Sérgio Santos revela o caminho do alto rendimento no triatlo brasileiro
Consultor da CBTri e treinador internacional explica desafios, estratégias e a importância da mentalidade vencedora.
Em entrevista para o Stemma Performance, Sérgio Santos, consultor internacional da Confederação Brasileira de Triatlo, compartilha sua vasta experiência. Ele detalha a formação de atletas de elite, os desafios dos triatletas brasileiros e as estratégias para alcançar o alto rendimento no esporte.
Recebido por Bruna Mahn no Stemma Performance, Sérgio Santos, consultor internacional da Confederação Brasileira de Triatlo (CBTri), compartilhou sua vasta experiência e visão sobre a formação de atletas de alto rendimento. Com mais de 30 anos dedicados ao desenvolvimento esportivo, incluindo atletas olímpicos, Santos oferece um panorama prático e profundo sobre a construção de uma carreira no triatlo de elite.
Uma jornada de 16 anos na CBTri: do terreno à estratégia
A trajetória de Sérgio Santos na CBTri abrange 16 anos, com diferentes fases de atuação. Inicialmente focado no treinamento direto para o ciclo olímpico do Rio 2016 — entre 2011 e 2016 —, ele posteriormente migrou para a coordenação técnica. Seu objetivo atual é transmitir sua experiência a treinadores e atletas, trabalhando no planejamento de médio e longo prazo, com foco olímpico. "Se eu conseguir ajudar outros treinadores a criar algum atalho para chegar lá sem passar por determinadas curvas que eu tive que passar, então eu acredito que estou a fazer bem as coisas", afirma Santos, destacando a importância de evitar erros do passado.
Rio 2016: Portugal como base para a excelência
Um dos marcos da sua atuação foi o projeto para os Jogos Olímpicos do Rio 2016, que levou atletas brasileiros para treinar em Rio Maior, Portugal. A decisão visava compensar a falta de condições ideais de treino no Brasil e a proximidade com os circuitos competitivos europeus, considerados de maior densidade e qualidade. Santos explica que, embora os atletas daquele período não tivessem alcançado os resultados olímpicos esperados, eles abriram caminho para a geração atual, que hoje compete em alto nível e com reais perspectivas de pódio. "Alguns atletas brasileiros querem muito participar nos jogos, tinham condição e participaram nos jogos, mas eu acredito que alguns, pelo menos, sem real perspectiva de chegar aos jogos para discutir os lugares da frente. Acredito que essa realidade mudou no circuito mundial", observa o consultor.
Os desafios do atleta brasileiro: além do talento
Santos identifica a principal dificuldade dos atletas brasileiros: a menor competitividade dos circuitos nas Américas em comparação com a Europa. Isso não só limita as oportunidades de competição, mas também resulta em menor densidade competitiva. O "buraco é mais embaixo" no Mundial, onde o nível é superior. Ele ressalta que, enquanto o talento e a dedicação dos brasileiros são inquestionáveis — "mais trabalhadores do que a maioria do que os atletas que eu conheci na realidade europeia" —, a falta de oportunidades competitivas desde cedo impacta o repertório técnico.
Atletas europeus, por exemplo, competem desde jovens em diversas condições climáticas e de terreno, desenvolvendo uma capacidade de adaptação crucial. No Brasil, a menor exposição a variações (frio, chuva, percursos técnicos) faz com que "se é uma competição que tem condição particularmente favorável, as coisas saem melhor. Se é uma competição que tem condição particularmente desfavorável, as coisas saem pior". Treinar na Europa, portanto, não apenas os aproxima de um circuito mais competitivo, mas os expõe a um leque maior de cenários, preparando-os para qualquer eventualidade. Santos relembra, com bom humor, que no início do projeto em Portugal, os atletas "passaram um frio desgraçado" por não estarem acostumados e não terem o equipamento adequado, ressaltando como a preparação para o clima é parte integrante do alto rendimento.
A estratégia por trás da World Cup do Rio
A organização da World Cup no Rio de Janeiro foi uma peça estratégica da CBTri. Com 21 atletas brasileiros inscritos (11 homens e 10 mulheres), o evento visa promover a modalidade e oferecer oportunidades competitivas de baixo custo aos melhores do país. A escolha da distância sprint (em vez da standard) também foi estratégica, permitindo a participação de atletas mais jovens e minimizando o desgaste em um calendário já intenso. Segundo Santos, "permite-nos criar mais oportunidades a mais gente".
A ausência de Miguel Hidalgo, por exemplo, não é um descuido, mas parte de um planejamento focado no descanso e na preparação para o Campeonato Mundial em Pontevedra. "Foi montado logo no início do planejamento do Miguel", explica Santos, destacando que cada movimento do atleta de elite é pensado dentro de uma estratégia maior.
World Cup vs. WTCS: diferentes perfis de vitória
Santos também elucidou a diferença entre as dinâmicas de uma World Cup e as WTCS (World Triathlon Championship Series). Ele exemplifica com a performance de Miguel Hidalgo em Londres, onde um grupo de 11 atletas se isolou na natação e ciclismo, trabalhando em conjunto para evitar ser alcançado. Em World Cups, a menor densidade de atletas de elite pode resultar em estratégias diferentes. "Muitas vezes os atletas com perfil para serem os melhores em WTCS podem não ser necessariamente os melhores para poderem ganhar o World Cup", aponta.
Ele recorda competições em Copacabana onde grupos de atletas com boa corrida, mas não necessariamente os melhores nadadores ou ciclistas, acabaram se destacando porque o pelotão principal não trabalhou junto. Em 2003 e 2004, atletas conseguiram abrir até dois minutos e não foram alcançados. Outras vezes, corredores fortes, como Marquinhos na época, se aproveitaram do ritmo mais lento no ciclismo para garantir um pódio. Essa imprevisibilidade, especialmente com a presença de atletas olímpicos como Jennifer, Vitória e Manoel, e jovens promessas como Mariana Vargem, torna as World Cups emocionantes e estratégicas.
A "audácia": o fator mental no alto rendimento
Para Sérgio Santos, além do preparo físico e técnico, há um elemento crucial que muitas vezes falta aos atletas brasileiros: a audácia. "O atleta brasileiro por vezes tem mais falta de audácia do que de qualidade. E audácia acaba por ser um processo mental, não é um processo físico", enfatiza. Ele reforça a importância de ter coragem, tentar e não se contentar em seguir o ritmo dos outros, especialmente em competições em casa. "Não vamos estar aqui a toque de ritmo de estrangeiros, porque aqui é a nossa casa. E então, vai ter que ser os estrangeiros vão ter que andar aqui a toque de brasileiro", conclui, inspirando uma mentalidade mais proativa e vencedora.
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