Curated
Voltar D @donasdavoz 7 min de leitura
lifestyle

Mãe de Pet: Amor, Luto e a Evolução da Relação com Animais

Da paixão ao luto: entenda o amor por pets, o valor do vínculo e a importância do acolhimento na despedida.

O papel dos pets em nossas vidas mudou drasticamente, trazendo amor, companhia e, por vezes, um luto invisível. Neste artigo, as especialistas Natalia Nigro e Raquel Rocha, da Laica Funeral Pet, discutem com Livia Matos a profundidade do vínculo e a importância de validar essa dor.

O mundo dos pets transcende a simples companhia, transformando-se em um laço profundo que redefine as estruturas familiares e impacta diretamente o bem-estar humano. Neste episódio do "Donas da Voz", a host Livia Matos conversa com as convidadas Natalia Nigro (psicóloga de luto) e Raquel Rocha (co-fundadoras da Laica Funeral Pet), para explorar a complexidade dessa relação, o significado de ser uma "mãe de pet" e a importância de validar o luto não reconhecido pela perda desses companheiros.

PUBLICIDADE (GAM) — 1250x250

A Evolução do Vínculo com os Pets

No Brasil, a relação com os pets tem se intensificado de forma notável. Com um número estimado de 150 a 160 milhões de pets em 2024, superando significativamente o número de crianças até 14 anos, percebe-se uma mudança comportamental e nas construções familiares. Longe da imagem de animais confinados no quintal, os pets hoje ocupam um lugar central dentro de casa, dormindo na cama e recebendo o mesmo afeto de um membro da família.

Essa proximidade, impulsionada em parte pela urbanização e pelos apartamentos pequenos, tem raízes históricas profundas. O vínculo entre humanos e animais, especialmente cães, não é uma invenção moderna, mas uma relação milenar que se adaptou e transformou junto com a sociedade.

Mãe de Pet: Amor, Luto e a Evolução da Relação com Animais

“Mãe de Pet”: Amor ou Modismo?

A expressão "mãe de pet" frequentemente gera debate, mas para as entrevistadas e para Livia, ela é uma realidade profunda. Natalia Nigro, psicóloga, explica que o termo incomoda porque desafia a lógica tradicional da estrutura familiar. Com base na psicanálise, a maternagem é definida como um conjunto de cuidados, proteção e afeto, que vai muito além do aspecto biológico. Por que não estender esse conjunto de sentimentos e ações a um ser de outra espécie?

As mulheres, historicamente socializadas para o cuidado, encontram nos pets uma forma de expressar essa maternidade, seja com sobrinhos, amigos ou animais. O instinto protetor e a capacidade de nutrir e amar se manifestam de diversas formas, e o amor por um pet é uma delas. Para muitas mulheres que optam por não ter filhos, os pets assumem um papel central, sendo amados e cuidados como filhos.

Equilíbrio e Bem-Estar: Onde está o Limite?

A discussão sobre o que é "normal" ou "saudável" na relação com os pets é complexa. As convidadas ressaltam que o termômetro é o bem-estar tanto do tutor quanto do animal. Serviços como creches e natação para pets, que para alguns podem parecer exagerados, são, na verdade, importantes para a socialização e o gasto de energia dos animais, especialmente em apartamentos. O problema surge quando a humanização excessiva ignora as necessidades específicas da espécie.

É crucial lembrar que "cachorro é cachorro, gente é gente", ou seja, suas necessidades são diferentes. Pintar o pelo do pet, por exemplo, pode ser questionável, mas se não faz mal ao animal e não impacta negativamente a vida de ninguém, é uma escolha pessoal. A máxima é: se não prejudica o pet nem outras pessoas, então é válido.

Hipervínculo: Amor Excessivo ou Necessidade?

O termo hipervínculo, comum na medicina veterinária, refere-se a uma ansiedade de separação que é uma via de mão dupla entre tutor e pet. Ambos podem desenvolver uma dependência emocional que impacta negativamente suas vidas sociais. Para evitar o hipervínculo e buscar um equilíbrio, é fundamental respeitar a espécie e suas necessidades. Muitas vezes, a questão está mais relacionada ao tutor do que ao pet, exigindo um "adestramento do humano", inclusive com o auxílio da terapia.

Benefícios dos Pets e o Crescimento do Mercado

Os pets trazem felicidade em todas as fases da vida. Na infância, promovem a responsabilidade e a empatia. Na adolescência, oferecem um refúgio seguro. Na vida adulta, trazem rotina e propósito. Para idosos, são companhia e estímulo à mobilidade. O amor incondicional e a lealdade dos pets são benefícios que eles oferecem sem pedir nada em troca.

