Antônio Alves: Mar, Ultras e a Mente — Lições de Neurociência da Stemma
Conheça como a vida de um oficial da Marinha Mercante e a neurociência moldam um ultramaratonista para superar limites extremos.
Antônio Alves, oficial da Marinha Mercante e ultramaratonista, compartilha sua jornada única no Xtremma Sports com Shubi Guimarães. Ele revela como concilia a vida no mar com treinos intensos e aplica a neurociência para dominar o lado mental em provas de endurance. Uma discussão profunda sobre disciplina, motivação e a arte de expandir os próprios limites.
No episódio #13 do Xtremma Sports, a multiatleta e educadora Shubi Guimarães recebe Antônio Alves, uma figura singular no universo dos esportes de endurance. Oficial de convés da Marinha Mercante, ultramaratonista e pós-graduado em Neurociência do Comportamento, Antônio compartilha sua trajetória, desvendando como concilia uma profissão exigente com a paixão por desafios extremos e o poder da mente na superação.
Da Cabine do Navio às Pistas de Ultramaratona
Carioca da gema, Antônio sempre teve uma educação voltada para o movimento e prática esportiva, desde capoeira e futebol na infância. Contudo, a corrida surgiu mais tarde, por volta de 2014/2015. Sua carreira na Marinha Mercante foi inspirada pelo avô, que viajou o mundo. Ele ingressou através da EFOMM (Escola de Formação de Oficiais da Marinha Mercante), um concurso diferente da Marinha do Brasil, focado no transporte de mercadorias. Durante os três anos de formação, viveu sob regime militar, tornando-se um militar da ativa temporário e, posteriormente, da reserva não remunerada.
A vida embarcada de Antônio é dividida em ciclos de 28 dias a bordo e 28 dias em terra. Nos navios, que podem ter de 120m a 300m, a rotina é intensa, com 12 horas de trabalho diárias. O treino se adapta a essa realidade, utilizando esteiras na academia do navio. Em um ambiente tão restrito, Antônio já chegou a correr 50km na esteira, enfrentando o balanço do mar e a monotonia. Conciliar o pico de volume de treino com a jornada de trabalho se torna um desafio que exige disciplina extrema, resumindo-se a "sono, treino e trabalho" durante o embarque.
A Corrida como Ferramenta de Autoconhecimento
Foi durante a formação militar, com as práticas esportivas obrigatórias, que Antônio intensificou seu contato com a corrida. Inicialmente no remo e futebol, ele migrou para a corrida ao perceber seu potencial de autoconhecimento. Correr sozinho permitia conversas internas, gerando um espaço para resolver problemas pessoais e gerenciar a ansiedade – uma verdadeira terapia em movimento. Essa conexão o transformou de corredor ocasional em "Comandante do Pelotão de Corrida" na Marinha Mercante, organizando provas de rua e dedicando-se mais intensamente, buscando entender e aprimorar seus métodos de treino. Somente a partir de 2018, e com mais foco em performance a partir de 2022, ele se consolidou como ultramaratonista.
Neurociência do Comportamento: O Cérebro na Superação
Em 2023, Antônio buscou aprofundar seu conhecimento em Neurociência do Comportamento, fazendo uma pós-graduação na PUC. Para ele, entender o funcionamento do cérebro é um poder que permite intervir em desafios diários e esportivos. Ele enfatiza que a mente é um músculo crucial, influenciando diretamente a performance. Ao comparar recordes em ambientes controlados (ex: Eliud Kipchoge em projeto 1:59) com os de competições oficiais (ex: recorde de Cielo na natação), Antônio argumenta que o fator emocional e a capacidade de gerenciar o estresse competitivo são determinantes para a verdadeira excelência.
Dor e Sofrimento: Inevitável vs. Opcional
Para Antônio, atletas de elite possuem um alto limiar de desconforto. Ele reitera a frase: "Dor é inevitável, sofrimento é opcional". A capacidade de enxergar um propósito positivo em experiências desafiadoras é uma chave para o bem-estar e a saúde mental. Ele também discute a importância de lidar com emoções tidas como "negativas", como tristeza e tédio, para um equilíbrio neuroquímico saudável. A busca constante por liberação dopaminérgica (redes sociais, celulares) da nova geração, por exemplo, impede o desenvolvimento da criatividade e da capacidade de introspecção.
Expandindo Barreiras e o Poder da Motivação
Em vez de "quebrar barreiras", Antônio defende a ideia de expandir os limites. A cada prova, o objetivo é empurrar o ponto crítico um pouco mais para frente, de forma consciente e gradual. Isso é um treinamento mental, que fortalece o autocontrole e o controle inibitório, permitindo sustentar a atenção no objetivo final mesmo sob estímulos contrários. A visualização e a atenção plena durante o treino são ferramentas poderosas para isso, ensinando o atleta a sentir o corpo e a mente. Para Antônio, a ansiedade pré-prova, por exemplo, não deve ser evitada, mas sim compreendida e usada como um motor, pois "não é sobre não ter, é sobre saber reagir".
Uma das grandes dores de Antônio, como neurocientista, é o mito de que "motivação não importa e só disciplina basta". Ele explica que a motivação é um estado neurobiológico fundamental, a "mãe da disciplina". É o motivo para a ação que nos impulsiona a começar e a sustentar comportamentos, liberando dopamina no cérebro. A disciplina, por sua vez, é a recorrência desse comportamento. Não se trata de estar sempre animado (estado de euforia), mas sim de estar motivado, mesmo nos dias difíceis. Cercar-se de pessoas com objetivos semelhantes, que inspiram e influenciam positivamente, é igualmente crucial. A influência recíproca na comunidade esportiva é uma poderosa ferramenta de transformação.
A jornada de Antônio Alves é um lembrete inspirador do poder da mente. Seja navegando os mares ou os quilômetros de uma ultramaratona, sua experiência mostra que, com autoconhecimento e uma compreensão profunda da neurociência, os limites podem ser constantemente expandidos. Que essa inspiração nos impulsione a enfrentar nossos próprios desafios, mantendo a motivação em foco e a mente como nossa maior aliada. Antonio se prepara agora para a Spartathlon, onde promete trazer a medalha para casa, provando que a superação é uma jornada contínua.