O mercado das fotos de corrida e os bastidores da Fotop
André Chaco detalha a operação que processa 600 fotos por segundo, a disputa de vagas e o plano de chegar às Majors.
Fundador e CEO da Fotop, André Chaco revela como a plataforma transformou a fotografia esportiva em um ecossistema global. Do pioneirismo na internet brasileira aos bastidores de grandes provas como a Maratona do Rio e o Rally Dakar, entenda os desafios tecnológicos e de negócios por trás do registro de cada atleta.
Quem corre provas de rua ou pedala eventos de endurance já se acostumou com a rotina pós-prova: abrir a plataforma, fazer o upload de uma selfie e encontrar dezenas de registros em alta definição. Por trás dessa experiência aparentemente simples, existe uma engrenagem gigantesca de tecnologia, logística e modelo de negócios. Fundador e CEO da Fotop, André Chaco detalhou no Stemma Podcast como funciona essa operação que lida com dezenas de milhões de imagens por mês e redefiniu a economia da fotografia esportiva no Brasil e no exterior.
A corrida de rua oferece um cenário único para a fotografia comercial. Em nenhuma outra atividade você tem milhares de participantes passando por um percurso previsível e delimitado em um curto intervalo de tempo. Esse fluxo permitiu erguer uma operação que, nos picos de domingo pela manhã, chega a processar mais de 600 fotos por segundo em seus servidores para abastecer corredores logo após cruzarem a linha de chegada.
A escala global e a disputa acirrada por vagas
Hoje, a atuação da Fotop vai muito além das provas nacionais. A empresa atua regularmente em 10 países e opera como marketplace em cinco deles, cobrindo eventos como o Rally Dakar — onde é a agência oficial de fotografia há quase uma década —, provas da série L'Étape, Transpyr, Haute Route e a Maratona do Porto. A plataforma também expandiu seu modelo para grandes festivais de música e entretenimento, como o Rock in Rio, Lollapalooza e os Carnavais de São Paulo e Rio de Janeiro.
No Brasil, o volume e a atratividade financeira criaram uma dinâmica quase sem paralelo no mundo. Não é raro um fotógrafo faturar em finais de semana o equivalente a um mês inteiro de trabalho convencional. Essa alta rentabilidade gerou uma corrida por credenciamento: em eventos de grande porte, centenas de vagas abertas para profissionais chegam a se esgotar em menos de um segundo nos sistemas da plataforma, exigindo filtros rígidos e mecanismos contra robôs de inscrição.
Curadoria por inteligência artificial e valorização do atleta
Para melhorar a navegação do corredor, a Fotop desenvolveu filtros automatizados que eliminam o ruído. Em edições recentes da Maratona do Rio e da SP City Marathon, cerca de um terço das fotos captadas foram suprimidas das galerias finais por retratarem o participante apenas em segundo ou terceiro plano, desfocado ou cortado. O algoritmo prioriza enquadramentos limpos, facilitando a escolha e reduzindo a poluição visual nos pacotes completos.
A distribuição física dos fotógrafos ao longo do percurso também foi reformulada. Em grandes maratonas, a empresa adotou um modelo híbrido com pagamento fixo somado a comissão. Essa estrutura garante profissionais posicionados estrategicamente logo nos primeiros quilômetros do trajeto — pontos que antes eram evitados pela concentração excessiva de atletas em pelotão, mas que enriquecem o registro cronológico de quem corre.
Exclusividade comercial e respeito ao organizador
Outro ponto central debatido por André Chaco foi a consolidação jurídica do conceito de arena e exclusividade comercial nos eventos esportivos. A exploração fotográfica dentro do perímetro de uma prova organizada exige investimento em segurança, autorizações públicas e infraestrutura que cabem ao organizador. O avanço do entendimento legal inibiu a ação de plataformas não autorizadas, protegendo a sustentabilidade dos contratos oficiais e a remuneração justa dos profissionais credenciados.
Chaco relembrou momentos em que a empresa optou por respeitar as restrições de eventos onde não detinha contrato oficial, como no início de sua relação com o Ironman Brasil. A postura de longo prazo construiu a credibilidade institucional que mais tarde viabilizou contratos exclusivos com organizadores dentro e fora do país.
Das origens na internet discada às World Marathon Majors
O ecossistema que deu origem à Fotop começou ainda nos anos 1990, com a fundação do portal de aventura Webventure em 1997 e, posteriormente, do Webrun em 2002. Ao perceber a carência de soluções para a comercialização de fotos e inscrições, a operação desmembrou-se em frentes autônomas, originando também a Ticket Sports (antiga Ticket Agora). Durante a pandemia de 2020, com a paralisação de 98% da receita de eventos esportivos, a empresa se reinventou temporariamente operando tours virtuais para o setor imobiliário até o reaquecimento do mercado de rua.
Com presença consolidada nas maiores maratonas da América Latina e em desafios clássicos de ciclismo e automobilismo pelo mundo, a meta da Fotop para os próximos anos é estender seu padrão tecnológico às World Marathon Majors, inserindo a plataforma nas mais prestigiadas linhas de chegada do planeta.