Esse aprofundamento do vínculo impulsionou o mercado pet, que hoje movimenta bilhões. O crescimento não é apenas consumismo, mas a resposta à demanda por cuidados cada vez mais especializados: de comidas naturais a clínicas veterinárias de ponta, incluindo tratamentos como limpeza de tártaro, antes inconcebíveis. A indústria evolui para atender às novas necessidades de um ser que é visto como parte da família.

O Luto por um Pet: A Dor Invisível e a Laica Funeral Pet

Lidar com a perda de um pet é uma das experiências mais difíceis para um tutor. É nesse momento que entra a Laica Assistência Funeral Pet, co-fundada por Natalia e Raquel. A Laica nasceu da necessidade das próprias fundadoras de encontrar amparo ao perderem seus pets. A empresa oferece acolhimento e serviços de cremação para cães, gatos, pássaros, hamsters e outros animais de pequeno e médio porte, garantindo um tratamento digno ao corpo do animal.

É importante saber que enterrar um pet no solo comum é crime ambiental, com multas elevadas. A cremação individual é uma solução limpa e ecológica. Para as cinzas, existem opções como joias, diamantes ou o mini kit plantio da Laica, que permite ao tutor plantar uma semente junto às cinzas, simbolizando a continuidade da vida e a renovação de um ciclo. Esse ritual terapêutico ajuda na elaboração do luto.

O Luto Não Reconhecido

O luto por um pet é, muitas vezes, um luto não reconhecido (disenfranchised grief). A sociedade tende a invisibilizar essa dor, com frases como "é só um cachorro" ou "já já você pega outro". Isso invalida o sofrimento do tutor, que pode ser tão intenso e duradouro quanto a perda de um familiar humano, levando a depressão e tristeza profunda. Natalia e Raquel destacam que o primeiro passo para o acolhimento é justamente validar essa dor. Felizmente, algumas empresas já começam a oferecer licença-luto para a perda de pets, reconhecendo o impacto que essa experiência tem nos funcionários.

Mitos e Verdades sobre Nossos Companheiros (Voz em Jogo)

Livia Matos propõe um jogo de mitos e verdades com as convidadas, desvendando algumas crenças comuns:

  • Cães só enxergam em preto e branco? Mito. Eles enxergam cores como o azul e reconhecem outros animais na TV, como demonstram os pets das convidadas.
  • Gatos sempre caem de pé? Mito. Embora tenham uma tendência a isso, acidentes acontecem, e é crucial telar as janelas para evitar quedas.
  • Cachorro pode sentir quando o tutor está triste? Verdade. Eles são extremamente sensíveis e oferecem conforto, permanecendo ao lado de seus humanos.
  • Banho em excesso faz mal ao pet? Verdade. Banhos muito frequentes podem remover a barreira protetora da pele, aumentando o risco de alergias e problemas dermatológicos.
  • Gatos não se apegam ao dono, apenas à casa? Mito. Gatos desenvolvem laços profundos com seus tutores, não apenas com o ambiente.
  • Ter um pet ajuda a reduzir estresse e ansiedade? Verdade. Isso é cientificamente comprovado, pois a interação com animais libera hormônios do bem-estar.
  • O luto só existe quando morre uma pessoa próxima? Mito. Existem muitos tipos de luto, e a perda de um pet é um deles.
  • Sentir dor por um pet, um relacionamento ou um trabalho perdido é exagero? Mito. Todas essas perdas podem gerar luto e dor genuína, que precisam ser validadas.

Conselhos Essenciais para Tutores

Para quem pensa em adotar um pet, a dica principal é: tenha amor e responsabilidade. Pet não é brinquedo nem presente, mas uma escolha que demanda compromisso de 13 a 15 anos. É fundamental que todos os membros da casa estejam de acordo e cientes dos desafios. Além do afeto, é preciso ter recursos financeiros para custear alimentação de qualidade, vacinas, consultas veterinárias, medicamentos e higiene. Um pet é um ser vivo que se vincula e sente, e abandoná-lo causará sofrimento. A pandemia, por exemplo, viu um aumento de adoções e, subsequentemente, de abandonos.

Para todas as mães e pais de pet, a mensagem final é clara: o que você sente, o seu vínculo e afeto com seu pet são reais, verdadeiros, justos e válidos. Desde que você e seu pet estejam bem, com as necessidades da espécie atendidas, aproveite cada momento. O tempo com eles é curto, mas o amor permanece para sempre. Não se importe com o que os outros dizem; celebre esse amor que preenche e transforma a vida.

PUBLICIDADE (GAM) — 1250x250

Mais de @donasdavoz