Corrida não tem corpo padrão: a jornada de Fernanda Pereira
Da superação da ansiedade aos 21 km no Rio, criadora do Corrandelas mostra que todo corpo pertence ao asfalto.
Fernanda Pereira conversa sobre representatividade, saúde mental e a conquista da meia maratona usando o método de correr e caminhar. A influenciadora discute como acolher mulheres fora do padrão na corrida e transformar o esporte em comunidade.
A ideia de que a corrida de rua pertence apenas a corpos magros e ritmos acelerados ainda afasta muita gente do esporte. Para quebrar esse estereótipo com bom humor e acolhimento, Fernanda Pereira transformou a própria trajetória em inspiração. Em conversa no podcast Girls Who Run, apresentado por Mariana Real e Marcella Fanti, a influenciadora carioca de 40 anos detalhou como saiu do sedentarismo para os 21 km da Meia Maratona do Rio, provando que o asfalto é democrático.
O esporte como remédio para a saúde mental
Até 2022, Fernanda era completamente sedentária e acreditava que a prática esportiva era reservada apenas para quem tinha talento nato. O ponto de virada veio após fortes crises de ansiedade, quando uma recomendação médica a levou para a musculação. A evolução na academia despertou a curiosidade sobre as capacidades do próprio corpo, abrindo portas para experimentar balé, natação no mar e beach tennis, até encarar a corrida no final de 2023.
O começo no asfalto não foi fácil: os primeiros 300 metros pareciam um desafio intransponível. Ao registrar seus avanços reais nas redes sociais — celebrando o primeiro quilômetro e meio e mostrando treinos frustrados sem filtros —, ela rapidamente conectou-se com uma comunidade que não se enxergava nos padrões estéticos e de performance da internet.
A conquista dos 21 km e o método 'corrandar'
Para cruzar a linha de chegada da Meia Maratona do Rio de Janeiro, Fernanda estruturou uma preparação multidisciplinar com treinador, nutricionista, fisioterapeuta, médico do esporte e a psicóloga esportiva Vanessa Protásio. O trabalho mental foi fundamental para neutralizar a insegurança e o medo de não completar a distância dentro do tempo de corte.
Na prova, a estratégia adotada foi a alternância consciente: correr 4 km e caminhar por 3 minutos — dinâmica que ela batizou carinhosamente de 'corrandar'. Concluindo o percurso em um pace médio de 10:40 dentro do tempo regulamentar da largada antecipada, Fernanda destaca que a medalha tem o mesmo valor de quem correu sem caminhar, reforçando que a vivência e a diversão na prova superam cobranças externas.
Representatividade, preconceito e ocupação de espaços
Formada em marketing aos 39 anos e vivendo integralmente da criação de conteúdo esportivo, Fernanda lida com frequência com o preconceito velado nas redes e em eventos. Ela aponta que corpos gordos no esporte costumam ser limitados ao nicho de emagrecimento ou alvos de críticas descabidas sobre ritmo e saúde, enquanto atletas magros raramente têm seus motivos questionados.
Ao mesmo tempo em que enfrenta essas barreiras, ela utiliza sua visibilidade para abrir caminhos. A resposta mais marcante a esse trabalho foi o nascimento do Corrandelas (ou Correndo Elas), encontro criado no Rio de Janeiro que reúne pelotões de corrida, caminhada e a mistura dos dois, sem cobrança de ritmo e com espaço aberto para mães levarem seus filhos.
Próximos passos e o objetivo de puxar outras mulheres
Com a meia maratona no currículo, o próximo plano de Fernanda não é aumentar a distância, mas retornar à base dos 5 km para atuar como pacer na Maratona do Rio. O objetivo é retribuir o apoio que recebeu ao longo do ciclo e ajudar outras pessoas a conquistarem suas primeiras metas no esporte com segurança, leveza e sem medo de ocupar a rua.