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Bernardo Fonseca: risco, ultradistância e empreendedorismo

Criador do XTERRA no Brasil e montanhista do Everest e Denali reflete sobre limites, gestão e sobrevivência no extremo.

Em conversa no XTREMMA Sports com Shubi Guimarães, Bernardo Fonseca detalha sua trajetória multifacetada no esporte. Do início precoce no triathlon às conquistas na Antártica e nas montanhas mais perigosas do planeta, o fundador da X3M explica como a tomada de risco moldou sua carreira como atleta e empresário.

Com uma trajetória construída entre o esporte de resistência, a alta montanha e os grandes eventos outdoor no Brasil, Bernardo Fonseca sentou com Shubi Guimarães no XTREMMA Sports para repassar momentos marcantes da sua vida. Inquieto por natureza, o empresário e atleta detalhou como a busca contínua por desafios fora do comum o levou do triathlon juvenil às ultramaratonas na Antártica e aos cumes do Everest e do Denali.

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Dos primeiros passos no triathlon à criação do XTERRA no Brasil

Criado descalço no interior de Minas Gerais, em Baía Eterna, Bernardo descobriu o esporte ainda jovem ao se mudar para o Rio de Janeiro. A paixão pelo endurance foi tão imediata quanto intensa: aos 17 anos, chegou a falsificar a carteirinha de atleta para conseguir largar em seu primeiro Ironman, época em que a prova reunia apenas cerca de 60 competidores no país. Inicialmente forte e técnico no mountain bike, ele foi expandindo sua atuação para corridas de aventura e ultradistâncias.

A virada para os negócios aconteceu no início dos anos 2000, quando trabalhava no mercado financeiro. Movido pela ideia de trazer o circuito global XTERRA para o Brasil, Bernardo viajou ao Havaí com milhas emprestadas e dormiu no carro do triatleta Alexandre Ribeiro para viabilizar as primeiras reuniões. Sem sequer possuir CNPJ constituído na largada, ele garantiu o patrocínio master junto à Nissan e organizou a histórica primeira edição em Ilhabela em 2005, com 400 participantes — semente que fundou a X3M e impulsionou o mercado nacional de trail run e triathlon cross.

Bernardo Fonseca: risco, ultradistância e empreendedorismo

A dobradinha histórica na Antártica: 42 km e 100 km no gelo

O apetite por provas inóspitas colocou a Antártica na mira do atleta. Na primeira tentativa na Antarctic Ice Marathon, em 2007 — após conseguir patrocínio da Piraquê ao insistir pessoalmente três vezes com o presidente da empresa —, Bernardo treinou dentro de câmaras frias industriais a -20 °C. No continente gelado, contudo, o uso de calçados dois números maiores e meias inadequadas gerou bolhas severas, resultando em um quarto lugar.

A volta por cima aconteceu anos depois, ao lado de Clayton Conservani e do programa Planeta Extremo. Inicialmente focado nos 100 km, Bernardo decidiu alinhar também nos 42 km para testar os equipamentos. Em um ritmo crescente sobre a neve fofa, ultrapassou os líderes no quilômetro final e venceu a maratona. Horas depois, devido à aproximação de uma tempestade que antecipou a prova longa, ele alinhou novamente às 21h30 para os 100 km, venceu a disputa e quebrou os recordes de ambas as distâncias.

A linha tênue da alta montanha: Denali, Everest e gestão de risco

Com mais de duas décadas de experiência em escalada, Bernardo avançou para as grandes altitudes, atingindo o cume do Everest e enfrentando o rigor técnico do Denali, no Alasca. Em sua primeira investida no Denali, passou seis dias ilhado no High Camp sob forte nevasca, com apenas um dia de suprimentos, precisando abortar a subida após perder dez quilos. No ano seguinte, retornou e concluiu a rota em dez dias.

A convivência com a perda de amigos em expedições e acidentes recentes na montanha reforçou sua percepção sobre a seriedade do risco. Antes de cada expedição extrema, Bernardo mantém o hábito de deixar cartas de despedida para sua esposa, Roberta, e para os três filhos, organizando procurações legais antes do embarque. Para ele, assumir riscos reais exige planejamento cirúrgico e respeito absoluto aos limites impostos pela natureza, onde recuar faz parte da sobrevivência.

O modelo mental: da zona da morte à liderança corporativa

À frente da X3M, que produz dezenas de eventos esportivos por ano em todo o país, Bernardo compara a pressão empresarial com as exigências dos 8.000 metros de altitude. Segundo ele, assim como ninguém consegue sobreviver indefinidamente na chamada "zona da morte", uma organização precisa saber atravessar períodos caóticos com foco estratégico sem desgastar permanentemente sua equipe.

Ao equilibrar a intensidade de quem disputa provas extremas com a maturidade de delegar a operação diária — contando com nomes de peso como Alexandre Manzan e Rafael Campos na direção técnica —, o executivo reforça que a autoconfiança e o planejamento rigoroso continuam sendo a base para desbravar tanto novos cumes quanto novos negócios.

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