Avaliação Cardíaca para Atletas de Endurance: Dr. Rodrigo Bodanese
Descubra a importância da avaliação médica para atletas de endurance e como evitar riscos em provas de longa distância.
Dr. Rodrigo Bodanese, cardiologista e atleta de Ironman, compartilha insights essenciais sobre a saúde cardíaca de corredores. Ele aborda a necessidade de avaliações médicas pré-participação e os perigos de competir gripado. Uma leitura obrigatória para quem busca performance segura.
Em uma conversa esclarecedora diretamente do estúdio Stemma, durante a cobertura da Maratona NB 42k Porto Alegre 2026, o renomado cardiologista e atleta Dr. Rodrigo Bodanese foi o convidado especial de Fabio Bessa e Thiago Kawamura. Coordenador do centro de fisiologia humana e metabolismo da PUC-RS e um triatleta experiente, com participações em Ironman, Kona e Boston, Dr. Bodanese compartilhou sua expertise sobre a saúde cardíaca dos atletas de endurance e os cuidados necessários para enfrentar provas de longa distância com segurança.
Avaliação Médica Pré-Participação: Um Passo Essencial para Corredores
A discussão centralizou na importância da avaliação médica pré-participação esportiva, especialmente para eventos que exigem grande esforço do corpo, como maratonas. Dr. Bodanese enfatizou que provas de maior duração, como uma maratona, apresentam riscos superiores a meias maratonas e corridas de 10 km, principalmente devido ao maior tempo de exposição ao esforço. No entanto, qualquer prova competitiva, independentemente da distância, exige uma avaliação preliminar.
O protocolo recomendado pela diretriz brasileira de cardiologia e entidades internacionais inclui um "tripé" fundamental:
- Anamnese completa: Investigação detalhada de sintomas relacionados ao exercício, histórico médico pregresso e, crucialmente, histórico familiar (mortes súbitas inexplicadas, infartos precoces). A genética desempenha um papel significativo no risco individual.
- Exame físico: Avaliação de possíveis alterações como sopros cardíacos ou diagnóstico de hipertensão, que podem influenciar o risco a longo prazo.
- Eletrocardiograma (ECG) de repouso: Um exame simples que, combinado com os outros, consegue identificar cerca de 65% a 70% das condições de risco mais comuns.
Para atletas acima dos 35 ou 40 anos, ou aqueles que se expõem a provas mais intensas, exames adicionais como o teste ergométrico (esteira) ou ergospirometria são valiosos. Eles permitem identificar arritmias ou sinais de isquemia cardíaca que podem surgir sob esforço, guiando a necessidade de investigações mais complexas. A periodicidade recomendada para essas avaliações é anual, garantindo um acompanhamento longitudinal da saúde do atleta.
Gripe e Competição: Quando o Esforço Vira Risco
Uma das dúvidas mais frequentes entre atletas é sobre competir ou treinar estando resfriado ou gripado. Dr. Bodanese explicou que não existe uma resposta única, mas há situações que são um claro "não". Se o atleta apresentar febre, um quadro inflamatório sistêmico intenso, tosse persistente ou cansaço extremo, a recomendação é não participar da prova.
O risco reside na possibilidade de desenvolver miocardite, uma inflamação do músculo cardíaco. Mesmo um quadro leve, muitas vezes causado por infecções virais (como uma gripe), pode deixar sequelas no coração, como áreas de fibrose. Essas áreas, por sua vez, podem ser gatilhos para arritmias sob esforço, aumentando significativamente o risco de morte súbita. Portanto, a decisão de competir doente deve ser tomada com extrema cautela, priorizando sempre a saúde a longo prazo.
A Busca pela Performance Segura: O Olhar do Atleta-Cardiologista
Como atleta experiente, Dr. Rodrigo Bodanese entende a paixão pela performance. Em seu consultório, ele combina a prevenção de riscos com a otimização do rendimento. Muitos atletas o procuram para validar suas zonas de treino ou para avaliações pré-competição, utilizando ferramentas como a ergospirometria e os testes de lactato para mapear o limite e a capacidade de cada um.
Compartilhando sua própria experiência, Bodanese revelou sua meta para a meia maratona da NB 42k Porto Alegre: buscar um recorde pessoal na distância, visando um tempo entre 1h16 e 1h17. Ele também mencionou ter enfrentado uma ruptura parcial da placa plantar antes da Maratona de Boston, onde, apesar da dor, conseguiu um recorde pessoal. A resiliência do triatleta, com a capacidade de compensar o repouso da corrida com natação e ciclismo, foi fundamental em sua recuperação.
Conclusão
A conversa com Dr. Rodrigo Bodanese sublinha uma mensagem crucial para todos os atletas de endurance: a busca por recordes e superação deve sempre andar de mãos dadas com a atenção à saúde. Realizar avaliações médicas periódicas e saber ouvir os sinais do próprio corpo são atitudes que não só garantem a segurança, mas também permitem uma jornada esportiva mais longa e plena.