Como a NR-1 e a cultura humana transformam a gestão
Paulo Ruivo detalha a gestão de riscos psicossociais e o modelo de riqueza compartilhada adotado no Instituto Homem.
A regulamentação dos riscos psicossociais na NR-1 coloca a saúde mental no centro da estratégia corporativa. Paulo Ruivo analisa a aplicação da antroposofia na liderança e como a divisão societária reduz o turnover a zero.
Paulo Ruivo, sócio e diretor de humanização do Instituto Homem, abordou, em conversa com Bruno Gimenes no Marketing - The Podcast, os impactos da atualização da NR-1 nas organizações e a necessidade de estruturar culturas corporativas voltadas à saúde mental e ao desenvolvimento humano.
No vídeo acima, Ruivo detalha a aplicação prática dos conceitos antroposóficos na governança empresarial e compartilha o modelo societário implementado na rede de clínicas médicas em que atua.
A exigência da NR-1 e os riscos psicossociais
A revisão da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) estabeleceu que as empresas com funcionários sob regime CLT devem identificar, avaliar e gerenciar riscos psicossociais dentro do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), equiparando esses fatores aos riscos físicos e ergonômicos. O debate ganha urgência diante do avanço dos afastamentos por transtornos mentais, que cresceram 67% entre 2023 e 2024, registrando 440.000 trabalhadores afastados em 2024.
Para Ruivo, a normatização formaliza práticas que a abordagem antroposófica já trabalhava na governança interna. "Graças a Deus, a humanidade vai se desenvolvendo e vai achando caminhos para poder ter um sentido melhor a força do trabalho", afirma. Ele aponta que ambientes corporativos tradicionais historicamente negligenciaram sintomas de esgotamento e pânico, tratando quadros clínicos com preconceito.
Alinhamento da liderança e vitalidade dos times
Ao estruturar a cultura do Instituto Homem, Ruivo iniciou o trabalho diretamente com os fundadores e diretores, revisando aspectos da vida pessoal, relações de poder e finanças. Ruivo explica que a vitalidade do colaborador é a base para a capacidade de entrega e execução, exigindo uma percepção que vá além da visão transacional de contratação.
"Eu preciso sentir esse meu colaborador e compreender ele num campo um pouco super para sensorial, acima do que é esse senso comum entre os seres humanos", diz. A partir do momento em que a liderança passa por esse refinamento interno, a organização consegue reduzir atritos operacionais e sustentar o crescimento sem comprometer a saúde das equipes.
O tripé social e a riqueza compartilhada
A metodologia aplicada por Ruivo fundamenta-se nos princípios de liberdade cultural, igualdade jurídica e fraternidade econômica. Na prática, a estrutura organizacional elimina a hierarquia vertical rígida e adota um modelo de sociedade acessível a todos os níveis operacionais da rede.
"A riqueza compartilhada é essa força que tá ligada com na antroposofia, a gente fala muito sobre a Revolução Francesa, o grito da Revolução Francesa, que é a liberdade, igualdade e fraternidade", pontua. No Instituto Homem, colaboradores têm a opção de adquirir cotas de 1% a 5% das novas unidades abertas, como a operação inaugurada em Goiânia, na qual 50% do capital pertence ao instituto e os outros 50% são disponibilizados a investidores internos.
Ruivo destaca que a política de remuneração aliada à participação societária levou a taxa de turnover a zero. "Hoje a gente tem recepcionista que tá voando de salário e tá tendo uma vida boa, tá vivendo bem", relata, reforçando que o sentimento de pertencimento decorre da condição real de sociedade.
O papel educativo das corporações
Citando conferências de Rudolf Steiner, Ruivo argumenta que os ambientes de trabalho assumem cada vez mais a função formativa que as universidades tradicionais deixaram de suprir integralmente. Empresas consolidadas no mercado vêm redesenhando processos para educar seus profissionais em competências técnicas, emocionais e financeiras.
O diretor pontua que o acolhimento individual a colaboradores em momentos de vulnerabilidade é indispensável para evitar o colapso físico e psicológico gerado pela pressão corporativa. "Não é sobre ter, minha gente, é sobre ser. Quem eu sou? E a partir do momento que a gente começa a olhar para o ser, a gente explode", conclui Ruivo.