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Daniela Bortman: Superação, Inclusão e Saúde no Trabalho

Descubra como a Dra. Daniela Bortman transformou a adversidade em propósito, inspirando um futuro mais inclusivo.

A Dra. Daniela Bortman, primeira médica tetraplégica do Brasil, compartilha sua jornada de superação após um acidente. Sua história destaca a importância da inclusão, saúde mental e como o preconceito afeta o acesso à saúde e ao mercado de trabalho. Uma conversa inspiradora sobre resiliência, liderança feminina e o combate ao capacitismo.

No videocast Donas da Voz, a apresentadora Livia Matos recebe a inspiradora Dra. Daniela Bortman, médica do trabalho, palestrante, consultora e a primeira médica tetraplégica do Brasil. Sua história é um poderoso testemunho de resiliência, empoderamento e a luta por um mundo mais inclusivo, abordando desde sua paixão pela medicina até os desafios do capacitismo e a importância da saúde mental.

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Paixão pela Medicina e o Acidente Abrupto

Desde muito nova, Daniela sonhava em ser médica, influenciada por seus pais, ambos profissionais da saúde. Ela lembra com carinho de ver seus pais melhorando a vida das pessoas e de sua própria inclinação para cuidar dos outros, mesmo na adolescência. Sua vocação era clara.

No terceiro ano da faculdade de medicina, um acidente de carro mudou tudo. Sem cinto de segurança no banco do passageiro, seu veículo foi atingido em alta velocidade, resultando em uma lesão cervical que a deixou tetraplégica. O impacto foi tão grande que Daniela só recuperou a consciência do ocorrido 15 dias depois. Seu cérebro, de alguma forma, apagou a memória imediata do trauma. A recuperação inicial foi marcada por um coma induzido e 70 dias em respirador.

Daniela Bortman: Superação, Inclusão e Saúde no Trabalho

A Negação e a Descoberta do Capacitismo

Após o acidente, Daniela viveu uma negação completa, acreditando que a situação seria temporária. Mesmo como estudante de medicina, ela não tinha a compreensão da diversidade ou da vida com deficiência. O desespero veio ao perceber que seu corpo não respondia mais aos comandos, o que a levou a um desejo de morte, sentindo que não haveria caminho se não recuperasse os movimentos.

Com o apoio fundamental de sua família, amigos e uma equipe multidisciplinar, ela persistiu em todas as terapias possíveis, buscando a recuperação. Contudo, a ausência de melhora a confrontou com uma nova realidade. Daniela percebeu que a limitação não estava nela, mas sim nas perspectivas limitadas de uma sociedade que não via possibilidades para pessoas com deficiência. Ela se viu como uma pessoa preconceituosa, reproduzindo em si mesma o olhar externo. O reconhecimento desse preconceito internalizado foi doloroso, mas também o ponto de virada para a desconstrução de suas próprias barreiras.

A Luta Pelo Retorno à Medicina e a Importância da Saúde Mental

Ao tentar retornar à faculdade, Daniela foi proibida pelo reitor, que afirmou que ela “não podia mais ser médica”. Essa frase, “não dá”, se tornou um impulsionador. Ela teve que entrar na justiça e, a partir daí, se esforçar três vezes mais para provar sua capacidade. Com autoconhecimento e a recuperação da autoestima, ela entendeu que o “não dá” frequentemente reflete a incapacidade do outro de enxergar soluções.

A jornada de Daniela destaca a importância vital do acompanhamento psicológico e psiquiátrico. Mesmo com acesso a esses profissionais, lidar com as transformações foi extremamente difícil. Ela ressalta que é crucial encontrar um profissional que gere conexão, e que a terapia não deve ser buscada apenas em momentos de sofrimento, mas como um processo contínuo de autoconhecimento e desenvolvimento.

A saúde mental, ela enfatiza, é um problema global com impactos econômicos alarmantes. No Brasil, o adoecimento de funcionários custa R$397 bilhões anuais às empresas, e apenas 23% dos colaboradores se sentem engajados. Daniela aponta a necessidade de as empresas cuidarem não só do ambiente físico, mas também dos fatores psicossociais no trabalho, como carga de trabalho, autonomia e suporte.

Desafios Femininos e a Rede de Apoio

As mulheres, segundo Daniela, adoecem mais que os homens por diversas razões. Além das diferenças biológicas, questões sociais como a dupla e tripla jornada, pressões estéticas e a perda desproporcional de empregos após a maternidade (40% para mulheres versus 6% para homens) contribuem para maiores índices de ansiedade e depressão. A ciência, focada historicamente em corpos masculinos, também tem uma lacuna no entendimento da saúde feminina.

Em meio a esses desafios, a rede de apoio se torna fundamental. Daniela compartilha a importância de seu marido, que a conheceu após o acidente. Ele a ajudou a resgatar a autoestima, vendo-a além da cadeira de rodas e construindo uma parceria baseada no respeito e na divisão de tarefas. A percepção social comum de que o amor em casos de deficiência só é possível se pré-existente ao trauma, segundo Daniela, é um exemplo claro de capacitismo estrutural.

Liderança, Inclusão e o Preconceito que Mata

Como líder em uma das maiores farmacêuticas do mundo, Daniela enfrentou o desafio de se impor como mulher, jovem e com deficiência em um ambiente profissional. Ela destaca que ter um diploma médico facilitou seu ingresso no mercado de trabalho, mas a barreira atitudinal (o preconceito) é um obstáculo constante para muitas pessoas com deficiência.

Daniela atua como consultora em Diversidade, Equidade e Inclusão, buscando criar ambientes de trabalho mais saudáveis. Ela critica a inclusão que se limita ao cumprimento de cotas, defendendo que a pessoa deve ser contratada por suas habilidades e demandas, não pela deficiência. Uma experiência marcante foi uma entrevista de emprego onde, após várias etapas, ela foi dispensada sob a alegação de falta de acessibilidade, mesmo para necessidades que ela não possuía. Esse caso ilustra como a falta de informação e o preconceito excluem.

A Dra. Bortman cunhou a frase “O preconceito mata”. Ela explica que a exclusão gerada pelo preconceito leva ao sofrimento, que, por sua vez, resulta em adoecimento físico. Como exemplo, ela relata a dificuldade e a dor de tentar fazer uma mamografia em um centro diagnóstico de ponta, onde a falta de acessibilidade tornou o exame inviável, mostrando como a ausência de acesso pode, literalmente, custar uma vida. Ela também cita casos de pacientes negros com tempo de consulta reduzido e pessoas trans encaminhadas erroneamente, evidenciando que a barreira atitudinal é uma questão de vida ou morte no acesso à saúde.

Ao avaliar o Brasil em termos de acessibilidade e inclusão, Daniela atribui a nota dois, destacando que, embora a legislação seja excelente (nota dez), a aplicabilidade é quase nula.

A Pergunta Donas da Voz

Ao final da conversa, questionada sobre o que diria a seu eu mais jovem, Daniela Bortman, com sua sabedoria e serenidade, responde: “não demorar tanto tempo para me tornar minha melhor companhia”. Uma mensagem poderosa sobre autoaceitação e amor-próprio, que ecoa a essência de sua jornada e inspira a todas as mulheres a abraçarem suas próprias histórias com força e propósito.

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