida para as ruas; George Spitz, ativista; o político Percy Sutton; e o jornalista George Hirsch. Juntos, eles garantiram apoio político, recursos e a projeção internacional necessária para transformar uma corrida local em um dos maiores eventos esportivos do mundo.
Malabarismo para recorde mundial em ultramaratona
O canadense Michael Capral quebrou o próprio recorde mundial ao completar uma backyard ultra fazendo malabarismo. Em uma prova que consiste em correr voltas de 6.7 km a cada hora, Capral percorreu 120.7 km em quase 18 horas, mantendo três bolinhas no ar durante praticamente todo o tempo. A backyard ultra é um formato desafiador, onde os atletas correm sucessivas voltas até que não consigam mais completar o percurso dentro do tempo limite.
Capral, que já havia estabelecido o recorde anterior de 115 km em 2024, também detém a marca da maratona mais rápida do mundo fazendo malabarismo (2h55m25s em Chicago, 2016). No total, ele acumula 11 recordes mundiais nessa modalidade inusitada, reiterando após a prova que "nunca mais repetirá a experiência" — a mesma promessa feita em seu recorde anterior.