Alana Sicoli: da superação nas Majors ao desafio do Ironman
Criadora do Eu Escolhi Correr relembra trajetória nas maratonas, bastidores com Nelson Evêncio e transição ao triathlon.
Em conversa descontraída, Alana Sicoli compartilha sua evolução na corrida de rua desde o pós-parto até a conquista das Six Majors. A atleta amadora e especialista em dor fala sobre treinos, resiliência e o plano de estrear no Ironman.
A relação de Alana Sicoli com o esporte começou ainda na infância, estimulada por uma rotina familiar ativa em que praticar atividades físicas era quase uma regra da casa. No entanto, foi na vida adulta que a corrida assumiu um papel transformador definitivo. Após o nascimento de sua filha, Sofia, Alana enfrentou um quadro severo de depressão pós-parto e anorexia. A virada começou quando sua irmã gêmea, Paula, completou a primeira maratona e a incentivou a calçar os tênis para correr uma prova de 10 km.
A partir daquele primeiro passo, o esporte se tornou a principal âncora para reestruturar a rotina, o sono e a alimentação. O ganho de condicionamento veio rápido, mas sem atalhos: logo após estrear nos 10 km, encarou a Meia Maratona Internacional de São Paulo, concluída em 2h34. A experiência serviu para mostrar a dureza das distâncias longas e despertar a vontade de ir além, marcando o início de uma nova fase pessoal e esportiva.
O nascimento do Eu Escolhi Correr e o início nas Majors
Quando se mudou para Nova York para cursar medicina tradicional chinesa, Alana decidiu se desafiar na Maratona de Chicago. Na mesma época, incentivada por amigos, criou o perfil Eu Escolhi Correr para documentar treinos, rotina de mãe amamentando e bastidores do processo. O projeto nasceu há uma década e se consolidou como uma comunidade de forte engajamento feminino.
A estreia em Chicago foi concluída em 4h30, deixando lições sobre a importância de alinhar expectativas e treinar com método. Logo depois veio Berlim, corrida sob extrema dor por conta de um dedo do pé quebrado na véspera da viagem, o que quase a fez desistir das maratonas. O plano de completar o circuito das Six Majors parecia distante, até que um convite para correr a Maratona de Boston em 2019 colocou tudo à prova.
A volta por cima e a busca pelo índice de Boston
Para encarar Boston, Alana procurou o experiente treinador Nelson Evêncio. Antes de aceitá-la na assessoria, Nelson exigiu um teste rigoroso: correr uma meia maratona abaixo de duas horas no Central Park sob frio de -2 °C, sem pausas no relógio. O desafio foi cumprido e a parceria se firmou.
A estreia em Boston, no entanto, foi turbulenta. Por ter ido via convite e sem tempo de qualificação, Alana lidou com críticas e cobranças nas redes. Essa pressão serviu de combustível para uma promessa: voltar a Boston com o índice oficial conquistado na pista. A meta foi alcançada na Maratona de Valência 2023, onde cravou o tempo de 3h26, permitindo correr Boston novamente com índice e fechar um ciclo emblemático de superação.
Acupressão contra a dor e a vivência na Two Oceans
Além de maratonista, Alana é farmacêutica bioquímica, mestre em acupuntura voltada a lesões esportivas e doutoranda em dor crônica. Na prática clínica e nas próprias provas, ela costuma aplicar técnicas de acupressão para modular o desconforto muscular prolongado. Uma das principais estratégias é a estimulação do ponto LI4 (Intestino Grosso 4), localizado na musculatura entre o polegar e o indicador da mão, frequentemente pressionado para amenizar picos de fadiga e dor.
Essa resistência física e mental foi testada na tradicional ultramaratona Two Oceans, na África do Sul, prova de 56 km com altimetria desafiadora. A prova teve um componente especial: seu pai, ex-nadador e triatleta, acompanhou todo o trajeto de bicicleta, prestando suporte informal e garantindo um desfecho marcante para a experiência.
Novo horizonte no Ironman e projetos futuros
Após completar as Six Majors, Alana mira a distância full do Ironman. O compromisso nasceu de uma promessa pessoal e de uma causa: apoiar uma amiga próxima que superou o câncer de mama, transformando os meses de preparação em uma campanha de conscientização sobre o diagnóstico precoce.
Com histórico nas três modalidades — natação em águas abertas, ciclismo de estrada e maratonas —, o foco agora é conciliar os volumes e a logística de treinos. Paralelamente às pistas e aos atendimentos clínicos, Alana também desenvolve a Kona, sua marca própria voltada ao ecossistema esportivo, consolidando o conhecimento acumulado ao longo de mais de uma década dedicada ao endurance.