Curated
Voltar S @stemma 3 min de leitura
sports

Autocobrança e corrida: por que a realidade traz alívio mental

Laura Aliberti explica como o conceito psicanalítico do ideal de eu impacta os treinos e a busca por longevidade no esporte.

No podcast Girls Who Run, a psicóloga Laura Aliberti analisa o peso da autocobrança no esporte. Ela explica como o conceito psicanalítico de ideal de eu molda nossas expectativas e por que encarar os limites reais do corpo traz alívio e longevidade.

No universo dos esportes de resistência, a busca por evolução constante costuma vir acompanhada de comparações. No entanto, o peso mais severo raramente vem de fora: a cobrança interna é a que mais machuca. Em conversa no podcast Girls Who Run, da Stemma Sports, a psicóloga, psicanalista e corredora Laura Aliberti abordou como o confronto com os próprios limites físicos e psíquicos desafia a imagem idealizada que construímos de nós mesmos.

Para Laura, comparar a fase atual com um momento anterior no qual estávamos em melhor forma dói profundamente porque conhecemos com exatidão onde o calo aperta. Embora a prática em grupo traga pertencimento e conexões sociais valiosas, o processo de evolução na corrida permanece estritamente individual.

PUBLICIDADE (GAM) — 1250x250

As raízes do ideal de eu e a onipotência infantil

Para explicar essa dinâmica de cobrança, a psicanalista recorre ao conceito freudiano de ideal de eu, originado no chamado narcisismo primário. Durante a infância, a idealização de figuras de referência — como pais e irmãos — e a sensação de onipotência (o clássico desejo de ser astronauta ou presidente) são etapas saudáveis e indispensáveis para a constituição psíquica de qualquer indivíduo.

O amadurecimento, contudo, exige o confronto dessa fantasia com o que é factível. Laura pontua que existe uma distância natural entre o que gostaríamos de ser e o que realmente somos. A conquista do sentimento de "eu sou", conceito caro à teoria winnicottiana, depende justamente da diferenciação em relação ao outro e da capacidade de aceitar frustrações e falhas na realidade.

Autocobrança e corrida: por que a realidade traz alívio mental

A realidade como alívio diante da fantasia

Embora o choque com os limites possa assustar em um primeiro momento, Laura destaca que a realidade funciona como um verdadeiro alívio. A imaginação e a fantasia frequentemente conduzem aos piores cenários e medos internos. Quando trazemos dados de realidade — seja ao nomear uma emoção ou ao reconhecer uma limitação física —, desarmamos esse terror psíquico.

No esporte, isso se traduz em reconhecer dores recorrentes e limitações anatômicas em vez de ignorá-las em nome de uma meta inalcançável. O processo de escuta e nomeação das próprias sensações evita que o praticante caia na armadilha da negação, permitindo uma relação mais honesta com o próprio corpo.

Apropriação do desejo e busca por longevidade

Em tempos de redes sociais, o desejo alheio costuma ditar rotinas e metas de prova. O desafio do atleta amador reside em se apropriar da sua própria jornada e questionar se determinada distância ou ritmo realmente faz sentido para a sua vida. A busca desenfreada por performance pura e descolada de sentido torna-se insustentável ao longo do tempo.

Construir longevidade na corrida exige escolhas sustentáveis: respeitar o repouso quando há dor, cumprir sessões de fisioterapia e saber desfrutar dos momentos fora da planilha. Ao aceitar as condições reais do presente, o atleta transforma a experiência com o esporte em algo duradouro, leve e autêntico.

PUBLICIDADE (GAM) — 1250x250