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Samir Barel: os segredos da ultramaratona aquática

Primeiro brasileiro a conquistar a Tríplice Coroa das Águas Abertas detalha medos, frio e nutrição em provas extremas.

Samir Barel relembra sua trajetória desde a piscina até as maiores ultramaratonas aquáticas do planeta. O nadador discute a conquista da Tríplice Coroa, o enfrentamento do frio e da escuridão no mar, e como a mentalidade moldou sua carreira de atleta e treinador.

A natação em águas abertas coloca o ser humano em um ambiente onde o chão não existe, a respiração exige ritmo milimétrico e a mente precisa lidar constantemente com a incerteza. Para Samir Barel, um dos principais nomes da ultramaratona aquática do Brasil e o primeiro homem do país a conquistar a Tríplice Coroa das Águas Abertas, essa imensidão se transformou em profissão, estilo de vida e laboratório diário de superação.

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Das raias da piscina ao mar aberto

O contato de Samir com a água começou cedo, por iniciativa dos pais para garantir segurança nas viagens à praia. Inicialmente sem grande aptidão técnica, o nadador encontrou no treinador Marcelo Floriano a orientação fundamental para desenvolver disciplina, técnica e o gosto pelo esporte. Na infância e juventude em Campinas, acumulou títulos e recordes paulistas e brasileiros em provas de piscina, até encerrar a fase de atleta federado aos 17 anos para focar nos estudos de Educação Física.

A transição definitiva para o mar ocorreu anos depois, quase por acaso, em uma prova de 1.500 metros no Guarujá. Sem experiência prévia com kits, boias ou dinâmicas de maratona aquática, Samir terminou entre os primeiros e se encantou com a cultura acolhedora da modalidade, bem distante da rigidez das balizas de piscina.

Samir Barel: os segredos da ultramaratona aquática

A virada de chave na Travessia 14 Bis

O salto para as longas distâncias se consolidou em 2008, com o desafio dos 24 km da Travessia 14 Bis. Após um teste duro em uma prova de 10 km em Salvador, onde sentiu o desgaste físico e a intensidade das disputas em pelotão, Samir reformulou completamente sua percepção de nado. Ele abriu mão da obsessão por médias e tempos de piscina para buscar um ritmo sustentável e eficiente.

Com uma estratégia precisa de navegação pelo canal e pouquíssima ingestão alimentar ao longo de quase seis horas de prova, Samir venceu a edição de 2008 da 14 Bis. A conquista abriu as portas para distâncias ainda maiores e o inseriu definitivamente no circuito de ultramaratonas aquáticas.

Correntes, rios e o teste do frio extremo

Ao longo da carreira internacional, Samir encarou desafios com características geográficas extremas. Na clássica Hernandarias-Paraná, na Argentina, completou os 88 km descendo o Rio Paraná em menos de dez horas, beneficiado pela velocidade da correnteza a favor. Já em provas no Canadá, como os 32 km da Travessia do Lago Saint-Jean, a grande barreira foi a temperatura da água, que largava próxima a 13 graus sem o uso de trajes de neoprene.

Para suportar horas em águas geladas, Samir destaca que o trabalho de adaptação física e controle mental é decisivo. Gastar energia tentando aquecer o corpo na força bruta costuma acelerar o esgotamento, tornando o domínio psicológico e a leitura do ambiente indispensáveis para evitar a hipotermia.

A Tríplice Coroa e a convivência com o medo

Ao cruzar a Ilha de Manhattan (45 km), o Canal da Mancha (cerca de 34 km em linha reta) e o Canal de Catalina (cerca de 32 km), Samir completou a prestigiada Tríplice Coroa das Águas Abertas. Cada travessia impôs um teste singular: no Canal da Mancha, a baixa temperatura e a deriva lateral fizeram o percurso total chegar a 46 km; em Catalina, a largada noturna no Oceano Pacífico exigiu lidar diretamente com o medo da escuridão e da fauna marinha.

Durante a travessia de Catalina, nadando cercado por plânctons bioluminescentes e sustentado por uma campanha de financiamento coletivo, o atleta precisou controlar o pânico ao avistar animais de grande porte sob a água. Para Samir, o medo não desaparece com a experiência, mas passa a ser gerido com segurança, planejamento e respeito aos próprios limites.

Planejamento e a busca consciente pelo desconforto

Na transição para a atuação como treinador e palestrante, as vivências extremas se tornaram a base de sua metodologia de preparação. Samir defende que a ultramaratona só começa de verdade quando o desconforto se instala e a mente passa a pedir para parar.

O acompanhamento de atletas de ultra exige conhecimento aprofundado em protocolos de segurança, sinais de hipotermia e testes constantes de resposta motora durante as paradas de hidratação. Seja em travessias internacionais ou em desafios de longa duração na piscina em prol de causas sociais, a entrega ao processo e o comprometimento rigoroso seguem como pilares de sua filosofia dentro e fora d'água.

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