IA exige repertório cultural e fundamentos, diz Daniel Rosa
Para o cofundador da Sales Rush, tentar criar com inteligência artificial sem bagagem prévia gera peças artificiais.
Em debate no Marketing - The Podcast, Daniel Rosa analisa o impacto da inteligência artificial na economia criativa. O tema central aborda a importância do repertório cultural, dos estudos clássicos e do domínio dos fundamentos antes do uso de ferramentas digitais.
Daniel Rosa, sócio-fundador da Sales Rush, analisou, em conversa com Bruno Gimenes no Marketing - The Podcast, a relação entre a inteligência artificial e a necessidade de repertório cultural na criação publicitária e de conteúdo. O debate partiu da observação sobre como as audiências reagem a conteúdos gerados ou sinalizados como produzidos por ferramentas automatizadas nas redes sociais.
No vídeo acima, Rosa explica que a inteligência artificial é um recurso técnico valioso, mas que se torna ineficaz quando utilizada para substituir o processo de formação de repertório e estudo dos fundamentos conceituais.
A ilusão do atalho sem fundamentos
Ao comparar a evolução profissional com as graduações no jiu-jitsu, Rosa avalia que muitos profissionais tentam queimar etapas na busca por resultados imediatos via prompts de comandos. Para ele, tentar mimetizar estilos autorais consagrados sem vivência correspondente gera resultados vazios.
"As pessoas tão querendo sair da branca para preta, no conceito do seu Marcelo Serpa, ah, eu vou hackear aqui. Ele vai lá, Marcelo Serpa, um dos grandes redatores aí da história da publicidade brasileira, ganhou vários prêmios, Havaianas, Volkswagen, inúmeras campanhas premiadas em Cannes, o cara vai lá na IA, fala, eu quero o mesmo tom de voz do Marcelo Serpa, tal, só que, pô, o cara nunca surfou, o cara nunca fez um peixe, o cara nunca, não tem a cultura do Marcelo. E isso não vai ficar falso?", pontua Rosa.
Rosa destaca que a ausência de referências históricas e artísticas compromete a qualidade da entrega: "Tem gente que não sabe e nem nunca estudou Bauhaus, não sabe nada, então a criação não vai, vai ficar tudo muito artificial. Esse é o risco".
O processo criativo antes do comando
A orientação de Rosa para equipes de marketing e criação é priorizar a pesquisa analógica e o estudo conceitual antes de solicitar variações a modelos generativos. Bruno observa que o consultor Renato Ábido também ressaltou no programa a relevância do estudo da Bauhaus e o princípio de que entradas superficiais produzem saídas igualmente fracas (garbage in, garbage out).
"Só voltar aos fundamentos, estudar, e aí sim usar a ferramenta. É claro, no dia a dia, você vai usar, porque foi uma coisa mais rápida, mas quando eu tenho um projeto maior, pega base, vai no livro, estuda, traz os conceitos, escreve na mão os resumos, e aí depois você leva para a IA para ela trazer um pouco do ponto de vista dela, e aí você mexe outra vez", explica Rosa.
Conexão cultural e o exemplo do Manguebeat
Para ilustrar a relação entre técnica e identidade, Rosa cita o impacto cultural do Manguebeat e o legado de Chico Science, que uniu elementos tradicionais da música brasileira à tecnologia eletrônica para estruturar um movimento próprio.
"Ele começou a trazer para uma coisa totalmente cultural, a conexão da IA, a conexão da ferramenta, o computador para cultura, e virou um movimento. O que a pessoa tá, tá confusa hoje, é pedir para o computador criar o movimento, precisa saber o que você quer fazer, né, primeiro", afirma Rosa.
Rosa conclui que a tecnologia deve atuar como instrumento a serviço da intenção humana, alertando que a dependência de comandos sem estofo intelectual enfraquece a diferenciação no mercado criativo.