Beto Pandiani: Mente, Medo e Mar em Expedições Extremas
Navegador Beto Pandiani revela lições profundas de suas travessias oceânicas sobre resiliência, propósito e a força da mente.
Em uma conversa com Shubi Guimarães no Xtremma Sports, Beto Pandiani compartilha os desafios de suas lendárias expedições oceânicas. Ele aborda como a navegação extrema moldou sua mente e sua visão sobre medo, escassez e a importância da experiência real. Descubra as lições valiosas de um dos maiores expedicionários do Brasil.
No XTREMMA Sports, a apresentadora Shubi Guimarães recebe Beto Pandiani, um dos maiores nomes da navegação oceânica brasileira. Velejador, escritor e explorador, Pandiani é conhecido por suas travessias épicas em condições extremas, muitas delas em um pequeno catamarã sem cabine. Nesta conversa, ele compartilha como essas jornadas moldaram sua percepção sobre resiliência, medo, adaptação e o valor das experiências reais.
A Trajetória de um Desbravador dos Oceanos
Desde cedo, Beto Pandiani carregava o sonho de velejar pelo mundo, inspirado pela paixão de seu pai. Sua jornada de exploração começou em 1994, com a lendária travessia de Miami a Ilhabela. Em um Hobie Cat 21, um catamarã de apenas 7 metros e sem cabine, ele e seu companheiro Marcos Subacchi (o Foca) percorreram cerca de 22.000 km em 289 dias. A rota incomum incluiu a navegação pelo Rio Orinoco, dentro da floresta amazônica venezuelana, e o Rio Negro até Manaus, antes de descer o Amazonas até Belém e, finalmente, a costa brasileira.
Essa expedição pioneira foi uma revolução em sua vida. A bordo de um barco totalmente exposto aos elementos, sem conforto e com espaço mínimo para suprimentos, Pandiani aprendeu a essência da escassez e do desapego. A frase "Viaje leve, viaje longe" nasceu dessa experiência, pois a equipe precisou reduzir 110 kg de carga para evitar quebras no barco. Ele reflete sobre o contraste com a vida urbana, onde o excesso de bens e recursos leva ao desperdício, e como a viagem o fez valorizar cada item, desde a comida liofilizada até uma simples maçã.
Enfrentando o Frio e o Desconhecido
As expedições de Pandiani não se limitaram às águas tropicais. A Rota Austral, contornando o sul da América do Sul, foi uma jornada de frio intenso e desconforto prolongado. Passando 150 dias em temperaturas baixíssimas em um barco sem cabine, ele aprendeu a educar a mente para lidar com o frio, distinguindo o real do psicológico. "Se você fica colocando o foco na dor, puta, você só vai pensar na dor. Mas se você coloca o foco para tua mente pensar em outra coisa, sabe? Muda." Essa lição é um paralelo direto com a resiliência exigida em esportes de alta performance, onde a capacidade de desfocar da dor e do incômodo é crucial.
Outro ponto alto de sua carreira foi a travessia do Drake Passage, rumo à Antártica, com o velejador Igor Bellini. Considerada uma das regiões mais perigosas do planeta, a passagem exigiu 84 horas de navegação contínua, sem dormir. A probabilidade de sucesso era de apenas 5%, e a exaustão era tamanha que, mesmo consumindo 6.000 calorias diárias, o corpo mal conseguia produzir calor. Nesses momentos-limite, ativava-se o instinto de sobrevivência, uma "reservinha" que surge apenas em situações extremas, mobilizando recursos internos para alcançar o objetivo. "A escassez nos educa, o excesso nos torna irresponsáveis."
Além dos Limites: Medo, Adaptação e Propósito
Beto Pandiani revela que seu maior medo não é morrer, mas sim não terminar a viagem e lidar com o fracasso de não entregar o que prometeu a si mesmo e aos patrocinadores. Essa responsabilidade, que impulsiona suas escolhas e decisões, é uma prova da seriedade com que ele encara cada projeto.
A conversa também explora a diferença entre "problema" e "estímulo". Beto sugere que encarar desafios como estímulos abre espaço para a criatividade e a adaptabilidade, em vez de construir "muros" mentais. Ele enfatiza a importância da intuição na tomada de decisões sob pressão, especialmente em ambientes onde a mente guiada pelo medo pode desconectar o coração e a razão.
Para Pandiani, a desconexão com a natureza e o excesso de telas na vida moderna levam ao medo e à falta de autoconhecimento. A natureza, ao contrário, ensina sobre risco real versus risco psicológico, sobre a importância de ouvir o entorno e de confiar nas próprias capacidades. A "Regra dos Três" — encontrar três coisas boas em cada situação ruim — é uma das filosofias que ele aplica no dia a dia.
O Poder da Experiência Real e o Legado do Movimento
Beto Pandiani é um defensor das experiências reais em detrimento do consumo digital. Ele compartilha a história de um jovem que, após uma aula de vela, transformou sua vida, buscando o esporte e a natureza em vez das telas. Ele brinca que a maior causa de doenças é o "sofá" e a televisão, pois o corpo humano, geneticamente, foi feito para o movimento.
A prática esportiva, especialmente na natureza, não é apenas um hobby, mas uma ferramenta de autoconhecimento e bem-estar. Ela desenvolve disciplina, resiliência e a capacidade de lidar com o imponderável. A felicidade e um propósito claro, segundo Pandiani, são chaves para a saúde e para uma vida plena, onde o corpo e a mente trabalham em harmonia.
Entre as cenas mais marcantes de suas expedições, ele destaca o encontro com 250 baleias belugas na Baía Leopoldo, no Oceano Ártico. O canto das baleias, a energia do momento e a sensação de estar em um lugar tão remoto e intocado foram inesquecíveis, um verdadeiro "scanner energético" que limpou sua alma. Essa experiência foi registrada no livro e no documentário "Rota Polar".
As vivências de Beto Pandiani no mar mostram que os limites são frequentemente mais mentais do que físicos, e que a conexão com a natureza e o autoconhecimento são as maiores bússolas para navegar pelas tempestades da vida. Suas histórias nos inspiram a buscar nossas próprias "expedições" e a viver com mais propósito, desapego e resiliência.