Dor, lesão e performance: mitos e verdades com André Ferraz
Fisioterapeuta e ultramaratonista detalha a diferença entre dor adaptativa e lesão real, desmistificando a biomecânica.
Em conversa no Stemma Performance com Bruna Mahn, o fisioterapeuta André Ferraz desmistifica o uso de remédios no esporte, a biomecânica da corrida e a volta aos treinos após lesões.
No universo dos esportes de endurance, sentir dor é uma experiência praticamente universal. Seja no triathlon, na maratona ou nas provas extremas de montanha, o desconforto muscular acompanha quem busca evolução. No entanto, a linha entre a dor esperada do treinamento e o sinal clínico de uma lesão ainda gera confusão frequente entre praticantes de todos os níveis. No Stemma Performance, a apresentadora Bruna Mahn recebeu o fisioterapeuta e ultramaratonista André Ferraz para debater os principais mitos em torno de dor, reabilitação e desempenho atlético.
Dor tardia versus lesão: como diferenciar os sinais
Segundo André Ferraz, a dor tardia pós-exercício é uma resposta fisiológica direta ao processo de adaptação tecidual diante de sobrecargas mecânicas. Trata-se de uma consequência natural do treino que sinaliza ao corpo a necessidade de recuperação e reconstrução. O problema surge quando o atleta não reconhece o ponto de transição entre o desconforto adaptativo e o quadro lesivo.
O critério essencial para identificar uma lesão é a presença de incapacidade funcional. Dores persistentes por vários dias consecutivos que impedem movimentos básicos — como elevar o braço ou apoiar o pé no chão —, acompanhadas de perda de força, calor ou rubor local, indicam um processo inflamatório ou dano estrutural. Nesses cenários, insistir na planilha sem intervenção profissional apenas agrava o quadro.
Os perigos de mascarar sintomas com medicamentos
Um dos hábitos mais nocivos apontados na conversa é a utilização rotineira de analgésicos e anti-inflamatórios para suportar treinos ou provas longas. Quando o atleta medica uma dor mecânica ou muscular, ele interfere diretamente na sinalização do sistema nervoso central e anula os benefícios adaptativos proporcionados pelo estímulo físico.
Além de comprometer o ganho de condicionamento, o uso de anti-inflamatórios durante esforços prolongados impõe um risco severo de sobrecarga renal. Em provas de muitas horas, onde o estresse fisiológico e a desidratação já afetam os rins, a administração repetida desses fármacos eleva drasticamente a chance de complicações clínicas graves, transformando a busca por superação em negligência com a saúde.
Fortalecimento eficiente e respeito à periodização
No trabalho de prevenção de lesões, Ferraz destaca que a musculação puramente tradicional em aparelhos traz pouca transferência funcional para corredores e triatletas. Máquinas como o leg press não protegem as articulações dos impactos da corrida; a única exceção de destaque é a cadeira extensora, por ser o exercício em cadeia cinética aberta capaz de isolar com precisão o quadríceps.
Para construir robustez muscular no endurance, o foco do treino de força deve priorizar pesos livres, sobrecarga real e exercícios unilaterais, como afundos e agachamentos. Paralelamente, o trabalho fisioterapêutico atua no controle motor e nas musculaturas acessórias. O fisioterapeuta lembra também que grande parte das lesões decorre do desrespeito aos ritmos prescritos na planilha, quando atletas realizam treinos leves ou regenerativos acima da intensidade planejada pelos treinadores.
O mito do padrão perfeito de corrida e a volta pós-lesão
Outro ponto amplamente discutido é a busca obsessiva por corrigir a biomecânica da passada. Ferraz ressalta que não existe comprovação científica que correlacione diretamente alterações posturais anatômicas — como o valgo dinâmico isolado — à ocorrência obrigatória de lesões. O corpo desenvolve padrões individuais ao longo de anos de prática, e a eficiência mecânica evolui de forma natural com o tempo de exposição e a repetição do gesto.
Por fim, a reabilitação de uma lesão envolve tanto a regeneração tecidual quanto o aspecto psicossomático da dor. Mesmo após a cicatrização biológica de ossos e tendões, o sistema nervoso central pode reter a memória traumática do movimento. A recuperação completa exige uma exposição gradual e progressiva à carga (envelope de função), reeducando o cérebro e devolvendo ao atleta a confiança necessária para voltar à alta performance com segurança.