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Bastidores da nutrição e logística na La Misión Brasil

Dra. Ana Claudia Pelissari e Dan Holz detalham a complexa operação do ULTRANUT nos postos da ultramaratona de montanha.

Planejar a alimentação de uma ultramaratona de montanha vai muito além de escolher frutas e géis. Especialistas da UFV revelam os desafios sanitários, logísticos e científicos por trás dos postos de abastecimento da La Misión Brasil.

Alimentar centenas de atletas que encaram dezenas de horas correndo por serras e trilhas técnicas exige uma engenharia invisível. No universo do trail running e das ultramaratonas de montanha, o suporte alimentar não se resume a distribuir frutas e isotônicos: envolve segurança sanitária rigorosa, logística em locais de difícil acesso, controle de temperatura e muita ciência aplicada. É exatamente esse trabalho de bastidores que a Dra. Ana Claudia Pelissari Kravchychyn e o nutricionista e mestrando Dan Holz de Arruda, ambos da Universidade Federal de Viçosa (UFV), lideram na La Misión Brasil por meio do projeto de extensão ULTRANUT.

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Gestão e controle sanitário no topo da montanha

A operação do ULTRANUT leva graduandos e pós-graduandos de Nutrição para gerenciar a rotina dos postos de controle e alimentação (PCAs) e a alimentação dos staffs da prova. A atuação começa na conformidade higiênico-sanitária: vestimentas adequadas com toucas e luvas, ausência de adornos, controle de circulação nas cozinhas de apoio e combate a hábitos de risco, como o compartilhamento de copos improvisados ou atletas colocando mãos sujas de terra diretamente em potes de comida.

Para garantir a segurança microbiológica ao longo de eventos que ultrapassam 30 horas de duração, a equipe adota procedimentos de unidades hospitalares e restaurantes profissionais. Isso inclui a coleta sistemática de contraprovas (amostras de alimentos quentes armazenadas para análise laboratorial em caso de relato de mal-estar) e o monitoramento contínuo da temperatura das refeições com termômetros culinários.

Bastidores da nutrição e logística na La Misión Brasil

Logística pesada e cardápios adaptados à altimetria

Montar o cardápio de uma prova como a La Misión exige alinhar a fisiologia do esforço às características de cada trecho do percurso. O cardápio é fechado com meses de antecedência — geralmente em novembro para a prova disputada em agosto — permitindo que treinadores e atletas estruturem seus planos de corrida e nutrição com previsibilidade total.

A logística varia conforme o clima e a altitude do posto. Em pontos críticos como a Toca do Lobo, o projeto utiliza hot boxes térmicas de padrão militar para transportar até 100 litros de caldo quente preparado na base da cidade, garantindo que o alimento chegue acima de 70 °C para reaquecer os competidores dos 110 km. Além disso, as opções consideram restrições alimentares universais: massas 100% sem glúten e guarnições como bacon servidas à parte para acolher atletas veganos e vegetarianos. Frutas cítricas, como a laranja, entram em pontos estratégicos para combater a fadiga de paladar e náuseas causadas pelo excesso de doces.

A tríade da performance e os erros mais comuns

Segundo os especialistas, o sucesso nutricional em provas de ultraendurance apoia-se em uma tríade inegociável: hidratação, reposição de eletrólitos (especialmente sódio) e aporte adequado de carboidratos. O maior erro observado na trilha ainda é a falta de teste prévio: atletas que decidem consumir alimentos ou energéticos desconhecidos direto no posto de apoio aumentam exponencialmente o risco de desconfortos gastrointestinais severos.

Outro ponto crítico envolve escolhas alimentares inadequadas por pura desinformação, como ingerir partes indigestas da melancia próximas à casca ou negligenciar a ingestão hídrica até quadros severos de desidratação. A recomendação fundamental é manter o plano de prova treinado, conhecer a própria tolerância gástrica e recorrer à comida de verdade — como queijos locais, doces em barra e caldos salgados — para equilibrar o paladar e preservar o trato digestivo.

Do laboratório para a trilha: a ciência do LAPSE

Paralelamente à extensão do ULTRANUT, o Laboratório de Estudos em Psicobiologia e Exercício (LAPSE-UFV) transforma a montanha em um laboratório a céu aberto. Pesquisadores coletam recordatórios alimentares detalhados e analisam marcadores de permeabilidade intestinal, inflamação e dano celular em atletas amadores e de elite.

Os dados preliminares mostram que, embora a literatura científica aponte vantagens em proporções combinadas de glicose e frutose e consumos elevados de carboidratos por hora, a maior parte dos corredores de montanha ainda apresenta baixo conhecimento nutricional formal e pouco acompanhamento profissional. O trabalho busca aproximar a ciência do praticante comum, fornecendo ferramentas práticas para que cada corredor desenvolva real autossuficiência e segurança nas trilhas.

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