Inclusão: Desvendando Mitos e Promovendo Respeito com Daniela Bortman
Aprenda a construir um mundo mais inclusivo com dicas práticas e respeitosas.
Neste episódio transformador do Donas da Voz, Livia Matos e a Dra. Daniela Bortman, a primeira médica tetraplégica do Brasil, desvendam os segredos da inclusão. Elas abordam desde a terminologia correta até como oferecer ajuda sem constrangimento, combatendo o capacitismo e promovendo um ambiente mais acolhedor para todos. Uma verdadeira aula sobre como o respeito e a equidade constroem um futuro melhor.
No quadro 'Inspira e Ação' do Donas da Voz, a host Livia Matos recebe a Dra. Daniela Bortman, médica, palestrante e Head de Medicina e Saúde Ocupacional da Bayer, reconhecida por ser a primeira médica tetraplégica do Brasil. Este episódio é uma aula essencial sobre inclusão de pessoas com deficiência, abordando temas como preconceito, direitos e a importância de um ambiente mais acessível e respeitoso para os mais de 18 milhões de brasileiros com deficiência, que representam quase 10% da população. A Dra. Daniela enfatiza que a falta de conhecimento é um grande obstáculo, e que a conversa aberta é fundamental para desmistificar o tema.
"Pessoas com Deficiência": A Linguagem Correta e Respeitosa
Um dos primeiros e mais importantes passos para a inclusão é a linguagem adequada. A Dra. Daniela Bortman esclarece que o termo correto é "pessoas com deficiência" (PcD). Ela explica por que termos como "portador de necessidade especial" são inadequados: "portar" implica que a deficiência pode ser deixada em algum lugar, o que não é o caso. Da mesma forma, usar apenas "deficiente" sem especificar é generalista e impreciso, sugerindo que a pessoa é "deficiente" em sua totalidade.
É importante especificar o tipo de deficiência, por exemplo: "pessoa com deficiência física", "deficiente auditivo" ou "pessoa com deficiência visual". Contrariando a crença popular, a Dra. Daniela afirma que usar a palavra "cego" não é politicamente incorreto. O que deve ser evitado são termos infantis ou diminutivos pejorativos, como "cegrinho" ou "anãozinho", que carregam um tom depreciativo. O respeito genuíno na escolha da palavra é o que realmente importa.
Como Oferecer Ajuda sem Constranger: A Regra de Ouro
A insegurança sobre como agir perto de pessoas com deficiência é comum. Para uma interação respeitosa, a Dra. Daniela oferece duas perguntas de ouro que resolvem 99,9% dos problemas de constrangimento e distanciamento: "Você precisa de ajuda?" e, se a resposta for sim, "Como posso te ajudar? Me ensina?" A chave é perguntar antes de agir e nunca impor sua ajuda.
Algumas dicas práticas incluem:
- Cadeirantes: Jamais empurre ou vire a cadeira de rodas sem pedir permissão. Se a conversa for longa, procure se sentar para manter o nível dos olhos. Não toque em equipamentos como muletas, bengalas ou próteses, pois são extensões do corpo da pessoa.
- Deficiência Visual: Ofereça o seu braço para a pessoa segurar, em vez de arrastá-la. Não aumente o tom de voz; a deficiência visual não afeta a audição.
- Deficiência Auditiva: Fale de frente, de forma clara e expressiva, permitindo a leitura labial. Não precisa gritar. Se a comunicação for difícil, escreva um bilhete ou utilize aplicativos como o HandTalk, que traduz Libras (Língua Brasileira de Sinais, o segundo idioma oficial do Brasil).
A regra de ouro é sempre se dirigir diretamente à pessoa com deficiência, e não ao seu acompanhante ou intérprete. A Dra. Daniela Bortman exemplifica: "Eu chego no restaurante, as pessoas perguntam para minha assistente o que eu quero comer. Não se dirige a mim." Este pequeno gesto faz toda a diferença.
Quebrando Mitos e Entendendo a Equidade
A inclusão não é "mimimi" nem modismo, é uma necessidade real para milhões de pessoas. Um mito comum é associar certas habilidades à deficiência, como a crença de que toda pessoa com deficiência visual será um bom músico (estereótipo reforçado por figuras como Andrea Bocelli). A Dra. Daniela enfatiza que a deficiência é apenas uma característica entre bilhões que a pessoa possui e não define sua capacidade ou talento em outras áreas. Rotular pessoas com base apenas em sua deficiência é desumanizante.
A sociedade é, muitas vezes, capacitista, mesmo que inconscientemente. O capacitismo é o preconceito contra pessoas com deficiência, que as julga como menos capazes. A Dra. Daniela ressalta a importância de reconhecer e desconstruir esse comportamento. Não devemos sentir pena, mas sim buscar a equidade: tratar desigualmente os desiguais para que todos tenham as mesmas oportunidades. Por exemplo, se uma pessoa cadeirante não consegue subir escadas, a equidade exige a disponibilização de uma rampa, não para dar um privilégio, mas para que ela tenha o mesmo acesso que todos.
Sobre as cotas para pessoas com deficiência no mercado de trabalho, a Dra. Daniela as considera um "mal necessário". Elas garantem o acesso a vagas, mas a contratação deve focar nas habilidades e competências do indivíduo para funções dignas, e não apenas na deficiência como um requisito a ser preenchido. O objetivo é que a pessoa exerça um trabalho com demanda e valor, compatível com suas qualificações.
As Barreiras e a Tecnologia Assistiva: Por um Mundo Melhor
Existem diversos tipos de barreiras à inclusão: urbanísticas (calçadas irregulares), arquitetônicas (prédios sem rampas ou elevadores), e a pior de todas, a barreira atitudinal – os preconceitos e a falta de disposição para falar sobre o assunto. Essa barreira impede a naturalização e o avanço da inclusão.
A Organização das Nações Unidas (ONU) redefine deficiência não apenas como um impedimento do corpo, mas como a interação desse impedimento com as barreiras da sociedade, que juntas impedem a participação plena. Isso significa que um ambiente acessível pode mitigar a limitação. É aqui que entram as tecnologias assistivas: dispositivos e ferramentas (como cadeiras de rodas, próteses, softwares adaptados ou até adaptações manuais) que ajudam a mitigar as limitações causadas pela deficiência.
A Livia Matos e a Dra. Daniela Bortman concluem que a inclusão é um trabalho contínuo, que exige respeito, letramento e abertura. Um mundo mais inclusivo não é apenas moralmente correto; ele beneficia a todos. Muitas soluções de acessibilidade, como rampas (úteis para carrinhos de bebê) e legendas (criadas para surdos e usadas para aprender outros idiomas), melhoram a vida de toda a população. Empresas mais diversas performam melhor, e um mundo com menos preconceito e mais inclusão é, de fato, um mundo melhor para todos. Comece agora: pergunte, aprenda e contribua para um futuro onde ninguém seja deixado para trás.