Jamal Soufane: Da potência marroquina à paixão brasileira na corrida
Jamal Soufane, o "marroquino mais brasileiro", conta sua jornada da infância no Marrocos à paixão pelas maratonas no Brasil.
Em um papo franco com Fabio Bessa e Thiago Calamura, Jamal Soufane detalha sua trajetória de vida, desde a humilde origem no interior do Marrocos até se tornar um dos maratonistas amadores mais admirados no Brasil. Ele compartilha como a corrida o transformou e o desafio das Majors.
No ambiente vibrante da NB 42K em Porto Alegre, os hosts Fabio Bessa e Thiago Calamura receberam uma figura cativante para um episódio especial do Stemma Podcast: Jamal Soufane. Conhecido carinhosamente como o “marroquino mais brasileiro”, Jamal trouxe para a conversa sua energia contagiante e uma história de vida que entrelaça destino, esforço e, claro, muita corrida.
Com a Copa do Mundo em andamento no momento da gravação e a seleção marroquina em destaque, Jamal não escondeu o orgulho por suas raízes, explicando que o sucesso do futebol reflete um crescimento de mentalidade em todos os setores do Marrocos e da África. Apesar da forte torcida por sua pátria natal, ele expressou um sentimento de pertencimento ao Brasil, onde construiu sua vida, família e teve suas filhas. Sua torcida dividida durante um amistoso Brasil x Marrocos, que terminou em empate, foi o "resultado perfeito" para ele.
Do Marrocos ao Brasil: Um Destino Inesperado
A pergunta que Jamal mais ouve – "Como você veio parar no Brasil?" – é o ponto de partida de sua incrível jornada. Em 2013, enquanto gerenciava um projeto de ensino cultural no Marrocos, o Tolerance School, ele conheceu uma brasileira. Ela o convidou para dar uma palestra sobre a cultura marroquina na América Latina na Universidade Federal do Ceará (UFC), em Fortaleza. Para ele, era uma oportunidade de enriquecer seu currículo e expandir horizontes, já que poucos marroquinos, especialmente intelectuais, visitavam a América Latina.
A viagem se transformou em um profundo "choque cultural". Acostumado a uma vida intelectual e árdua no interior do Marrocos, onde cresceu sem acesso a muitas comodidades, a Praia de Iracema e o estilo de vida vibrante de Fortaleza o cativaram. "Eu olhei aquela cena lá, eu disse, putz, cara, isso aí eu quero viver aqui. Não vou sair daqui", recorda. Após um mês de imersão na cultura cearense, ele voltou para o Marrocos, mas o Brasil já não saía de seus pensamentos. A Copa do Mundo de 2014, com as imagens de Fortaleza sendo transmitidas para o mundo, apenas reforçou seu desejo de se mudar.
A Transformação Pessoal em Fortaleza
Determinado a recomeçar, Jamal vendeu sua parte na escola e, apesar das dificuldades burocráticas, conseguiu uma bolsa de estudos na UFC. A mudança de país trouxe uma transformação radical em sua vida. De um jovem focado em estudos e trabalho, mergulhou de cabeça no estilo de vida brasileiro. "Minha vida era 100% intelectual, acadêmico. Cheguei no Brasil, estudava de segunda a quinta. Quinta à noite já tem primeiro happy hour, que começa às 4h e termina 2h da manhã", conta ele.
Em dois anos, Jamal engordou, chegando a pesar 100 kg. Ele se viu perdendo o foco nos estudos, nas leituras e nos projetos, e notou uma mudança em seu temperamento, tornando-se menos paciente. Várias tentativas de ir embora do Brasil foram frustradas pelo destino, até que em 2019, durante seu aniversário de 29 anos, um amigo e aluno de inglês, o nutricionista Danilo Coimbra, interveio. Danilo o alertou sobre a direção de sua vida e ofereceu ajuda.
O Retorno às Pistas: Da Quebra em Curitiba ao Sub 3
Ao ser questionado sobre qual esporte gostava, Jamal relembrou sua paixão pela corrida de cross-country na infância, onde era bastante talentoso. Com a ajuda de Danilo, ele iniciou uma mudança gradual: foco na alimentação caseira, eliminação de industrializados, redução de açúcar e consumo de álcool restrito aos sábados. Essa abordagem leve e sem grandes restrições foi crucial para seu sucesso inicial.
Sem orientação, ele corria como queria, misturando distâncias e intensidades, até que um dia, após uma tentativa "suicida" de um longo de 21 km que o deixou completamente exausto e assado, percebeu a necessidade de acompanhamento profissional. Ele encontrou a assessoria Stark na Beira Mar de Fortaleza. Sua performance inicial surpreendeu a professora, que notou seu ritmo rápido mesmo com um corpo mais pesado. Inspirado pelo sonho de ser diplomata e viajar o mundo, Jamal descobriu as Majors, e a ideia de correr todas reacendeu seu antigo desejo.
