Ailton Zulu sem filtro: Do futebol de várzea ao Trail Running
Conheça a jornada de Ailton Zulu, que de goleiro na Vila Brasilândia se tornou referência no Trail Running e comunicador à frente do Na Montanha Podcast.
Ailton Zulu, treinador, atleta e comunicador, compartilha sua trajetória no esporte. Do futebol à maratona, e a paixão que o levou às trilhas, Zulu detalha a evolução do Trail Running no Brasil e os bastidores de seu podcast.
No episódio do Stemma Na Trilha, Sidney Togumi recebeu Ailton Zulu, figura multifacetada e uma das maiores referências no Trail Running brasileiro. Conhecido como atleta, treinador, fundador da AZ Running e idealizador do Na Montanha Podcast, Zulu abriu o jogo sobre sua trajetória, a evolução do esporte e os desafios de estar à frente de um projeto de comunicação no universo das trilhas.
Das ruas da Vila Brasilândia às primeiras maratonas
Zulu, nascido e criado na Zona Norte de São Paulo, na Vila Brasilândia, relembrou suas origens no esporte através do futebol. De não ser o melhor jogador, ele se tornou goleiro, uma forma de se incluir nos times. "Muitas vezes não é a questão do talento, é a questão da oportunidade, o quanto você se dedica aquilo", afirmou. Aos 18 anos, em 1996, Zulu fez sua primeira São Silvestre em 1 hora e 23 minutos. No ano seguinte, já encarava sua segunda prova, a Maratona de São Paulo, completando os 42 km em 4 horas e 4 minutos, tudo isso sem um treinamento formal.
A paixão pela corrida cresceu, mas foi a saturação com as provas de rua que o levou a buscar algo novo. "Chegou uma hora que eu tava saturado de estar no mesmo lugar", explicou. Mesmo com um VO2 de 65.9, que seu treinador da época, Luiz Bernabéu, considerava "muito interessante", Zulu não se dedicava inteiramente como atleta. O chamado da montanha veio através do grupo "Loucos por Montanha", onde começou a explorar trilhas e se apaixonou pelo ambiente. Competiu na Copa Paulista de Montanha e em eventos como o Ritmo Certo, que se tornaram suas primeiras experiências no trail.
A transição para a Educação Física e o nascimento da AZ Running
Ailton Zulu trabalhou por anos como colorista, desenvolvendo cores para grandes marcas. Contudo, a vontade de atuar no esporte era maior. Apesar das dificuldades e de ter sido pai recentemente, decidiu fazer Educação Física. Ele começou a estagiar e, após se formar, trilhou o caminho de profissional da área.
A AZ Running, sua assessoria, nasceu de forma orgânica. Inicialmente, ele treinava pessoas informalmente. "Por que você não tira a assessoria do papel e vem me treinar?", perguntou-lhe a atleta Mari Deguchi, que se tornou a "aluna oficial" e campeã paulista de montanha em 2014, marcando o início formal da AZ Running, já focada no trail. Zulu faz questão de direcionar atletas de rua para outras assessorias, mantendo o foco da AZ exclusivamente nas trilhas, um nicho onde se sente mais confortável e especialista.
O Trail Running no Brasil: de amador a "gourmetizado"
Para Zulu, o mercado do Trail Running no Brasil passou por uma profissionalização notável nos últimos anos. "A gente passa de um mercado amador por uma profissionalização", disse ele. Eventos que antes tinham 200, 300 pessoas, hoje atraem milhares, com um percentual crescente de estreantes. Ele citou exemplos como a La Mission e a Indomit, que observaram quase 70% de novos participantes.
Essa profissionalização, segundo Zulu, se manifesta na "gourmetização" do trail, com eventos que oferecem uma experiência completa, desde o cuidado médico e de resgate até trilhas bem marcadas e hidratação. Mesmo com ingressos mais caros, o valor agregado justifica o investimento. "Não é a questão do preço, mas do valor agregado", pontuou, destacando que a experiência pode tornar a prova inesquecível.
Olhando para o futuro, Zulu prevê um "teto" para o crescimento do trail devido às limitações das trilhas e da capacidade das cidades em comportar grandes eventos. No entanto, ele aposta na personalização e na educação dos atletas. Eventos com dois finais de semana, sorteios de vagas e serviços mais sofisticados, como resgate personalizado e "sherpas" para ultra trails, são algumas das tendências que ele enxerga para 2036. A tecnologia, com reconhecimento facial para fotos e vídeos, e dados fisiológicos em tempo real nos relógios, também moldarão o futuro do esporte.
Na Montanha Podcast: uma paixão com alto investimento
O Na Montanha Podcast nasceu da vontade de Zulu de compartilhar conhecimento. Durante a pandemia, ele já extraía áudios de lives para o Spotify. Em 2022, a ideia de criar um estúdio para gravar aulas online evoluiu para o podcast. Em janeiro de 2023, o primeiro episódio foi gravado.
Zulu não esconde os desafios financeiros. "90% [do investimento] é do meu bolso", revelou. No entanto, o projeto se tornou uma forma de retribuir ao esporte que lhe deu tudo. "Tudo o que eu tenho foi a corrida que me deu", afirmou. O podcast busca trazer informações de credibilidade e relevância para todos, especialmente para aqueles que não têm acesso a treinadores ou nutricionistas. O sucesso do Na Montanha inspirou outros podcasts, consolidando a força da corrida de montanha no cenário digital.
O Trail pelos olhos do comunicador
A experiência como comunicador transformou a visão de Zulu sobre o trail. "Trouxe para mim um olhar mais humano", disse ele. Deixando um pouco de lado o rigor do treinador, Zulu passou a valorizar as histórias e motivações por trás de cada atleta. "A La Mission é a missão da vida de muitas pessoas", exemplificou, destacando o significado profundo das provas. Ele vê o ultra trail não apenas como uma fuga, mas como um momento de conexão e autoconhecontro, reforçando a ideia de que "se você não gosta de você, não vá para uma ultra, que você vai ficar muito tempo sozinho contigo."
A corrida que quase foi vencida
Para encerrar a conversa, Zulu compartilhou uma história inédita de uma prova no Paraguai, a Ultra Trail Guarani. Estudioso das provas, ele percebeu uma oportunidade de ultrapassar o pelotão da frente nas descidas, seu ponto forte. Em uma descida técnica, passou vários atletas e se viu em segundo lugar, atrás de um argentino.
Chegando a um charco, o argentino procurava o melhor lugar para pisar, enquanto Zulu, com a mentalidade de passar sem deixar dúvidas, avançou pelo meio do lamaçal. "Eu passo como se não houvesse amanhã", contou. Contudo, a mente de Zulu, já sonhando com a vitória, o traiu. Com poucas marcações e seguindo uma orientação equivocada de "sempre esquerda", ele errou o caminho a menos de 2 km da chegada, entrando em uma rota de uma distância menor.
Ao perceber o erro, voltou e acabou em quinto lugar geral, enquanto o argentino que ele havia passado, venceu. No ano seguinte, o argentino o cumprimentou ironicamente: "Cuidado para não errar o caminho esse ano". Zulu, que não estava em sua melhor forma, usou o "trash talk" como motivação. Ele não venceu a prova, mas superou o argentino novamente, terminando em quarto geral e vencendo sua categoria. Uma lição de que, na corrida e na vida, a mente é tão crucial quanto as pernas.