Alic Viana: Desafios e Força Feminina no Trail Running
A treinadora e atleta amadora discute segurança, competitividade e a crescente presença feminina nas trilhas brasileiras.
Alic Viana, uma das grandes referências femininas do trail running brasileiro, compartilha sua inspiradora jornada do triatlo às montanhas. Ela aborda os desafios únicos que as mulheres enfrentam em treinos e competições, a extraordinária força mental feminina no endurance e sua filosofia de treino. Uma conversa essencial sobre inclusão e resiliência no esporte.
No nono episódio do Stemma na Trilha, o apresentador Sidney Togumi recebe a treinadora e atleta Alic Viana. Conhecida por sua vasta experiência em provas de ultra endurance e por ser uma das principais referências femininas no trail running brasileiro, Alic compartilha sua trajetória única, os desafios enfrentados pelas mulheres no esporte e suas percepções sobre a evolução e o futuro da modalidade.
A Jornada de Alic Viana: Do Triatlo às Trilhas
Alic Viana revela uma história fascinante de como chegou ao trail running. Antes de se dedicar 100% às montanhas, ela foi triatleta. Com uma mentalidade focada em melhoria contínua, ela decidiu aprimorar cada modalidade individualmente: passou um ano focada na natação (competindo em águas abertas e piscinas), outro no ciclismo (inclusive federada por Osasco e participando da Nove de Julho). Seu ponto fraco, a corrida, a levou a buscar algo novo. Foi então que seu irmão a introduziu ao trail running por volta de 2013/2014.
O impacto foi imediato e profundo. A paixão pela corrida de montanha foi tanta que ela largou o triatlo para se dedicar integralmente à nova modalidade, especializando-se em provas de aproximadamente 100 km. Sua transição profissional também é notável: de bancária para bacharel em Educação Física, motivada pelo desejo de aprofundar seu conhecimento para o próprio esporte, e mais tarde, para ajudar outras pessoas. Essa vivência a levou a se tornar treinadora e coordenadora técnica de Trail Run na Floow Assessoria Esportiva.
Desafios Femininos no Trail Running
Um dos pontos cruciais da conversa com Sidney Togumi foi a discussão sobre os obstáculos que as mulheres enfrentam no esporte. Alic destaca que, apesar do crescimento da participação feminina (com algumas provas se aproximando de 50/50), as mulheres ainda encaram desafios significativos, especialmente relacionados à segurança e ao preconceito. Ela compartilha sua própria experiência de não se sentir 100% confortável ao treinar sozinha, especialmente em horários de madrugada, pensando em situações como roubos ou assédio, medos que raramente afetam os homens.
Durante as provas, a competitividade masculina também se manifesta. Alic relata situações onde homens não cedem passagem, mesmo quando mulheres estão em categorias diferentes. Essa atitude, que ela considera uma “bobagem”, ignora a capacidade feminina no endurance. A treinadora também ressalta a escassez de treinadoras de trail mulheres, atribuindo isso à menor vivência feminina na modalidade no passado e à falta de confiança que algumas alunas podem demonstrar em um primeiro momento.
Estratégias de Treino e Mentalidade de Ultra
Alic Viana é uma atleta competitiva, mas com uma maturidade rara na sua abordagem ao esporte. Ela enfatiza a importância de um bom planejamento e do descanso, considerando-o tão vital quanto o próprio treino. Alic, que se autotreina e hoje tem 46 anos com 20 anos de corrida, adaptou sua metodologia:
- Foco em Horas, não em Quilometragem: Em vez de contabilizar quilômetros, ela monitora as horas totais de atividade, incluindo musculação, o que permite uma visão mais realista do volume de estresse no corpo, essencial para evitar lesões.
- Tecnologia a Favor: Utiliza ferramentas como o HRV (Variabilidade da Frequência Cardíaca) de relógios como o Coros para monitorar sua recuperação e garantir que o corpo esteja pronto para cargas extremas.
- Maturidade Competitiva: Compartilhou sua experiência na prova “Maldição do Corpo Seco”, onde, mesmo estando em primeiro lugar, decidiu parar após completar as 10 voltas que a qualificavam como finisher. Sua decisão foi baseada na periodização e no objetivo de preservar o corpo para uma prova alvo mais importante, mostrando uma disciplina exemplar e um ego bem gerenciado. Para ela, nem toda prova é para competir em alto nível; algumas são para treinar ou conhecer novos lugares.
- Apoio Multidisciplinar: Reconhece que, com o tempo, o corpo exige mais, e buscar acompanhamento profissional em áreas como nutrição se tornou fundamental para a longevidade no esporte.
O Debate dos Tempos de Corte e o Futuro do Trail Feminino
A discussão sobre se os tempos de corte em provas deveriam ser diferentes para homens e mulheres foi um ponto alto. Alic pondera sobre o caso da atleta Rosália, que foi cortada de uma prova no Peru. Embora não tenha uma resposta definitiva, ela acredita que no endurance, especialmente em distâncias mais longas, a mulher se equipara ao homem, sustentando a ideia de manter os tempos de corte iguais. No entanto, ela reconhece que o ambiente (como altitude em provas internacionais) e as condições logísticas podem influenciar, sugerindo que a organização de provas específicas possa repensar essa questão.
Alic e Sidney concordam que a força mental das mulheres é, muitas vezes, superior à dos homens em provas de longa duração, levando a taxas de desistência menores. Elas entram em desafios mais preparadas e com um comprometimento inabalável. O cenário do trail feminino no Brasil é visto com otimismo: o número de mulheres dedicadas e de atletas de alto nível tem crescido exponencialmente, elevando o patamar da modalidade. A camaradagem entre atletas, mesmo em competições, é uma característica única do trail running.
O desafio, contudo, reside em atrair e desenvolver as novas gerações de atletas. Alic sugere que a iniciativa possa vir dos pais e das organizações de provas, criando oportunidades para que jovens talentos se descubram e se capacitem, garantindo a renovação e o futuro do esporte.
A jornada de Alic Viana é um testemunho da paixão, dedicação e resiliência necessárias para prosperar no mundo do esporte de alta performance, especialmente no trail running. Suas reflexões oferecem valiosas lições sobre como equilibrar competitividade com autoconsciência e a importância de um ecossistema de apoio, inspirando não apenas mulheres, mas todos os que buscam sua melhor versão nas trilhas.