Sua primeira maratona foi em Curitiba. Sem a devida preparação e subestimando a importância da hidratação e da estratégia, ele sofreu intensamente, quase não conseguindo terminar. "Foi infernal. Perdi uma posição [no amador]. Fui sofrendo", relembra. Ele completou a prova em 3h01min40s, jurando nunca mais correr uma maratona. No entanto, o resultado foi comemorado em Fortaleza, o que o motivou a tentar novamente. Pouco tempo depois, em uma maratona no Marrocos, já mais preparado e com a lição aprendida, ele alcançou seu primeiro sub 3, com 2h53min. Foi então que a maratona se tornou uma paixão. Uma lesão após sua primeira maratona de 2h30min em Barcelona o fez aprofundar os estudos sobre endurance, buscando correr mais e melhor, mas com menos desgaste.
A Tradição Marroquina na Corrida e o Desafio Moroni
Jamal destaca a forte tradição marroquina na corrida, muitas vezes ofuscada pela atenção dada a atletas quenianos e etíopes. Segundo ele, há muitos maratonistas de alto nível em seu país natal, mas que optam por competir em provas onde têm chance de pódio, como na Ásia, em vez de enfrentar as grandes Majors sem perspectiva de vitória. Essa perspectiva competitiva moldou seu próprio espírito.
A rivalidade amigável com Moroni, outro atleta conhecido no meio da corrida, começou de forma inesperada na Maratona do Rio. Moroni, buscando ser campeão amador em sua cidade, convenceu Jamal a correr em um ritmo que não era o seu, usando uma estratégia de "fartlek dentro da prova". "Ele começou a fazer 3:13 e 3:13. Aí eu: 'Cara, tá pesado'. Ele: 'Não, vou voltar'. Aí voltava a fazer 3:25, aí do nada meteu 3:11 no meio", descreve Jamal, que "caiu na pilha dele" e sofreu a partir do km 20. Apesar da "maldade" inicial, a amizade se consolidou. O desafio se estendeu para as Majors, como Nova York e Tóquio, onde, mesmo com os percalços, eles se ajudaram mutuamente. Jamal valoriza a parceria, mesmo com a competitividade de Moroni, que ele descreve como "muito forte" e "resiliente", uma fonte de aprendizado e inspiração.
Filosofia de Treino: Equilíbrio e Adaptação
Para Jamal, o treinamento é "muito individual". Em Fortaleza, onde as temperaturas são elevadas, ele precisa acordar às 3h ou 4h da manhã para treinar abaixo dos 28 graus. Ele enfatiza que "não há uma maratona na alta performance sem ter o certo volume", mas ressalta a importância do balanço entre volume, intensidade, sono e alimentação. Em Fortaleza, é inviável replicar treinamentos intensos com múltiplas sessões diárias devido à dificuldade de recuperação. Ele atribui seu RP em Tóquio a um treinamento sem tiros ou VO2 máximo, focado em limiar e blocos de longos, sempre considerando a diferença de performance entre o calor de Fortaleza e as temperaturas mais amenas das provas.
Um Momento Decisivo: A Segunda Chance na Infância
Ao ser questionado sobre um momento Z2 – um instante em que tudo parecia dar errado, mas uma energia inesperada o salvou –, Jamal compartilhou uma história comovente. Vindo de uma família humilde e analfabeta no interior do Marrocos, ele foi o único dos irmãos a ter a chance de estudar na cidade. Contudo, no nono ano, foi reprovado. A regra de seu pai era clara: se reprovasse, teria que voltar para as montanhas e trabalhar na plantação, pois não haveria como custear outro ano. Foi um professor de arte, que acreditava em seu potencial, que se deslocou até a casa de sua família no interior e passou três dias convencendo seu pai a lhe dar mais uma chance.
Essa oportunidade foi um divisor de águas. "Eu fiz de tudo para não falhar mais", revela. Jamal passou de um aluno reprovado a um dos melhores da escola, destacando-se nacionalmente em algumas matérias. Esse episódio o marcou profundamente, lembrando-o do poder de uma segunda chance e da importância da persistência.
Apoio e Parcerias
O Stemma Sports e seus convidados contam com o apoio de grandes marcas. A Kingston oferece soluções de armazenamento, com 10% de desconto usando o cupom STEMMA10 no site da Terabyte Shop. Para a suplementação, a Z2 Performance oferece produtos como o gel neutro Load Up, o carbo líquido Power Powder e o Recovery Mix pós-treino, com 10% de desconto usando o cupom STEMMAZ2. A Ticket Sports é a parceira para inscrições em eventos, e o programa Radar Stemma estará ao vivo no TC Summit, em 2 de setembro, em São Paulo. Além disso, a proteção visual é garantida pela Oakley, que oferece modelos ideais para atletas, protegendo contra os raios solares e prevenindo problemas como a catarata precoce.
Considerações Finais
Jamal Soufane convidou a todos para acompanhar suas aventuras nas redes sociais, em @jamalsoufani no Instagram e em seu canal no YouTube. A conversa com Fabio Bessa e Thiago Calamura foi um testemunho inspirador de como o esporte, aliado à resiliência e ao destino, pode transformar vidas e construir pontes entre culturas.
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